MANUAL OFICIAL

 

DA

 

LEGIÃO DE MARIA

 

 

1ª edição no Brasil

conforme nova edição revista

e aumentada publicada pelo

Concilium em 1993

 

CONCILIUM LEGIONIS MARIAE

De Montfort House

North Brunswick Street

Dublin – Ireland

 

NOVA EDIÇÃO REVISADA NO BRASIL – 1996

 

Concilium Legionis –Dublin / Irlanda

 

Nada obsta:

       Joseph Moran, O.P.

       Censor Theologicus Deputatus

 

Imprima-se:

     +  Desmond Connell

         Arcebispo de Dublin

Hiberniae Primas

 

Dublin, 8 de dezembro de 1993.

 

 

SENATUS DO BRASIL

 

Nada obsta:

       Pe. Antonio Carlos Rossi Keller

       Censor “ad hoc”

Imprima-se:

                       Paulo Evaristo   Card. Arns

                       Arcebispo Metrop. de São Paulo

     São Paulo, 14. 6. 1996.

_____________________________________________________________

DISTRIBUIÇÃO DE MATERIAIS:

Vide relação anexa no final deste Manual.


Índice Geral dos Assuntos

                                                                                                               Página

Abreviaturas dos livros da Bíblia...........................................................        3

Abreviaturas dos Documentos do Magistério........................................        4

João Paulo II à Legião de Maria.............................................................        5

Nota Preliminar.......................................................................................       7

Perfil de FRANK DUFF.........................................................................       8

Fotografias: Frank Duff........................................................ face à pág.       8

                    [Altar] Legionário............................................. face à pág.   106

                    Vexilla........................................................... face às págs.146-7   

 

Capítulos:

1. Nome e origem....................................................................................       9

2. Finalidade da Legião...........................................................................     11

3. O espírito da Legião............................................................................     12

4. Serviço legionário...............................................................................      13

5. Espiritualidade da Legião....................................................................     17

6. Os deveres dos legionários para com Maria........................................     25

7. O legionário e a Santíssima Trindade..................................................     41

8. O legionário e a Eucaristia...................................................................     44

9. O legionário e o Corpo Místico de Cristo............................................     50

10. Apostolado da Legião.........................................................................    57

11. O plano da Legião...............................................................................    67

12. Fins externos da Legião.......................................................................   71

13. Condições de admissão na Legião.......................................................   80

14. O Praesidium.......................................................................................    83

15. Compromisso legionário......................................................................   89

16. Graus suplementares da Legião...........................................................    91

17. As almas dos legionários falecidos......................................................  102

18. Ordem a observar na reunião do Praesidium.......................................  104

19. A reunião e o membro.........................................................................   115

20. O sistema legionário não deve ser alterado.........................................   124

21. O místico lar de Nazaré.......................................................................   126

22. Orações da Legião...............................................................................   129

23. As orações são invariáveis...................................................................  133

24. Padroeiros da Legião............................................................................  134

25. O Quadro da Legião.............................................................................  143

26. A Tessera..............................................................................................  146

27. Vexillum Legionis................................................................................  147

28. Administração da Legião......................................................................  150

29. Lealdade legionária...............................................................................  168

30. Solenidades legionárias.........................................................................  170

31. Expansão e recrutamento....................................................................... 177


                                                                                                                      Página

32. Antecipando objeções prováveis............................................................    180

33. Principais deveres dos legionários..........................................................   188

34. Deveres dos oficiais do Praesidium........................................................    207

35. Receitas e Despesas................................................................................    217

36. Praesidia que exigem tratamento especial...............................................   219

37. Sugestões de trabalhos.............................................................................   227

38. Os Patrícios..............................................................................................   257

39. Principais diretrizes do apostolado legionário.........................................   269

40. “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”..............   304

41. “A maior das três é a caridade” ...............................................................   324

APÊNDICES:

Apêndice 1: Cartas e mensagens papais..........................................................   327

Apêndice 2: Alguns extratos da Constituição

                     Lumen Gentium do Vaticano II .................................................   332

Apêndice 3: Trechos do Direito Canônico sobre as

                    obrigações e direitos dos fiéis leigos na Igreja.............................   334  

Apêndice 4: A Legião Romana.........................................................................  336

Apêndice 5: A Arquiconfraria de Maria, Rainha dos Corações.......................   338

Apêndice 6: A Medalha da Imaculada Conceição

                    chamada “Medalha Milagrosa” ....................................................   340

Apêndice 7: A Confraria do Santíssimo Rosário...............................................  342

Apêndice 8: O ensino da Doutrina Cristã...........................................................  344

Apêndice 9: Associação de Pioneiros da Temperança

                    Total em honra do Coração de Jesus...............................................  345

Apêndice 10: O estudo da Fé..............................................................................  346

Apêndice 11: Síntese marial...............................................................................   349

Oração de S. Bernardo........................................................................................   352

Índice das referências bíblicas.............................................................................  353

Índice dos Documentos do Magistério................................................................. 355

Índice das referências papais................................................................................ 356

Índice dos Autores e outras pessoas de interesse.................................................. 357

Índice geral dos assuntos (pormenorizado) .......................................................... 360

Índice alfabético dos assuntos............................................................................... 366

Nota sobre as referências a Jesus Cristo................................................................ 373

Poema de José Maria Plunket................................................................................ 374

 

Abreviaturas dos Livros da Sagrada Escritura

Antigo Testamento

 

Novo Testamento

 

GN                Gênesis

EX                  Êxodo

JS                   Josué

1 SM              1 Samuel

1 Cr               1 Crônicas

Sl                    Salmo

Ecl                 Eclesiastes

Ct                   Cântico dos Cânticos

Eclo               Eclesiástico

Is                    Isaías]

Dn                  Daniel

 

Mt                  Mateus, Mc                         Marcos, Lc                          Lucas

Jo                   João    , At  Atos dos Apóstolos,  Rm                       Romanos

1 Cor            1 Coríntios, 2 Cor            2 Coríntios, Gl                  Gálatas

Ef                   Efésios

Fl                    Filipenses

Cl                   Colossenses

1 Ts               1 Tessalonicenses

1 Tm             1 Timóteo

2 Tm             2 Timóteo

Hb                  Hebreus

1 Pd    1 Pedro

1 Jo     1 João

Jd                   Judas

Abreviaturas dos Documentos do Magistério

 

DOCUMENTOS DO VATICANO II (1962-1965)

 

AA      Apostolicam Actuositatem (Decreto sobre o Apostolado dos Leigos)

DV      Dei Verbum (Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação)

GS       Gaudium et Spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo)

LG       Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja)

PO       Presbyterorum Ordinis (Decreto sobre o Ministério e Vida dos Sacerdotes)

SC       Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia)

UR       Unitatis Redintegratio  (Reintegração da Unidade)

 

OUTROS DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO

 

AAS    Acta Apostolicae Sedis (Atos da Sé Apostólica)

AD      Ad diem illum (Jubileu da definição da Imaculada Conceição, S. Pio X, 1904)

AN      Acerbo Nimis (Ensino da Doutrina Cristã, S. Pio X, 1905)

CIC    Catecismo da Igreja Católica, 1992.

ChL    Christifideles Laici (A vocação e a missão dos fiéis leigos na Igreja e no Mundo,                                João Paulo II, 1988)

CT       Catechesi Tradendae (A catequese no nosso tempo, João Paulo II, 1979)

EI        Enchiridion Indulgentiarum (Lista oficial das indulgências e das leis que as regem. Sagrada Penitenciaria, 1968)

EN       Evangelii Nuntiandi (Evangelização do mundo moderno, Paulo VI, 1975)

FC       Familiaris Consortio (A família cristã no mundo moderno, João Paulo II, 1981)

JSE      Jucunda Semper (O Rosário, Leão XIII, 1894)

MC      Mystici Corporis (O Corpo Místico de Cristo, Pio XII, 1943)

Mcul    Marialis Cultus (A reta ordenação e desenvolvimento da devoção à Bem-aventurada Virgem Maria, Paulo VI, 1974)

MD      Mediator Dei (A Sagrada Liturgia, Pio XII, 1947)

MF      Mysterium Fidei ( O Mistério da Fé – sobre o mistério da Eucaristia, Paulo VI, 1965)

MN     Mens Nostra (Retiros, Pio XI, 1929)

PDV    Pastores Dabo Vobis (A formação dos sacerdotes nos tempos atuais, João Paulo II, 1992)

RM      Redemptoris Missio ( A validade permanente do mandato missionário, João Paulo II, 1990)

RMat   Redmptoris Mater (Maria, Mãe do Redentor, João Paulo II, 1987).

SM      Signum Magnum (Consagração a Nossa Senhora, Paulo VI, 1967)

UAD    Ubi Arcano Dei (A paz de Cristo no Reino de Cristo, Pio XI, 1922).

 

 

 

 

 

 

João Paulo II à Legião de Maria

 

Palavras do Santo Padre João Paulo II

A um grupo de legionários italianos em

30 de outubro de 1982.

 

1. As minhas boas-vindas são dirigidas a cada um de vós. É um motivo de alegria para mim ver-vos nesta sala em tão grande número, vindos das várias regiões da Itália, tanto mais que sois apenas uma pequena parte do movimento apostólico, que, no espaço de sessenta anos, se espalhou rapidamente pelo mundo e hoje, a dois anos da morte do seu Fundador, Frank Duff, está presente em muitíssimas dioceses da Igreja universal.

 

Os meus predecessores, a começar por Pio XI, dirigiram palavras de reconhecimento à Legião de Maria, e eu próprio, no dia 10 de maio de 1979, quando recebi uma das vossas primeiras delegações, recordei com grande prazer as ocasiões em que tinha estado com a Legião, em Paris, Bélgica, Polônia e agora, como bispo de Roma, no decurso das minhas visitas pastorais às paróquias da cidade.

 

Hoje, portanto, ao receber em audiência a peregrinação italiana do vosso movimento, gostaria de realçar aqueles aspectos que constituem a substância da vossa espiritualidade e o vosso modo de ser e de trabalhar dentro da Igreja.

 

Chamados a ser fermento

 

2. Sois um movimento de leigos que vos propondes fazer da fé a aspiração da vossa vida, para conseguirdes a santidade pessoal. Sem dúvida que é um ideal sublime e difícil. Mas hoje a Igreja, através do Concílio, chama todos os cristãos leigos a este ideal, convidando-os a participar do sacerdócio real de Cristo, que eles exercem pelo testemunho da santidade de vida, pela abnegação e caridade concreta; a ser no mundo, com o esplendor da fé, esperança e caridade, aquilo que a alma é para o corpo (Lumen Gentium, 10 e 38).

 

A vossa vocação própria, como leigos, isto é, a vocação a serdes um fermento no Povo de Deus, uma força inspiradora no mundo moderno, a conduzir o sacerdote ao meio do povo, é eminentemente eclesial. O mesmo Concílio Vaticano Segundo exorta todos os leigos a aceitarem com pronta generosidade, o chamamento a uma mais íntima união com o Senhor; considerando como de todos, aquilo que lhes é próprio, participam na mesma missão salvífica da Igreja, tornam-se seus instrumentos vivos, sobretudo onde, por causa das particulares condições da sociedade moderna – o aumento constante da população, a redução do número de sacerdotes, o surgimento de novos problemas, a autono-


mia de muitos setores da vida humana – a Igreja dificilmente pode estar presente e ativa (ibidem, 33).

A área do apostolado dos leigos está nos dias de hoje extraordinariamente dilatada. Por isso, o compromisso da vossa típica vocação torna-se mais urgente, estimulante, vivo e relevante. A vitalidade do laicato cristão é sinal da vitalidade da Igreja. O vosso compromisso legionário torna-se por isso mais urgente, considerando, por um lado, as necessidades da sociedade italiana e das nações de antiga tradição cristã, e, por outro, os brilhantes exemplos que vos precederam no vosso próprio movimento. Quero lembrar-vos apenas alguns nomes: Edel Quinn, com a sua atividade na África negra; Afonso Lambe, nas áreas marginalizadas da América Latina e, finalmente, os milhares de legionários assassinados na Ásia ou que terminaram a vida nos campos de trabalho.

 

Com o espírito e a solicitude de Maria

 

3. A vossa espiritualidade é eminentemente mariana, não só porque a Legião se gloria do nome de Maria como sua bandeira desfraldada, mas, acima de tudo, porque baseia a sua espiritualidade e apostolado no princípio dinâmico da união com Maria, na verdade da íntima participação da Virgem Maria no plano da salvação.

 

Por outras palavras, vós pretendeis servir cada pessoa, imagem de Cristo, com o espírito e solicitude de Maria.

 

Se o nosso único Mediador é o homem Jesus Cristo, como declara o Concílio, “a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum enfraquece o brilho ou diminui esta única mediação de Cristo; manifesta antes a sua eficácia” (LG 60). Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Perpétuo Socorro, Medianeira, Mãe da Igreja.

 

Daqui vem, que no seu nascimento e crescimento e no seu trabalho apostólico, olha para Aquela que deu Cristo à luz, concebido pela ação do Espírito Santo. Onde está a Mãe, aí está também o Filho. Aquele que se afasta da Mãe acaba, mais cedo ou mais tarde, por se distanciar do Filho. Não é de admirar que hoje, em vários setores da sociedade, notamos uma difundida crise da fé em Deus, precedida de uma queda na devoção à Virgem Mãe.

 

A vossa Legião faz parte dos movimentos que se sentem pessoalmente comprometidos a propagar ou fazer nascer a fé, mediante a expansão ou o renascimento da devoção a Maria. Deste modo, será sempre capaz de fazer quanto puder para que, pelo amor à Mãe, seja mais conhecido e amado o Filho – caminho, verdade e vida de cada pessoa.

 

É nesta perspectiva de fé e de amor que vos concedo, de todo o coração a Bênção Apostólica.       


NOTA DE ESCLARECIMENTO

 

A presente edição deste Manual recebeu revisão de linguagem a partir da edição de Portugal, traduzida diretamente do original inglês (Dublin – Irlanda).

 

A equipe responsável não fez qualquer alteração no conteúdo (não se contemplaram outros aspectos como: normas, orientações pastorais etc., bem como os nomes em latim, que foram mantidos), visto ser isso competência exclusiva do Concilium Legionis.

 

Buscou-se, sempre sendo fiel ao original, tão somente simplificar a linguagem, de modo a torná-la mais acessível e mais clara. Procurou-se adequar o vocabulário, o máximo possível, à realidade de comunicação e expressão do Brasil.

 

Que o mesmo Divino Espírito, que iluminou e animou este trabalho, venha a suprir, no coração e no entendimento da família legionária, as falhas que nossas limitações não conseguiram sanar.

 

Com carinho, pelas mãos de Maria,  

                                                                            EQUIPE DE REVISÃO

 

 

1921 – 1996

“LEGIÃO DE MARIA:

75 anos no Mundo e

45 Anos de Caminhada no Brasil”

 

Nota Preliminar

 

A Legião é um sistema que pode ser desequilibrado pela supressão ou alteração de qualquer das suas partes. Dela poderiam ter sido escritos os seguintes versos de Whittier:

 

“Arrancai um só fio, e danificareis a teia.

Quebrai uma que seja dos milhares de teclas,

e o estrago há de repercutir-se em todas elas”.

 

Por isso, se não estais dispostos a pôr em prática o sistema como vem escrito nestas páginas, por favor, não fundeis a Legião. Lede cuidadosamente a este respeito o capítulo 20: “O sistema legionário não deve ser alterado”.

 

Além disso, ninguém pertence à Legião, sem nela se haver filiado, através de um Conselho devidamente aprovado.

 

Se a experiência passada pode servir de exemplo, nenhum ramo da Legião falhará, no caso de se conformar fielmente com as normas aqui traçadas.


FRANK DUFF

 

Fundador da Legião de Maria

 

Frank Duff nasceu em Dublin, na Irlanda, a 7 de junho de 1889. entrou para o Funcionalismo Civil aos 18 anos. Aos 24, alistou-se na Sociedade de S. Vicente de Paulo, onde foi levado a um mais profundo compromisso com a sua Fé Católica e adquiriu, ao mesmo tempo, uma grande sensibilidade às necessidades dos pobres e desfavorecidos.

Juntamente com um grupo de senhoras católicas e o Padre Michael Toher, da Arquidiocese de Dublin, fundou o primeiro Praesidium da Legião de Maria, a 7 de setembro de 1921. A partir desta data até a morte, a 7 de novembro de 1980, orientou a extensão mundial da Legião, com heróica dedicação. Assistiu ao Concílio Vaticano II, como observador leigo.

Os seus ímpetos de profunda compreensão do papel da Santíssima Virgem no plano da Redenção, bem como do papel dos fiéis leigos na missão da Igreja, refletem-se no Manual, quase inteiramente, obras das suas mãos.

 

                             

                                                                  Frank Duff

 

[página 9]

LEGIÃO DE MARIA

 

“Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6, 9).

 

“O nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 27).

“Legião de Maria! Que nome bem escolhido!” (Pio XI).

 

1

 

NOME E ORIGEM

 

A Legião de Maria é uma Associação de católicos que, com a aprovação da Igreja e sob o poderoso comando de Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças, (formosa como a lua, brilhante como o sol e, para Satanás e seus adeptos, terrível como um exército em ordem de batalha), se constituíram em Legião para servir na guerra, perpetuamente travada pela Igreja contra o mal que existe no mundo.

 

“Toda a vida humana, quer individual quer coletiva, se apresenta como uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas” (GS 13).

 

Este exército, hoje tão numeroso, teve a mais humilde das origens. Não proveio de longas meditações: surgiu espontaneamente, sem premeditações de regras e práticas. Surgiu a idéia. Marcou-se uma tarde para a reunião de um pequeno grupo cujos componentes dificilmente supunham que estavam a ser instrumentos da Divina e amorosa Providência. O aspecto daquela reunião foi idêntico ao das reuniões legionárias que depois viriam a se efetuar em toda a terra. No meio do grupo, sobre uma mesa,


 [Capítulo 1        Nome e Origem       página 10]

 

com uma toalha branca, erguia-se uma imagem da Imaculada Conceição (igual à da Medalha Milagrosa) ladeada por dois vasos de flores e duas velas acesas. Esta disposição, tão expressiva no seu conjunto, fruto da inspiração de um dos primeiros a chegar, refletia perfeitamente o ideal da Legião de Maria. A Legião é um exército. E, antes mesmo de os legionários se reunirem, ela, a Rainha, já aguardava, de pé, aqueles que certamente atenderiam ao seu chamado. Não foram eles que a adotaram: foi ela que os adotou. E desde então, com ela marcharam e combateram, certos de que haviam de vencer e perseverar, precisamente na medida em que estivessem unidos a ela.

 

O primeiro ato coletivo destes legionários foi ajoelhar. Aquelas cabeças jovens e ardentes inclinaram-se. Rezou-se a Invocação e a Oração ao Espírito Santo; e depois, aqueles dedos que, durante o dia, haviam trabalhado arduamente, desfiaram as contas do terço, a mais simples das devoções. Terminadas as orações, sentaram-se e, sob a proteção de Maria (representada por sua imagem), aplicaram-se a procurar os meios de mais agradar a Deus e de O tornar mais amado neste mundo, que lhe pertence. Desta troca de impressões nasceu a Legião de Maria, com a fisionomia que hoje apresenta.

 

Que maravilha! Quem, considerando a humildade de tais pessoas e a simplicidade do seu procedimento, poderia prever, mesmo num momento de entusiasmo, o destino que em breve as esperava? Quem, dentre elas, poderia imaginar que estava sendo inaugurado um sistema que, sendo dirigido com fidelidade e vigor, possuiria o poder de comunicar, através de Maria, a doçura e a esperança às nações? Entretanto, assim havia de ser.

 

O primeiro alistamento dos legionários de Maria realizou-se em Myra House, Francis Street, Dublin, Irlanda, às vinte horas do dia 7 de setembro de 1921, véspera da festa da Natividade de Nossa Senhora. A organização nascente ficou conhecida no início como “Associação de Nossa Senhora da Misericórdia”, em virtude de o primeiro grupo ter tomado o título de “Senhora da Misericórdia”.

 

Circunstâncias, aparentemente casuais, determinaram o dia 7 de setembro, que parecia menos indicado que o seguinte. Só alguns anos depois – quando provas sem número de um verdadeiro amor maternal, levaram à reflexão – é que se compreendeu que, no ato do nascimento da Legião, esta recebera das mãos de sua Rainha uma enternecedora carícia. “Da tarde e da manhã


[Capítulo 2       Finalidade da Legião       página 11]

 

se fez o primeiro dia” (Gn 1, 5); e com certeza os primeiros e não os últimos perfumes da festa da sua Natividade eram os mais apropriados aos momentos iniciais de uma organização, cujo principal e constante objetivo consiste em reproduzir em si própria, a imagem de Maria, de maneira a glorificar melhor o Senhor e a comunicá-lO aos homens.

 

“Maria é a Mãe de todos os membros do Salvador, porque ela, pela sua caridade, cooperou no nascimento dos fiéis, na Igreja. Maria é o molde vivo de Deus, porque foi só nela que um Deus-Homem se formou, de verdade, sem perder qualquer traço da sua divindade; e porque só nela é que o homem pode verdadeiramente e de uma maneira viva, formar-se em Deus, na medida em que a natureza humana disto é capaz, pela graça de Jesus Cristo” (Santo Agostinho).

 

“A Legião de Maria apresenta a verdadeira face da Igreja Católica” (João XXIII).

 

2

 

FINALIDADE DA LEGIÃO

 

A Legião de Maria tem como fim a glória de Deus, por meio da santificação dos seus membros, pela oração e cooperação ativa, sob a direção da autoridade eclesiástica, na obra de Maria e da Igreja: o esmagamento da cabeça da serpente e a extensão do reino de Cristo.

 

A menos que o Concilium aprove e as reservas apontadas no Manual Oficial da Legião, a Legião de Maria está à disposição do Bispo da Diocese e do Pároco para toda e qualquer forma de serviço social e de Ação Católica que estas autoridades julguem convenientes aos legionários e útil à Igreja. Os legionários nunca tomarão sobre si qualquer destas atividades numa Paróquia sem a aprovação do Pároco ou do Ordinário. Por “Ordinário”, nestas páginas, entende-se o Ordinário local, isto é, o Bispo diocesano ou outra autoridade eclesiástica competente.


[Capítulo 3      O Espírito da Legião      página 12]

 

a) “O fim imediato de tais organizações é o fim apostólico da Igreja, isto é, destinam-se à evangelização e à santificação dos homens e à formação cristã da sua consciência, de modo que possam fazer penetrar o espírito do Evangelho, nas várias comunidades e nos diversos ambientes.

 

b) Os leigos, cooperando a seu modo com a Hierarquia, contribuem com a sua experiência e assumem a sua responsabilidade no governo destas organizações, no estudo das condições em que a ação pastoral da Igreja se deve exercer e na elaboração e execução dos planos a realizar.

 

c) Os leigos agem unidos, como um corpo orgânico, para que se manifeste com maior evidência a comunidade da Igreja e para que o apostolado seja mais eficaz.

 

d) Os leigos, quer se ofereçam espontaneamente quer sejam convidados à ação e à direta colaboração com o apostolado hierárquico, trabalham sob a superior orientação da mesma hierarquia, a qual pode aprovar essa cooperação com um mandato explícito” (AA 20).

 

3

 

O ESPÍRITO DA LEGIÃO

 

            O espírito da Legião é o próprio espírito de Maria, de quem os legionários se esforçarão, de modo particular, por adquirir a profunda humildade, a obediência perfeita, a doçura angélica, a aplicação contínua à oração, a mortificação universal, a pureza perfeita, a paciência heróica, a sabedoria celeste, o amor corajoso e sacrificado a Deus e, acima de tudo, a sua fé, virtude que só ela praticou no mais alto grau, jamais igualado. Inspirado nesta fé e neste amor de Maria, a Legião lança-se a toda a tarefa, seja ela qual for, “sem alegar impossibilidades, porque julga que tudo lhe é possível e permitido” (Imitação de Cristo, L. III: 5).

 

“O modelo perfeito desta vida espiritual e apostólica é a bem-aventurada Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos: levando na terra uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de cuidados


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 13]

 

domésticos e de trabalhos, a todo o momento se mantinha unida a seu Filho e de modo singular cooperou na obra do Salvador... Prestem-lhe todos um culto cheio de devoção e confiem à sua solicitude materna a própria vida e apostolado” (AA 4).

 

4

 

SERVIÇO LEGIONÁRIO

 

1. O legionário deve “revestir-se da armadura de Deus” (Ef 6, 11).

 

A Legião Romana, cujo nome foi adotado pela organização, atravessou os séculos com uma gloriosa tradição de lealdade, de coragem, de disciplina, de resistência e de triunfos, embora a serviço de causas por vezes indignas, ou, pelo menos, puramente terrenas (Conferir Apêndice 4: A Legião Romana). Evidentemente que a Legião de Maria não pode apresentar-se à sua Rainha com menos virtudes que a Legião Romana, como se fosse uma jóia, mas sem as pedras preciosas que a enfeitam. As velhas virtudes daquele exército são, por conseguinte, o mínimo exigido para o serviço legionário.

 

S. Clemente, que foi convertido por S. Pedro e trabalhou com S. Paulo, propõe a Legião Romana como modelo a ser imitado pela Igreja.

 

“Quem são os inimigos? São os perversos que resistem à vontade de Deus. Lancemo-nos pois, resolutamente na batalha de Cristo e sujeitemo-nos às suas gloriosas ordens. Atentemos bem para os que servem na Legião Romana, debaixo das autoridades militares e notemos a sua disciplina, a sua prontidão, a sua obediência na execução das ordens. Nem todos são prefeitos ou tribunos ou centuriões ou chefes de cinqüenta homens ou de outro grau inferior de autoridade. Mas cada homem, na sua escala, executa as ordens do Imperador e dos seus Oficiais superiores. O grande não pode existir sem o pequeno, nem o pequeno, sem o grande. Uma certa unidade orgânica liga todas as partes, de modo que cada uma ajuda as demais e é ajudada por todas. Tomemos o exemplo do nosso corpo. A cabeça não é nada sem os pés e os pés não são nada sem a cabeça. Mesmo os mais pequenos órgãos do nosso corpo são necessários e de grande

 


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 14]

 

valor para o corpo inteiro. Com efeito, todas as partes trabalham unidas, em mútua dependência, e aceitam uma obediência comum para bem de todo o corpo” (S. Clemente, Papa e Mártir: Epístola aos Coríntios (AD. 96), cap. 36 e 37).

 

2. O legionário deve ser “uma hóstia viva, santa, agradável a Deus... não conformado com este século” (Rm 12, 1-2).

 

Deste alicerce, brotarão, no legionário fiel, virtudes tanto mais elevadas, quanto mais sublime é a sua causa, e, acima de tudo, uma nobre generosidade que será o eco das palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Receber tanto e dar tão pouco em troca! Oh! É um martírio que me leva à morte”. Contemplando o Senhor Jesus crucificado que ofereceu por ele o último suspiro e a última gota de sangue, o legionário deverá esforçar-se por reproduzir no seu apostolado uma doação completa semelhante.

 

“Diz-me, meu povo: que mais devia eu ter feito pela minha vinha, além do que fiz?” (Is 5, 4).

 

3. O legionário não deve furtar-se ao “trabalho e à fadiga” (2Cor 11, 27).

 

Como recentes acontecimentos comprovam, haverá sempre lugares na terra, em que o zelo católico deve estar preparado para enfrentar a tortura ou a própria morte. Assim muitos legionários passaram o limiar da glória de maneira triunfal. Mas, em geral, a dedicação do legionário encontrará um campo de ação mais modesto, embora lhe ofereça ampla oportunidade para um heroísmo pacífico, que não será por isso, menos verdadeiro. O apostolado da Legião obrigará o contato com muitos que, preferindo ficar longe de qualquer influência salutar, manifestarão o seu desagrado ao receber a visita daqueles cuja única missão é espalhar o bem. É claro que todos poderão ser conquistados, mas somente o serão, à custa de um trabalho corajoso e paciente.

 

Olhares malévolos, injúrias e repulsas, caçoadas e críticas agressivas, o cansaço do corpo e do espírito, ânsias torturantes provenientes de insucessos e de dolorosas ingratidões, frio cortante, chuva que cega, lama e vermes, mau cheiro, ruas escuras, ambientes asquerosos, renúncia voluntária a prazeres legítimos, aceitação do sofrimento, próprio a todo o trabalho de apostolado, a angústia


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 15]

 

provocada em toda a alma delicada, perante a falta de religião e a libertinagem, a dor de quem partilha sinceramente o sofrimento do próximo – tudo isto não encerra encanto algum para a natureza; mas, suportado com doçura e até com alegria, levado com perseverança até o fim, aproximar-se-á, na balança divina, daquele amor, o maior de todos, que consiste em dar a vida pelo amigo.

 

“Que darei eu ao Senhor por todos os benefícios com que Ele me cumulou?” (Sl 116, 12).

 

4. O legionário deve “andar no amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Si mesmo por nós” (Ef 5, 2).

 

O segredo do bom êxito junto do próximo está em estabelecer com ele um contato pessoal, contato de amor e de simpatia. Este amor deve ser mais do que aparência. Tem se de ser capaz de resistir às provas da verdadeira amizade, o que obrigará freqüentemente, a certo número de sacrifícios. Cumprimentar, em meios de certa distinção, alguém que pouco antes visitamos na cadeia; acompanhar publicamente pessoas andrajosas, apertar efusivamente mãos pouco limpas; compartilhar de uma refeição oferecida numa casa pobre ou suja: eis o que pode ser custoso para muitos. Mas, se assim não procedermos, a nossa amizade passará por simulação: perde-se o contato e a alma que estava a ser elevada afunda-se de novo na desilusão.

 

Na raiz de todo o trabalho verdadeiramente fecundo deve estar o firme propósito de uma doação total de nós próprios. Sem esta disposição, o apostolado não tem base. O legionário que delimita o seu zelo declarando: “Sacrificar-me-ei até aqui, mas não mais”, embora gaste grandes energias, realizará apenas um trabalho insignificante. Pelo contrário, se esta boa vontade existe, ainda que nunca ou só em pequena escala, seja chamada a atuar, não deixará de ser poderosamente produtiva em grandes obras.

 

“Jesus respondeu-lhe: darás a tua vida por Mim? (Jo 13, 38).

 

5. O legionário deve “acabar a sua carreira” (2Tm 4, 7).

 

Assim, o serviço a que a Legião chama os seus soldados, não tem limites nem restrições. Não se trata de um simples conselho de perfeição, mas de uma necessidade, porque, se não visamos a um tal objetivo, a perseverança no organismo é impossível. Man-


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 16]

 

ter-se durante uma vida inteira, no trabalho de apostolado, constitui por si mesmo, heroísmo que só será atingido por uma série contínua de atos heróicos que encontram a sua recompensa, na própria perseverança.

 

Mas a perseverança não é uma característica própria só do indivíduo. Todo e cada  um dos múltiplos deveres da Legião deve levar o cunho de um esforço constante. Mudanças acontecerão necessariamente: pessoas e lugares diferente que se visitam, trabalhos que terminaram, substituídos por novos empreendimentos. Tudo isto, porém, é o resultado da variação constante da vida e não o fruto de inconstância caprichosa e de uma curiosidade sedenta de novidade, que acaba por arruinar a melhor disciplina. Receosa deste espírito de instabilidade, a Legião apela incessantemente para um espírito cada vez mais firme dos seus membros, mandando-os depois de cada reunião para as suas tarefas, levando consigo uma senha imutável: “Firme!”

 

A execução perfeita depende de um esforço contínuo que, por sua vez, é o resultado de uma vontade indomável de vencer. Para obter esta firmeza da vontade é essencial nunca ceder, nem pouco, nem muito. Por isso a Legião impõe a todos os seus ramos e a todos os seus membros, uma atitude firme que não combine com a aceitação de qualquer derrota ou com a tendência que leve a qualificar este ou aquele pormenor do trabalho legionário com os termos de “prometedor”, “pouco prometedor”, “desesperador”, etc. A facilidade de classificar de “desesperador”, este ou aquele caso, acaba permitindo que uma alma de preço infinito continue livre e desenfreadamente a sua corrida descuidada para o inferno. Além disso, esse comportamento mostra que existe um desejo irresponsável de mudanças e de progresso visível, que tende a substituir o motivo mais sublime do apostolado, por outro menos elevado. E então a não ser que a semente brote debaixo dos pés do semeador, surge o desânimo e cedo ou tarde o trabalho é abandonado.

 

Mais ainda: a Legião declara com insistência que o ato de classificar qualquer caso de desesperado enfraquece automaticamente a atitude a assumir perante outros casos. Consciente ou inconscientemente, iniciar-se-á qualquer trabalho com espírito de dúvida, perguntando-nos se vale ou não o esforço a ser empregado. A menor sombra de dúvida paralisa a ação. E o pior é que a fé deixará de atuar com a intensidade que se espera dela nos empreendimentos da Legião, pois apenas se lhe permite modesta interferência, quando alguma coisa parece razoável. Então a fé, bloqueada dessa maneira e barrada as suas resoluções, apare-


[Capítulo 4      Serviço Legionário      página 17]

 

cerão imediatamente a timidez natural, a mesquinhez, a prudência do mundo, até ali abafadas, e a Legião vai se encontrar diante de um serviço feito por acaso ou indiferente, que constitui oferta vergonhosa, indigna do Céu.

 

Eis porque a Legião não se interessa senão secundariamente pelo programa de trabalho; ela se preocupa em primeiro lugar, com a intensidade do ardor colocado na sua realização. Não exige dos seus membros, riqueza ou influência, mas uma fé firme, não exige grandes feitos, mas, unicamente um esforço que não esmoreça; não exige talento, mas um amor que nunca se satisfaça; não exige uma força gigantesca, mas uma disciplina contínua. O trabalho do legionário deve ser inflexível e firme, recusando-se sempre a admitir qualquer desânimo. No momento da crise, deve ser uma rocha e em todos os momentos, constante. Deve esperar o bom êxito de maneira humilde, mas nunca ser seu escravo. Na luta contra os insucessos, deve ser um corajoso combatente, jamais desanimando, colocando-se sempre acima das dificuldades e monotonias, porque elas lhe oferecem ocasião de provar a sua energia e a sua fé. Pronto e resoluto, se o chamam; sempre alerta, quando na reserva; e mesmo sem combate, sem inimigo à vista, sempre de sentinela, pela causa de Deus. Com o coração cheio de ambições insaciáveis, mas contente com a função humilde de tapar uma brecha; nenhum trabalho excessivo; nenhuma tarefa desprezível demais; em tudo, a mesma cuidadosa atenção, a mesma paciência inesgotável, a mesma coragem férrea; em cada tarefa a marca profunda da mesma firmeza inalterável. Sempre a serviço do próximo, sempre à disposição dos fracos para os ajudar a atravessar as horas difíceis de desânimo, sempre de guarda, à espera do momento em que surpreenda naquele que até então teimava no erro, um sinal de sensibilidade; e sempre incansável à procura dos transviados. Esquecido de si mesmo: permanecendo junto da cruz de seus irmãos e não abandonando o seu posto, senão quando tudo estiver consumado.

 

Nunca o desânimo deve penetrar nas fileiras de uma associação consagrada à “Virgem Fiel” e que – para honra ou desonra – usa o seu nome.

 

5

 

ESPIRITUALIDADE DA LEGIÃO

 

As orações da Legião refletem os princípios básicos da sua espiritualidade. A Legião alicerça-se, em primeiro lugar, numa


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 18]

 

inabalável Fé em Deus e no amor que Ele dedica a Seus filhos, de cujos esforços quer tirar motivo de glória. Por isso, deseja Deus purificá-los e torná-los fecundos e duradouros. Quando nos deixamos dominar pela indiferença ou por uma ansiedade febril, é porque pensamos que Ele não passa de mero espectador do nosso trabalho. Deveríamos antes tomar consciência de que, se as boas intenções brotam em nós, é porque Ele aí as semeou e só frutificarão, se a sua virtude nos amparar a todo o momento. Deus se preocupa mais com o bom êxito do nosso trabalho do que nós próprios: esta ou aquela conversão, em que nos empenhamos, deseja-a Ele infinitamente mais do que nós. Queremos ser santos? Por isso, suspira Ele mil vezes mais do que nós mesmos.

 

A convicção da colaboração onipotente de Deus, bondoso Pai, no trabalho da santificação pessoal e no serviço a favor do próximo, deve constituir o apoio fundamental para os legionários. No caminho do bom êxito, só pode haver um obstáculo: a falta de confiança. Tenhamos fé bastante e Deus se servirá de nós para conquistar o mundo.

 

“Porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1Jo 5, 4).

 

Acreditar quer dizer “abandonar-se” à própria verdade da palavra de Deus vivo, sabendo e reconhecendo humildemente “quanto são impenetráveis os seus desígnios e desconhecidos os seus caminhos” (Rm 11, 33). Pela eterna vontade do Altíssimo, veio Maria a encontrar-se, por assim dizer, no próprio centro dos “desconhecidos caminhos” e dos “impenetráveis desígnios” de Deus e conforma-se a eles na obscuridade da fé, aceitando plenamente e com o coração aberto, tudo quanto é disposição dos desígnios divinos (RMat. 14).

 

1. Deus e Maria

 

Abaixo de Deus, é sobre a devoção a Maria, “maravilha inefável do Altíssimo” (Pio IX), que a Legião se fundamenta. Mas qual a posição de Maria em relação a Deus? Como todos os mortais foi tirada do nada; e embora Deus a sublimasse a um “estado de graça imenso e inconcebível”, diante do Criador Ela não passa do nada. Na verdade ela é, por excelência, a Sua criatura porque Ele a trabalhou mais que nenhuma outra. Quanto mais Deus opera maravilhas em Maria, tanto mais Ela se torna obra das Suas mãos.

 

Que grandes prodígios não realizou em seu favor!


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Com a idéia do Redentor, ela esteve presente no pensamento de Deus desde toda a eternidade. Associou-a aos secretos desígnios dos Seus planos de graça, tornando-a a verdadeira Mãe do Seu filho e daqueles que a Seu Filho estão unidos. Fez todas estas coisas porque, em primeiro lugar, Ele receberia de Maria, um ganho superior ao de todas as criaturas reunidas; e ainda porque estava, no Seu plano, de maneira inatingível às nossas pobres inteligências, aumentar por este meio, a glória que de nós próprios havia de receber. Assim, a oração e o serviço amoroso com que testemunhamos a nossa gratidão a Maria, nossa Mãe e auxiliadora da nossa salvação, não podem representar prejuízo para Aquele que assim a criou. O que damos a Maria não vai menos direta e inteiramente para Ele; não apenas é transmitido na sua integridade, mas acrescentado com os méritos da intermediária. Maria é mais do que uma fiel mensageira. Constituída por Deus, elemento vital do Seu plano de misericórdia, a sua presença acrescenta ao mesmo tempo, a glória de Deus e a nossa graça.

 

Assim como foi do agrado do eterno Pai receber por intermédio de Maria, as homenagens que Lhe são dirigidas, assim se dignou, por Sua grande misericórdia, escolher Maria para ser o canal pelo qual serão derramadas sobre a humanidade as diversas demonstrações da Sua onipotência e generosa bondade, começando pela causa de todas elas – a segunda Pessoa divina, encarnada, nossa verdadeira vida, nossa única salvação.

 

“Se quero tornar-me dependente da Mãe é para me tornar o escravo do Filho. Se desejo tornar-me sua propriedade é para prestar a Deus com mais segurança, a homenagem da minha sujeição” (Sto. Ildefonso).

 

2. Maria, Medianeira de todas as graças

 

A confiança da Legião em Maria é ilimitada, porque sabe que, por decreto divino, o seu poder não tem limite. Deus deu a Maria tudo quanto lhe podia dar. Tudo o que ela podia receber, recebeu-o plenamente. Deus constituiu-a para nós um meio extraordinário de graça. Atuando em união com ela, aproximamo-nos mais de Deus; e por isso adquirimos mais abundantes graças, visto nos colocarmos na própria corrente da graça, pois Maria é a esposa do Espírito Santo, o canal de todas as graças merecidas por Jesus Cristo. Nada recebemos que não devamos a uma positiva intercessão da sua parte. Não se contenta com transmitir-


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 20]

 

nos tudo: tudo nos obtém. Penetrada de uma fé viva nesta função medianeira de Maria, a Legião impõe-na aos seus membros como uma devoção especial.

 

“Julgai com que amor ardente quererá Deus que honremos Maria, pois derramou nela a plenitude dos Seus dons, de tal sorte que tudo que possuímos, esperança, graça, salvação, tudo, – não duvidemos disso – tudo vem dela para nós” (S. Bernardo: Sermo de Aquaeductu).

 

3. Maria Imaculada

 

O segundo aspecto da devoção da Legião a Maria é o culto da Imaculada Conceição. Logo na primeira reunião os membros rezaram e deliberaram em volta de um altarzinho da Imaculada Conceição, idêntico àquele que hoje forma o centro de todas as reuniões legionárias. Além disso o primeiro sopro de vida da Legião foi uma jaculatória em honra desse privilégio de Nossa Senhora, que constitui a preparação para todas as dignidades e privilégios que depois lhe foram concedidos.

 

Deus já tinha se referido à Imaculada Conceição, quando, no Gênesis, nos prometeu Maria. Este privilégio faz parte integrante de Maria: Maria é a Imaculada Conceição. Com este privilégio, a Sagrada Escritura anuncia as suas celestes conseqüências: a Maternidade Divina de Maria, o esmagamento da cabeça da Serpente, pela Redenção e, em relação aos homens, a Sua Maternidade espiritual.

 

“Eu porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a dela: ela te esmagará a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar” (Gn 3, 15). É nestas palavras dirigidas pelo Onipotente a Satanás, que a Legião procura e encontra a confiança e a força na guerra contra o pecado. Ela aspira, por isso, de todo o coração, a tornar-se plenamente a descendência eleita de Maria, porque só assim terá o penhor da vitória: quanto mais os seus membros se tornarem verdadeiros filhos da Imaculada, tanto mais aumentará a sua hostilidade contra as potências do inferno e tanto mais completa será a sua vitória.

 

“A Sagrada Escritura, no Velho e no Novo Testamento e a venerável Tradição, mostram, de modo progressivamente mais claro, e de certa forma nos apresentam o papel da Mãe do Salvador na economia da salvação. Os livros do Antigo Testamento descrevem


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a história da salvação, na qual se vai preparando lentamente a vinda de Cristo, ao mundo. Esses antigos documentos, tais como são lidos na Igreja e interpretados à luz da plena revelação posterior, vão pondo cada vez mais em evidência a figura de uma mulher, a Mãe do Redentor. Vista sob esta luz, Maria encontra-se já profeticamente delineada na promessa da vitória sobre a serpente (cfr. Gn 3, 15), feita aos primeiros pais caídos no pecado” (LG 55).

 

4. Maria, nossa Mãe

 

Se pretendemos a herança de filhos, devemos estimar a maternidade que nos dá direito a ela. O terceiro aspecto da devoção a Maria consiste em honrá-la como nossa verdadeira Mãe, que de fato o é.

 

Maria tornou-se a Mãe de Jesus Cristo e nossa Mãe no momento em que, respondendo à saudação do Anjo, exprimiu o seu humilde consentimento: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). A sua maternidade foi proclamada, no momento em que atingiu a sua completa expansão, isto é, quando a Redenção se consumava. No meio das dores do Calvário disse-lhe Jesus do alto da Cruz: “Mulher, eis aí o teu filho” e a S. João: “Eis aí a tua Mãe” (Jo 19, 26-27). Na pessoa de S. João, estas palavras foram dirigidas a todos os eleitos. Cooperando plenamente pelo seu consentimento e pelas suas dores neste nascimento espiritual da humanidade, Maria tornava-se no mais pleno e perfeito sentido, nossa Mãe.

 

Visto que somos seus verdadeiros filhos, devemos nos comportar como tais e, como autênticas criancinhas, depender inteiramente dela. Devemos pedir-lhe que nos alimente, nos guie, nos instrua, cure os nossos males, console as nossas mágoas, nos aconselhe nas dúvidas e nos chame quando nos extraviarmos; de maneira que, inteiramente entregues aos seus cuidados, cresçamos na semelhança do nosso irmão mais velho, Jesus, e participemos da sua missão de combate e vitória sobre o pecado.

 

“Maria é Mãe da Igreja não só por ser Mãe de Jesus Cristo e a sua mais íntima colaboradora ‘na nova Economia, quando o Filho de Deus assume dela a natureza humana, para, mediante os mistérios da sua carne, libertar o homem do pecado’, mas também porque ‘brilha para toda a comunidade dos eleitos, como modelo de virtude’. Como, na verdade, cada mãe humana não pode limitar a sua


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missão à geração de um novo homem, mas deve alargá-la à nutrição e à educação dos filhos, também assim se comporta a bem-aventurada Virgem Maria. Depois de ter participado do sacrifício redentor do Filho, e de maneira tão íntima que lhe fez merecer ser por ele proclamada Mãe não só do discípulo João, mas – seja consentido afirmá-lo – do gênero humano, por este de algum modo representado, Ela continua agora no céu a cumprir a sua função materna de cooperadora no nascimento e no desenvolvimento da vida divina em cada alma dos homens remidos. Esta é uma consoladora verdade que, por livre consentimento do sapientíssimo Deus, faz parte integrante do mistério da salvação humana: por isso ele deve ser considerada como de fé por todos os cristãos” (SM).

 

5. A devoção legionária, raiz do seu apostolado

 

Um dos mais queridos deveres da Legião consistirá em manifestar uma sincera devoção à Mãe de Deus. Isso só poderá ser realizado por intermédio dos seus membros, estando pois cada um deles obrigado a trabalhar nesse sentido, através de sérias meditações e zelosas práticas.

 

Ora, para que esta devoção seja, em verdade, um tributo da Legião, deve constituir uma obrigação essencial para a qual devem concorrer todos em perfeita unidade – obrigação tão importante como a da reunião semanal ou a do apostolado: eis aqui um ponto em que nunca será demais insistir.

 

Mas esta unidade é extremamente delicada, pois depende, dentro de certa medida, da colaboração de cada membro, que pode infelizmente comprometê-la. Compete a cada um o dever de velar cuidadosamente por ela. Se esta unidade falhar, se os legionários não forem como que “pedras vivas de uma construção, um edifício espiritual” (1Pd 2, 5), uma parte vital da estrutura da Legião será mutilada. Se as pedras vivas não se assentarem de maneira conveniente, o sistema legionário caminhará para a ruína e não abrigará nem conseguirá reter os seus filhos, senão com dificuldade. E não será mais aquilo para o que foi criado: um lar de nobres e santas virtudes, um ponto de partida para decisões heróicas.

 

Ao contrário, se todos formarem um bloco no cumprimento perfeito deste dever do serviço legionário, não só a Legião se distinguirá entre todas as organizações pela sua elevada devoção a Maria, mas se distinguirá também por uma maravi-


[Capítulo 5      Espiritualidade da Legião      página 23]

 

lhosa unidade de espírito, de fim e de ação. Esta unidade é tão preciosa aos olhos de Deus que a revestiu de um irresistível poder. Se, para o indivíduo, a verdadeira devoção a Maria é um canal extraordinário de graça, que não será ela para uma organização que persevera, num mesmo espírito, em oração, com aquela (At 1, 14) que tudo recebeu de Deus; que participa do seu espírito e entra plenamente nos desígnios divinos no que respeita à distribuição da graça?! Por acaso tal organização não será cheia do Espírito Santo? (At 2, 4). E de quantos “prodígios e milagres” não será capaz? (At 2, 43).

 

“A Virgem no Cenáculo, orando no meio dos Apóstolos e por eles, com uma intensidade indizível, atrai sobre a Igreja este tesouro, que nela abundará por todo o sempre: a plenitude do Espírito Consolador; dom supremo de Cristo” (JSE).

 

6. Oh! Se Maria fosse conhecida!

 

Ao sacerdote que luta quase desesperado num mar de indiferença religiosa, recomendamos as palavras do Padre Faber, encontradas no prefácio de “A Verdadeira Devoção a Maria” (fonte abundante de inspiração para a Legião), da autoria de S. Luís de Montfort. Esta página poderá servir de preparação para o exame das vantagens e benefícios que lhe podem advir da Legião. O Padre Faber afirma, em síntese, que Maria não é suficientemente conhecida e amada, com grave prejuízo para as almas: – “A devoção que se lhe consagra é pequena, magra e pobre. Não confia em si própria. Por isso Jesus não é amado, os hereges não são convertidos, a Igreja não é exaltada; por isso, as almas que poderiam ser santas enfraquecem e degeneram; os sacramentos não são devidamente freqüentados; as almas não são evangelizadas com ardente zelo apostólico. Jesus é pouco conhecido, porque Maria é posta em segundo plano. Milhares de almas se perdem, porque Maria lhes é recusada. E esta sombra miserável e indigna, a que ousamos chamar a devoção à Virgem Santíssima, é a causa de todas estas misérias e prejuízos, males e omissões e fraquezas. Todavia, se tomarmos em devida consideração as revelações dos Santos, Deus insiste por uma devoção à Sua Mãe Santíssima, maior, mais larga, mais vigorosa, totalmente outra. Que alguém experimente esta devoção em si próprio, e a surpresa perante as graças que ela traz consigo e


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as transformações que produz na alma, vão convencê-lo da sua quase incrível eficácia como meio de obter a salvação dos homens e a chegada do Reinado de Jesus Cristo”.

 

“À Virgem poderosa é dado o poder de esmagar a cabeça da Serpente; às almas unidas a ela, é dado vencer o pecado. Devemos crer nisto com inabalável fé, com uma firme esperança”.

 

Deus que nos dar tudo; tudo depende agora de nós e de ti, por quem tudo é recebido e economizado, por quem tudo é transmitido, ó Mãe de Deus! Tudo depende da união dos homens com aquela, a quem Deus tudo confia” (Gratry).

 

7. Levar Maria ao mundo

 

Visto que a devoção a Maria realiza tais prodígios, a nossa preocupação deve consistir em tornar fecundo, semelhante instrumento; numa palavra, deve consistir em levar Maria ao mundo. Como conseguir isto com mais eficiência, senão por uma organização de apostolado? Uma organização leiga e, portanto ilimitada, quanto ao número dos seus membros; uma organização ativa, podendo por isso penetrar em toda parte, uma organização que ama Maria, com todas as forças e que se compromete a infundir esse amor em todos os corações, utilizando para isso todos os meios de ação.

 

Assim, usando o nome de Maria, com valor indizível, baseada numa confiança ilimitada e filial na sua Rainha, tornada mais sólida e firme pelo enraizamento profundo no coração de cada um, constituída por membros que trabalham em perfeita harmonia de lealdade e disciplina – a Legião de Maria não considera presunção, antes confiança legítima, o pensar que o seu sistema forma um poderoso mecanismo que, para envolver o mundo, exige apenas ser acionado pela mão da Autoridade. Maria se dignará então empregá-la como instrumento, para realizar nas almas, a sua obra maternal e levar avante a sua perpétua missão de esmagar a cabeça da serpente.

 

“Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão e minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 35). “Que prodígio e que honra! A que sublimidade de glória Jesus nos eleva! As mulheres proclamam bem-aventurada aquela que O deu à luz; e, todavia, nada as impede de participarem da mesma maternidade. É que o Evangelho nos fala aqui de uma nova forma de geração, de um novo parentesco” (S. João Crisóstomo).


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6

 

OS DEVERES DOS LEGIONÁRIOS PARA COM MARIA

 

1. Cada legionário terá, para com Maria, uma profunda devoção, incessantemente renovada por sérias meditações e zelosas práticas. Deve considerar esta devoção como um dos deveres legionários essenciais e, de todos, o mais importante. (Cf. Cap. 5: Espiritualidade da Legião, e Apêndice 5: Confraria de Maria, Rainha dos Corações).

 

A Legião tem o propósito de levar Maria ao mundo, porque considera este objetivo a forma infalível de ganhar o mundo para Jesus Cristo.

 

É evidente que o legionário que não tem Maria no coração, não pode participar da Sua obra. Está divorciado da finalidade da Legião. É um soldado desarmado, um elo partido, ou antes um braço paralisado – unido embora ao resto do corpo – mas sem ação, inútil para o trabalho.

 

A grande preocupação de todos os exércitos (e portanto da Legião) é a união dos soldados com o chefe, de maneira que o plano deste seja executado por todos prontamente. O exército age como um só homem. A isto, tende o mecanismo complicado dos exercícios de combate e a sua disciplina. Encontra-se, além disso, nos soldados de todos os grandes exércitos da história, uma dedicação apaixonada pelo seu chefe, paixão que tornava mais íntima a união entre eles e facilitava a aceitação dos sacrifícios exigidos pela execução do plano de combate. De tal chefe se poderia dizer que ele era a inspiração e a alma dos soldados, que vivia em seus corações, formando um só com todos os seus homens. Assim se explica a influência que exercia sobre os soldados; e isto, em certa medida, corresponde à verdade.

 

Esta união, porém, por mais perfeita que seja, não passa de sentimental ou mecânica. A relação entre o cristão e Maria, sua Mãe, não é assim. Dizer que Maria está na alma do legionário fiel seria exprimir uma união infinitamente menos real do que a existente de fato. A Igreja resume a natureza desta união nos louvores que tece a Maria, chamando-a “Mãe da Divina Graça”, “Medianeira de Todas as Graças”. Estes louvores exprimem um tão perfeito império sobre a vida da alma, que a mais estreita das uniões terrenas – a da mãe com o filho por nascer – seria ainda imperfeita para exprimir esta intimidade. Há, porém, fenômenos naturais


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 26]

 

que nos podem ajudar a compreender o lugar de Maria na distribuição da graça. O sangue, só pelo pulsar do coração, leva a vida a todo o corpo; os olhos são o meio necessário para nos comunicarmos com o mundo visível; a ave, mesmo batendo as asas, não pode elevar-se para o céu sem que o ar a sustenha. Da mesma maneira, de acordo com o plano divino, a alma, sem Maria, não pode voar até Deus ou realizar qualquer obra divina.

 

Esta dependência de Maria não é uma criação do sentimento ou da razão, é uma realidade cuja existência depende do plano divino e não da nossa inteligência. Existe, mesmo que não a conheçamos; mas pode e deve ser fortemente fortalecida pela nossa aceitação consciente. Da nossa união íntima com Maria, a quem S. Boaventura chama dispenseira do sangue do Senhor, hão de resultar maravilhas de santificação e uma fonte incrível de influência sobre as almas. Aquelas, a quem o ouro simples do apostolado não conseguir libertar do pecado, serão salvas, logo que Maria enfeite o ouro, com as jóias do Preciosíssimo Sangue, do qual dispõe livremente.

 

Comecemos, para isso, por nos consagrar fervorosamente a Maria; renovemos freqüentemente esta consagração por meio de uma fórmula breve que a resuma, tal como: “Eu sou todo vosso, ó minha Rainha e minha Mãe, e tudo quanto tenho vos pertence”. Que a alma ponha em prática, de maneira tão viva como contínua, o pensamento da influência constante de Maria na sua vida, que dela se possa dizer: “Assim como o corpo respira o ar, assim a alma respira Maria” (S. Luís Maria de Montfort).

 

Na Santa Missa, na sagrada comunhão, na adoração do Santíssimo, na reza do terço, na prática da via-sacra e de outras devoções, a alma legionária deve procurar identificar-se com Maria e meditar com Ela nos augustos mistérios da Redenção. É que esta Mãe, acima de tudo fiel, viveu estes mistérios com o Divino Salvador e neles desempenhou papel indispensável.

 

Imite-a e agradeça-lhe com ternura; alegre-se e entristeça-se com ela; consagre-lhe o que Dante chama de “longo estudo e o grande amor do seu coração”; esquecendo-se de si mesmo e dos seus recursos, fixe nela o seu pensamento durante a oração, no trabalho e em todos os atos da sua vida espiritual. Se assim proceder, o legionário encher-se-á de tal modo da imagem e do pensamento de Maria, que formará com ela uma só alma. Perdido assim na profundidade da alma da Mãe de Deus, o legionário partilhará da sua fé, da sua humildade e da pureza do seu Coração Imaculado e, conseqüentemente, do seu poder de oração; e


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 27]

 

há de transformar-se, com rapidez, em Cristo, objetivo supremo da vida de todos. Por outro lado, no seu legionário e por meio dele, Maria participa de todos os deveres legionários e ainda dispensa às almas, os seus cuidados maternais, de tal modo que em cada uma das almas, a quem o legionário se dedica e nos seus companheiros de trabalho, não só é vista e servida a pessoa do Nosso Senhor, mas é vista e servida através de Maria, com o mesmo amor primoroso e o mesmo maternal cuidado que outrora, ela consagrou ao corpo de seu Divino Filho.

 

Quando os seus membros se tornarem assim, cópias vivas de Maria, a Legião pode considerar-se, de verdade, Legião de Maria, cooperadora da sua missão e certa de que com ela vai triunfar. A Legião há de dar Maria ao Mundo, e esta há de iluminá-lo e inflamá-lo no mais ardente amor.

 

“Vivei alegremente com Maria, com ela suportai todas as aflições; trabalhai, recreai-vos e descansai com ela. Com ela procurai Jesus, levai-O em vossos braços; e, com Jesus e Maria, fixai a vossa residência em Nazaré. Ide com ela a Jerusalém, ficai junto da Cruz de Jesus, e sepultai-vos com Ele. Com Jesus e Maria ressuscitai e com Eles subi ao Céu. Com Jesus e Maria, vivei e morrei” (Tomás de Kempis: Sermão aos Noviços).

 

2. A imitação da humildade de Maria: raiz e instrumento da ação legionária

 

A Legião fala aos seus membros, uma linguagem que respira o ardor das batalhas. E com razão. Ela é o instrumento e a ação visível de Maria, que é como um exército em ordem de batalha, e que trava uma luta intensa pela salvação de cada ser humano. Além disso, a idéia de exército impressiona poderosamente as pessoas. O fato de o legionário se considerar soldado, o levará a cumprir, com uma seriedade militar, todos os seus deveres. Mas, como a luta, em que andam empenhados os legionários, não é deste mundo, devem travá-la conforme a tática do Céu. O fogo que arde nos corações dos verdadeiros legionários, brota sempre das cinzas, de qualidades modestas e desapreciadas pelo mundo; e, entre estas, ocupa lugar de destaque a virtude da humildade, tão incompreendida e desprezada e, todavia, fonte de nobreza e energia inconfundíveis para todos os que a procuram e praticam.

 

Na organização legionária, a humildade desempenha um papel único. Primeiramente, é um instrumento essencial ao apostolado. A realização e o progresso do contato pessoal, em


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que a Legião fundamenta o seu trabalho, em tão larga escala, exige operários de maneiras delicadas e modestas, qualidades que só podem brotar da verdadeira humildade de coração. Mas a humildade é, para a Legião, mais do que instrumento da sua ação externa: é a origem dessa ação. Sem humildade não pode haver ação legionária eficaz.

 

Jesus Cristo, diz S. Tomás de Aquino, recomendou-nos acima de tudo, a humildade, porque afasta o principal obstáculo à salvação dos homens. Todas as outras virtudes derivam dela o seu próprio valor. Só à humildade é que Deus concede os Seus favores, retirando-os logo que ela murcha e desaparece. A Encarnação, fonte de todas as graças, dependeu da humildade. Maria declara no Magnificat que Deus manifestou n’Ela o poder do Seu braço, isto é, exerceu n’Ela a Sua onipotência. E expõe o motivo. Foi a humildade que atraiu os Seus olhares e O fez descer à terra, para acabar com o velho mundo e inaugurar uma nova era.

 

Como poderá Maria ser modelo de humildade, se considerarmos que o seu grau de perfeição não pode ser medido, é quase infinito e ela bem o sabia? Era humilde porque sabia, também, que tinha sido remida mais perfeitamente que todos os filhos dos homens. Todas as maravilhas da sua extraordinária santidade devia-as aos méritos de seu Filho; e este pensamento vivia nela e nunca a largava. A sua inteligência sem par compreendia de maneira perfeita que, assim como tinha recebido mais do que ninguém, como ninguém estava em dívida para com Deus. Daí sua atitude de delicada e graciosa humildade, sem esforço nem interrupção.

 

Na escola de Maria, o legionário aprenderá que a essência da verdadeira humildade consiste em reconhecer com simplicidade, sem afetação, aquilo que realmente somos aos olhos de Deus; e em compreender que, por nós, nada somos e nada temos. Tudo que existe de bom em nós é puro dom de Deus: e este dom Ele pode aumentar, diminuir ou retirá-lo completamente, com a mesma liberdade com que no-lo concedeu. O legionário há de mostrar a sua sujeição, numa preferência evidente pelas tarefas humildes e pouco desejadas; há de mostrar também preferência na prontidão em aceitar desprezos e repulsas e, em geral, na maneira habitual de proceder, perante as manifestações da vontade de Deus, que há de ser o reflexo daquelas palavras de Maria: “Eis aqui a escrava do Senhor!” (Lc 1, 38).

 

A necessária união do legionário com a sua Rainha exige dele, não só o desejo profundo dessa união, mas a capacidade


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para a mesma. Uma pessoa pode querer ser um bom soldado e, no entanto, não ter jamais as qualidades necessárias que possam fazer dela um bom dente de engrenagem na máquina militar. Resultado: a união deste homem com o General é ineficaz, e impede a execução dos planos militares. De maneira semelhante, o legionário pode desejar ardentemente desempenhar uma parte importante nos planos de campanha da sua Rainha, mas ser, todavia, incapaz de receber o que Maria ardentemente deseja dar-lhe. No caso militar, a deficiência provém da falta de coragem, de inteligência, de aptidão física e de qualidades semelhantes. No legionário, a incapacidade provém da falta de humildade. O objetivo da Legião é a santificação dos seus membros e a irradiação dessa santidade sobre as almas. Ora, não pode haver santidade sem humildade. Além disso, a Legião exerce o seu apostolado com Maria e por Maria. Se não nos assemelharmos a Maria, em certa medida, não poderemos unir-nos a ela, e fraca será a semelhança, se lhe faltar a virtude característica da humildade. Se a união com Maria é a condição básica, indispensável, a raiz, por assim dizer, da ação legionária, então a humildade é o solo onde esta união deve mergulhar as suas raízes. Se o solo é pobre e árido, a vida legionária murcha e morre.

 

Segue-se, pois, que a batalha da Legião começa no coração de cada legionário. Este tem de travar combate consigo mesmo, esmagando decididamente o espírito de orgulho e de egoísmo.

 

Como é cansativa esta terrível batalha contra a raiz do mal que se encontra dentro de nós, e este constante esforço para atingir em tudo, a pureza de intenção! É a batalha de toda a vida. A confiança nos próprios esforços inutiliza a vida inteira, porque o “eu” infiltra-se mesmo nos combates contra si mesmo. De que valerão as próprias forças ao infeliz que se debate na areia movediça? É necessário um ponto de apoio firme.

 

Legionário, o seu sólido apoio é Maria. Firme-se nela com inteira confiança. Ela não lhe faltará, porque, está na humildade que lhe é indispensável. A prática fiel do espírito de dependência de Maria é o caminho real, simples e amplo da humildade, denominado por S. Luís de Montfort, “segredo da graça, por poucos conhecido, capaz de rapidamente e com um esforço mínimo nos esvaziar de nós mesmos, nos encher de Deus e nos tornar perfeitos”.

 

Medite esta verdade! O legionário, voltando-se para Maria, deve necessariamente virar as costas a si mesmo. Maria apodera-se deste movimento, elevar-o e torna-o instrumento sobrenatural de morte para o “eu”, cumprindo-se assim a severa, mas produtiva


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lei da vida cristã (Jo 12, 24-25). O calcanhar da humilde Virgem esmaga a serpente do amor próprio, com as suas múltiplas cabeças, que são:

 

a) A exaltação de si mesmo: é que, se Maria, tão rica em perfeições, a ponto de ser chamada pela Igreja “Espelho de Justiça”, e dotada de ilimitado poder no reino da graça, se ajoelha, no entanto, como a mais humilde serva do Senhor, qual não deve ser o lugar e a atitude do legionário?

 

b) O egoísmo: porque tendo-se dado a Maria com todos os seus bens, espirituais e temporais, para que deles disponha como for do seu agrado, o legionário continua, no entanto, a servi-la com o mesmo espírito de completa generosidade.

 

c) A auto-suficiência: porque o hábito de se apoiar em Maria leva inevitavelmente à desconfiança das próprias forças.

 

d) A elevada idéia que faz de si mesmo: porque o sentido da colaboração com Maria lhe traz a compreensão da sua própria incapacidade. A contribuição do legionário resume-se em lamentáveis fraquezas!

 

e) O amor próprio: com efeito, que achará em si mesmo digno de estima? O legionário, absorvido no amor e na admiração da sua Rainha, sente-se pouco inclinado a afastar-se dela para se contemplar a si próprio.

 

f) A admiração por si mesmo: porque, nesta aliança com Maria, devem prevalecer os mais altos ideais. O legionário modela-se por Maria e anseia pela sua perfeita pureza de intenção.

 

g) O próprio progresso: pensando como Maria, o legionário se ocupará só de Deus. Não há lugar para projetos fomentadores de orgulho ou desejo de recompensa.

 

h) A vontade própria: totalmente sujeito a Maria, o legionário desconfia dos incentivos das próprias inclinações e escuta atento as inspirações da graça.

 

No legionário que se esquece verdadeiramente de si mesmo, Maria não encontra obstáculo à Sua maternal influência. Despertará nele, energias e disposições para o sacrifício, que vão além das forças da natureza e fará dele um bom soldado de Cristo (2Tm 2, 3), preparado para o árduo serviço que a sua profissão exige.

 

“Deus alegra-se em trabalhar com o nada. Foi do nada que Ele criou todas as coisas, reveladoras do Seu poder infinito. Devemos ser imensamente zelosos da glória de Deus, mas convencidos, ao mesmo tempo, da nossa incapacidade em promovê-la. Afundemo-nos no abismo da nossa indignidade, refugiemo-nos na sombra espessa da nossa baixeza; esperemos calmamente que Deus se digne


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servir-se dos nossos esforços, como instrumentos da Sua glória. Para isso, lançará mão de meios completamente opostos àqueles que somos levados a esperar. Depois de Jesus Cristo, ninguém contribuiu mais para a glória de Deus, do que Maria; e, todavia, o único objeto de seus pensamentos era o aniquilamento próprio. A sua humildade parece que deveria constituir um obstáculo aos desígnios de Deus mas foi precisamente esta humildade que facilitou o seu cumprimento” (Grou: O interior de Jesus e Maria).

 

3. A genuína devoção a Maria obriga ao apostolado

 

Acentuamos em outra parte deste Manual que em Cristo, não podemos escolher o que nos agrada: não podemos aceitar o Cristo glorioso sem aceitar também, na nossa vida, o Cristo sofredor e perseguido. Só há um Cristo – e este indivisível. Temos de tomá-lO como Ele é. Se procurarmos n’Ele a paz e a felicidade, talvez verifiquemos que nos pregamos à Cruz. Os extremos tocam-se, sem separação possível: não há triunfo sem dor, nem coroa sem espinhos, nem glória sem amargura, nem calvário sem cruz. Estendendo a mão para colher um deles e vamos nos encontrar envolvidos ao mesmo tempo com o outro.

 

A Nossa Senhora aplica-se a mesma lei. Também não podemos dividir a sua vida em partes, para que cada um escolha a que mais lhe agrada. É impossível acompanhá-la nas suas alegrias, sem que o nosso coração se despedace com os seus sofrimentos.

 

Se quisermos, como S. João, o discípulo amado, trazê-la para nossa casa (Jo 19, 27), terá de ser tal qual ela é, na sua integridade. Preferir somente uma fase da sua vida é impossibilitar-se a recebê-la. A devoção a Maria, é claro, deve atender e procurar reproduzir cada uma das facetas da sua personalidade e da sua missão. O interesse principal não pode perder-se com o que é menos importante: considerá-la, por exemplo, como modelo perfeito, cujas virtudes devemos imitar, é bom; mas, se a devoção se limita a uma tal atitude, não passa de parcial e mesquinha. Não basta dirigir-lhe orações, mesmo que sejam em grande quantidade. No basta tão pouco conhecer e alegrar-se com as maravilhosas e inumeráveis atenções com que as Três Pessoas Divinas a rodearam e colocaram sobre ela, tornando-a assim, um reflexo das suas próprias qualidades. Tais homenagens pertencem-lhe de direito e lhe devem ser prestadas mas são, apenas, parte do todo. A devoção perfeita à mãe de Deus só se alcança pela união com ela. União significa necessariamente comunhão de vida com ela, e a


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sua vida não se resume na preocupação com as homenagens de admiração, mas na comunicação da graça.

 

A maternidade – primeiro de Cristo, depois, dos homens – foi a única razão de ser da sua vida e do seu destino. Para tal fim foi criada e preparada pela Santíssima Trindade, após deliberação eterna, como nota S. Agostinho. Assumiu sua admirável missão no dia da Anunciação, e desde então tem sido Mãe atenciosíssima no cumprimento dos seus deveres domésticos. Restringiram-se eles por algum tempo a Nazaré, mas em breve, o pequeno lar tornou-se o mundo inteiro, e seu Filho, o gênero humano. O seu zelo não diminuiu: a todos os instantes o seu trabalho doméstico prossegue e nada se pode fazer sem ela, nesta Nazaré imensa. Qualquer cuidado que nós pudermos dispensar ao Corpo Místico de Cristo é apenas um complemento aos cuidados que ela mesma lhe dedica. O apóstolo não faz mais do que associar-se às atividades maternais de Maria. E neste sentido Nossa Senhora poderia declarar: “Eu sou o Apostolado”, à semelhança do que outrora disse em Lurdes: “Eu sou a Imaculada Conceição”.

 

Sendo a maternidade das almas a sua função essencial, a sua verdadeira vida, segue-se que, sem participação nesta maternidade, não pode haver união real com ela. Seja-nos permitido, por conseqüência, declarar mais uma vez: a autêntica devoção a Maria conduz necessariamente ao apostolado. Maria sem maternidade e cristão sem apostolado são idéias semelhantes: tanto uma como a outra seriam incompletas, irreais, inconsistentes e falsas, para as intenções divinas.

A Legião não se baseia, portanto, como alguns pretendem, sobre dois princípios, Maria e o Apostolado, mas sobre um só princípio – Maria – o qual abrange, por si só, o apostolado e toda a vida cristã.

 

De boas intenções, diz o provérbio, o inferno está cheio. Elas de nada valem, se não nos moverem a uma atitude positiva, na vida. E isso pode acontecer com o oferecimento dos nossos trabalhos a Maria, se eles ficarem num compromisso só de palavras. Não se pense que as obrigações apostólicas hão de descer do céu, para pousarem de modo ostensivo sobre aqueles que se contentam em esperar, passivamente, os acontecimentos. É de se recear que semelhantes preguiçosos continuem indefinidamente no desemprego. O único meio eficaz de nos oferecermos a Maria como apóstolos é fazer apostolado. Dado este passo, Maria empolga a nossa atividade e incorpora-a na sua maternidade espiritual.

 

Acresce ainda que Maria não pode realizar a sua obra maternal sem este auxílio. Não irá longe demais esta afirmação?


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Como pode a Virgem poderosa depender da ajuda de pessoas tão fracas? No entanto, é verdade. A colaboração humana é um elemento necessário no plano divino; Deus só salva o homem pelo homem. Os tesouros de graça de Maria são superabundantes, mas não os distribuirá sem o nosso auxílio. Pudesse ela dispor do seu poder, conforme os desejos profundos do seu coração e o mundo se converteria rapidamente, num relance. Mas não! Tem de esperar que os homens se disponham a servi-la. Sem eles, não pode cumprir a sua maternidade espiritual, e as almas definham e morrem. Por isso, ela acolhe, com viva ânsia, e utiliza quantos se coloquem realmente ao seu dispor: não só os santos e competentes, mas até os enfermos e os incapazes. É tal a necessidade, que ninguém será rejeitado. Mesmo os mais pequenos podem ser transmissores do seu poder; e, com os melhores, que maravilhas não poderá fazer? Lembrem-se sempre desta imagem singela: vejam como o sol atravessa deslumbrante a janela límpida, e, como luta para atravessá-la, quando a encontra suja, para deixar passar um pouquinho de luz. Assim é com as almas.

 

“Jesus e Maria, eis o novo Adão e a nova Eva, a quem a árvore da cruz uniu na dor e no amor, para reparar a falta cometida no Paraíso pelos nossos primeiros pais. Jesus é a fonte e Maria o canal das graças, pelas quais renascemos e podemos reconquistar o nosso lar celeste. Bendigamos, juntamente com o Senhor, Aquela que Ele elevou à dignidade de Mãe de misericórdia, nossa Rainha, nossa Mãe amantíssima, Medianeira das Suas graças e Despenseira dos Seus tesouros. O Filho de Deus coroou-a de glória radiante e deu-lhe a majestade e o poder da Sua própria realeza. Unida ao Rei dos Mártires, como Mãe e colaboradora na obra tremenda da Redenção da humana raça, a Ele permanece unida para sempre, revestida de poder praticamente ilimitado, na distribuição das graças que brotam da Redenção. O seu império tem a vastidão do império do Seu Filho; nada escapa ao seu domínio” (Pio XII: Discursos de 21 de abril de 1940 e 13 de maio de 1945).

                

4. A intensidade do esforço no serviço de Maria

 

Em circunstância alguma, o espírito de dependência com relação a Maria deve constituir motivo para alguém se desculpar da falta de esforço ou da falta de método. Deve ser justamente o contrário. Porque trabalhamos com Maria e por ela, a nossa oferta


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há de ser a mais excelente que se possa apresentar. Devemos trabalhar com energia, destreza e primor.

 

De vez em quando, é preciso censurar certos núcleos ou membros, que parece não desenvolverem esforço suficiente no cumprimento da sua tarefa semanal, ou nos trabalhos de extensão ou recrutamento. Às vezes os interessados respondem: “Eu não conto com as próprias forças! Confio inteiramente a Nossa Senhora o cuidado de levar avante a tarefa imposta e colher, a seu modo, resultados satisfatórios”. Acontece muitas vezes que tal resposta procede de pessoas fervorosas, que são levadas a atribuir uma espécie de virtude à própria inatividade, como se método e esforço significassem uma fé mesquinha. Há também o perigo de se pensar que, se nós somos instrumentos de um poder imenso, não interessa muito o grau do nosso esforço. Alguém perguntará por que motivo deverá o pobre sócio de um milionário, esgotar-se com a preocupação de ajuntar alguns magros reais, ao fundo comum que já está tão enriquecido?

 

Torna-se necessário, por isso, insistir num princípio que deve dirigir a atitude do legionário no seu trabalho. É este: os legionários não são nas mãos de Maria simples instrumentos sem atividade própria. São verdadeiros cooperadores dela no enriquecimento e resgate das almas. Nesta cooperação, cada um supre o que o outro não pode dar. O legionário dá-se todo, ação e talentos; Maria dá-se a si mesma, com toda a sua pureza e poder. Cada um é obrigado a contribuir, sem reserva, para a obra comum. Se o legionário se entrega a esta colaboração com honra e generosidade, Maria nunca faltará. Podemos, por isso, afirmar que o bom êxito do empreendimento depende inteiramente do legionário, de maneira que este deve se dedicar a ele com toda a inteligência e com todas as forças, aperfeiçoadas por um método cuidadoso e uma perseverança incansável.

 

Mesmo que soubéssemos que Maria obteria, independentemente do legionário, o resultado suspirado, mesmo nesse caso, deveríamos desenvolver plenamente os nossos esforços, como se tudo dependesse deles. Ao mesmo tempo que deposita uma ilimitada confiança no auxílio de Maria, o esforço do legionário deve elevar-se sempre ao máximo. A generosidade tem de igualar a sua confiança. O princípio da necessária e mútua influência, entre a fé ilimitada e o esforço intenso e metódico, é expresso pelos santos, quando declaram que devemos rezar como se tudo dependesse da oração e nada de nós próprios; e, ao mesmo tempo, agir como se tudo dependesse absolutamente do nosso esforço.

 

Não devemos, pois, medir a quantidade do esforço pela dificuldade da tarefa, nem nos perguntar qual o menor preço


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para se obter o fim desejado. Mesmo nos negócios materiais, o hábito de regatear leva a constantes reveses e ilusões. Em matéria sobrenatural, há de falhar sempre, porque afasta de nós a graça, da qual depende realmente, o êxito dos nossos trabalhos. Além disso, os juízos humanos não merecem inteira confiança: impossibilidades aparentes desaparecem logo que são enfrentadas, ao passo que o fruto que está quase à altura da mão, mas teima em fugir-lhe, será talvez colhido por outra pessoa. Na ordem espiritual, a lei do menor esforço precipita a alma de mesquinhez em mesquinhez, até cair finalmente na esterilidade total. Para o legionário evitar tão desagradáveis conseqüências, só lhe resta um meio: desenvolver em todas as tarefas, grandes ou pequenas, o máximo da sua energia. Talvez não seja necessária tal soma de esforços. Pode ser que o toque de um dedo baste para levar a obra ao fim; e, se fosse a realização da obra, o único objetivo, seria razoável e suficiente, um leve esforço; mas não mais do que isso. Como diz Byron, ninguém levanta a clava de Hércules para esmagar uma borboleta ou matar um mosquito.

 

Os legionários, porém, devem tomar consciência de que não é diretamente pelo bom êxito que trabalham; mas, antes, por Maria, independentemente da facilidade ou dificuldade da sua tarefa. A esta devem eles dar do melhor que possuem, quer ela seja notável ou insignificante. Hão de merecer, assim, a plena cooperação de Maria, que não se negará a realizar prodígios, se isso for preciso. O legionário não pode fazer grande coisa? Pois bem, se nisso puser toda a sua alma, Maria virá em seu socorro, com todo o seu poder, dando a um pequeno movimento, o efeito da força de gigante; e se, depois de haver feito quanto pôde, o legionário se encontrar a mil léguas do bom êxito, ela encurtará a distância e a fará desaparecer, alcançando pela sua colaboração, um resultado maravilhoso.

 

Mesmo que o legionário ponha em ação dez vezes mais de esforço do que o preciso para realizar um trabalho, nada se perdeu. Não trabalha ele por Maria? Não é ele um soldado ao serviço dos seus vastos desígnios, dos seus misericordiosos intentos? Maria há de receber com júbilo, o excedente deste esforço, multiplicá-lo-á abundantemente, para com ele, suprir as graves necessidades da família do Senhor. Nada do que entregamos à cuidadosa dona de casa de Nazaré, é perdido.

 

Mas se, pelo contrário, a contribuição do legionário é lamentavelmente inferior àquela que a sua Rainha tem direito de exigir dele, as mãos de Maria ficam como que amarradas e por


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isso, ficam impedidas de conceder generosamente os seus dons. O contrato de comunhão de bens, tão cheio de inúmeras e excepcionais possibilidades, entre Maria e o legionário, é anulado pela negligência, da qual este se torna culpado. E que triste perda, para as almas e para si mesmo, ser abandonado às próprias forças!

 

Inútil, pois, procurar desculpas para justificar esforços insuficientes ou maneiras desordenadas de agir, alegando inteira confiança em Maria. Muito fraca e desprezível deve ser a confiança que leva o legionário a recuar, perante o uso razoável das suas energias. Procura neste caso lançar aos ombros da sua Rainha o fardo que ele próprio pode levar. Que cavaleiro da antiguidade teria servido tão estranhamente a sua dama?

 

Por isso, como se nada tivéssemos dito a este respeito, recordemos o princípio fundamental da aliança do legionário com Maria: o legionário deve dar tudo quanto estiver a seu alcance. A função de Maria não consiste em completar aquilo que o legionário se recusa a fornecer. Ela não pode – a inconveniência é clara – dispensar o legionário do esforço e do método no trabalho, da paciência e da reflexão, de que é capaz, e com a qual tem obrigação de contribuir para o tesouro de Deus.

 

Maria deseja ardentemente dar, em grande quantidade, mas só pode agir assim, com as almas generosas. Desejosa de que os legionários, seus filhos, possam extrair graças preciosas das imensas riquezas do Seu coração, ela, usando as palavras do seu próprio Filho, convida-os “a servir com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças” (Mc 12, 30).

 

O legionário deve pretender unicamente de Maria que ela acrescente, purifique, aperfeiçoe, sobrenaturalize a sua atividade natural, e faça com que os seus fracos esforços sejam capazes de realizar aquilo que, aliás, lhe seria impossível: obras grandiosas em cuja realização, se preciso for, se hão de cumprir as palavras da Escritura: os montes serão arrancados e precipitados no mar, a terra será aplainada e os caminhos serão endireitados, para se facilitar a entrada no reino de Deus.

 

“Todos nós somos servos inúteis, mas servimos um Mestre sumamente econômico que tanto aproveita uma gota de suor da nossa fronte como uma gota de orvalho celeste. Nada desperdiça.

 

Não sei a sorte deste livro, nem se chegarei ao fim dele ou se chegarei ao final desta página. Sei, porém, o suficiente para empregar nele o resto das minhas forças e dos meus dias” (Frederico Ozanam).


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 37]

 

5. Os legionários devem praticar a Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem,

segundo São Luís Maria de Montfort

 

É para desejar que a prática da devoção mariana do legionário se revista daquela característica, que São Luís Maria de Montfort ensinou sob o nome de “Verdadeira Devoção” ou “Escravatura de Jesus em Maria”, e que resumiu nas suas obras: “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” e “O segredo de Maria” (Cf. Apêndice 5).

 

Esta devoção exige um contrato explícito com a Mãe de Deus, pelo qual nos entregamos inteiramente a ela, com todos os nossos pensamentos, ações e bens, espirituais e temporais, passados, presentes e futuros, não reservando para nós nem a mínima parcela. Numa palavra, o doador coloca-se numa situação idêntica à do escravo, que nada possui de seu, em total dependência e à inteira disposição de Maria.

 

Mas o escravo antigo era muito mais livre do que o escravo de Maria. O primeiro era senhor dos seus pensamentos, da sua vida interior e, portanto, livre em tudo o que o tocava de mais perto. A doação de nós mesmos a Maria abrange todas as coisas: cada um dos pensamentos e movimentos da nossa alma, as nossas riquezas escondidas e o mais íntimo do nosso ser. Tudo – até ao último suspiro – é entregue a Maria, para que o empregue para a glória de Deus. O nosso sacrifício a Deus é uma espécie de martírio, com Maria, servindo de altar. Assemelha-se ao sacrifício do próprio Cristo que, começado também no seio de Maria, publicamente confirmado em seus braços no dia da Apresentação, abrange todos os momentos da Sua vida e se completa no Calvário, na Cruz do Coração de Maria.

 

A Verdadeira Devoção abre por um ato formal de Consagração; consiste, porém, e principalmente em viver essa mesma consagração. Deve ser não um ato passageiro, mas um estado habitual da nossa alma. Se Maria não tomar posse de toda a nossa vida e não só de alguns minutos ou de algumas horas, a valor do ato de Consagração – mesmo freqüentemente repetido – não passa de uma oração passageira. É como árvore plantada que não lançou raízes.

 

Não quer isto significar que sejamos obrigados a pensar constantemente nessa Consagração. Assim como a vida física é regulada pela respiração ou pelo pulsar do coração, sem que disso tenhamos consciência, assim deve acontecer com a Verdadeira


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 38]

 

Devoção: atuar incessantemente na vida da alma, mesmo que não tenhamos consciência disso. Basta que, de tempos em tempos, recordemos os direitos de propriedade de Maria sobre nós, por meio de pensamentos, atos e jaculatórias apropriadas; que de maneira habitual, reconheçamos a nossa inteira dependência dela, sempre vagamente presente em nosso espírito; e que, o nosso comportamento seja uma conseqüência dessa consagração, em todas as circunstâncias da nossa vida.

 

O fervor, se acaso existe, pode ser proveitoso. Todavia, a sua ausência não afeta o valor da Devoção. Muitas vezes, até, o fervor amolece a piedade, enfraquecendo-a.

 

Notemos bem: a Verdadeira Devoção não depende de fervores ou de sentimentos de qualquer espécie. Como um grande edifício, ela pode, às vezes, ser abrasada pelos ardores do sol, enquanto os seus fundos alicerces se mantêm frios como a rocha, em que se assentam.

 

Em geral, a razão é fria; a melhor resolução da nossa vida pode ser glacial: a própria fé pode ser gelada como um diamante. No entanto, estes são os alicerces da Verdadeira Devoção. Sobre eles assentará com firmeza, e os gelos e as tempestades que desabam sobre as montanhas hão de deixá-la ainda mais forte.

 

As graças que têm acompanhado a prática da Verdadeira Devoção e o lugar que ocupa na vida espiritual da Igreja, parecem indicá-la, com razão, como uma autêntica mensagem celeste. Isto afirmava já São Luís Maria de Montfort. Ligava-lhe numerosíssimas promessas, cuja realização ficaria garantida a quantos cumprissem as condições estabelecidas.

 

Consultem a experiência; interroguem aqueles para quem a prática desta Devoção é mais do que um ato passageiro e superficial e verificarão com que profunda convicção falam dos seus benefícios. Perguntem a eles se não estão sendo vítimas dos sentimentos ou da imaginação. Hão de responder-lhes sempre, que os frutos são demasiado evidentes para admitir ilusões.

 

Se a soma das experiências daqueles que compreendem, ensinam e praticam a Verdadeira Devoção vale alguma coisa, parece indiscutível que esta Devoção aumenta consideravelmente a vida interior, imprimindo-lhe um caráter especial de generosidade e de pureza de intenção. Temos a sensação de sermos guiados e protegidos e a alegre certeza de tirarmos, desde então, o melhor proveito possível da nossa vida. Com ela enfrentamos sobrenaturalmente as mil e uma dificuldades da existência: a coragem se fortalece, a fé torna-se mais firme, fazendo-nos fiéis instrumentos de qualquer obra de Deus. Com ela, desenvolve-se


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 39]

 

em nós, uma ternura e sabedoria, que obriga a força a ocupar o lugar que lhe convém e desenvolve-se também uma suave humildade, guarda de todas as virtudes. Recebemos graças que temos de considerar extraordinárias. Sentimo-nos chamados, freqüentemente, a obras que ultrapassam os nossos méritos e dotes naturais. Com tal chamamento surgem auxílios que nos habilitam a carregar, sem desfalecimento, gloriosos e pesados fardos. Numa palavra, em troca de um esplêndido sacrifício que fizemos pela Verdadeira Devoção, entregando-nos a Maria como escravos de amor, ganhamos o cêntuplo prometido àqueles que se despojam de tudo, pela maior glória de Deus. Quando servimos, reinamos; quando damos, enriquecemo-nos; quando nos entregamos, vencemos.

 

Algumas pessoas parecem reduzir toda a sua vida espiritual, muito simplesmente, a uma questão egoísta de lucros e perdas. Ficam desconcertadas perante a idéia de abandonar a Maria, Mãe das almas, as suas riquezas espirituais. Ouve-se dizer: “Se eu der a Maria tudo o que me pertence, não poderá acontecer encontrar-me, à hora da morte, diante do Supremo Juiz, de mãos vazias, e por conseguinte, com um Purgatório necessariamente prolongado?” A resposta é simples e bela: “Não, de modo nenhum, uma vez que Maria assiste ao julgamento!” O pensamento contido nesta reflexão, é profundo.

 

Mas a hesitação em fazer a Consagração provém, na maioria das vezes, não tanto das nossas considerações puramente egoístas, como da nossa insegurança. Nós nos preocupamos com a sorte futura daqueles por quem temos obrigação de rezar – a família, os amigos, o Papa, a Pátria, etc. – se entregarmos a Maria todos os nossos tesouros espirituais. Ponhamos de lado tais receios e façamos ousadamente a nossa Consagração. Com Maria tudo está seguro. Ela é a guarda dos próprios tesouros de Deus e, por isso, também, capaz de guardar os tesouros daqueles que depositam nela a sua confiança. Lancemos, portanto, no seu coração excelso e generoso, a absoluta totalidade da nossa vida, com todas as responsabilidades, obrigações e compromissos. Nas suas relações conosco, Maria procede como se não tivesse outros filhos. A nossa salvação, a nossa santificação, as nossas múltiplas necessidades estão, indiscutivelmente, presentes no seu espírito. Quando rezamos pelas suas intenções, estejamos certos de que nós somos a sua primeira intenção.

 

Não é neste momento, em que aconselhamos o sacrifício, que convém provar que a Consagração é de fato lucrativa. Seria destruir os próprios alicerces da oferta e privá-la do caráter do sacrifício, de que depende o seu valor. Baste recordar que, em


[Capítulo 6      Os deveres dos Legionários para com Maria      página 40]

 

ocasião, uma multidão de dez ou doze mil pessoas se encontrava esfomeada em lugar deserto (Jo 6, 1-14). Uma só pessoa havia que levara, para comer, cinco pães de cevada e dois peixes. Pediram-lhe que os cedesse para o bem de todos. E ele o fez, generosamente. Os cinco pães e os dois peixes foram então abençoados pelo Senhor, partidos e distribuídos à multidão imensa, que comeu até se saciar e, no meio dela, o próprio doador. Os restos encheram, a transbordar, doze cestos! Suponhamos agora que o tal indivíduo tivesse dito: “Que são cinco pães e dois peixes para tanta gente? Além disso, eu preciso deles para os meus parentes que estão comigo, cheios de fome. Não os posso dar”. Mas não! Deu-os e recebeu ele e toda a família, da refeição milagrosa, muito mais do que havia entregue, com certo direito indiscutível sobre o conteúdo dos doze cestos, se acaso desejasse reclamá-lo.

 

É assim que Jesus e Maria tratam sempre a alma generosa que se entrega a eles com todos os seus bens, sem reservas nem condições. O dom da criatura, por eles divinamente multiplicado, basta para satisfazer as necessidades de uma multidão imensa. As nossas necessidades e intenções que, parece, deveriam sofrer com isso, são satisfeitas prodigamente, pela bondade divina.

 

Apressemo-nos, pois, a entregar a Maria os nossos pães e peixinhos: vamos depositá-los em seu colo, para que Jesus e ela os multipliquem e, com eles, saciem milhões de almas que morrem de fome, no árido deserto deste mundo.

 

Não vamos mudar a forma externa das nossas orações ordinárias, ou o curso das nossas ações de cada dia, pelo fato de nos havermos consagrado a Maria. Continuemos a empregar o tempo como antes e a rezar pelas nossas intenções habituais e particulares, sujeitos, porém, à aceitação da Santíssima Virgem. 

 

“Maria mostra-nos seu Divino Filho e dirige-nos o mesmo convite que outrora dirigiu aos servos de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Se, obedecendo à sua voz, lançarmos nas talhas da Caridade e do Sacrifício a água sem sabor dos mil pormenores da nossa vida diária, renovar-se-á o milagre de Caná. A água converter-se-á em vinho delicioso, quer dizer, em graças de eleição para nós e para os outros” (Cousin).


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O LEGIONÁRIO E A SANTÍSSIMA TRINDADE

 

Não deixa de ser significativo o fato de o primeiro ato coletivo da Legião ter sido a invocação e a oração ao Espírito Santo, logo seguidas do Terço à Virgem e a seu Divino Filho.

 

Quando alguns anos mais tarde, se decidiu modelar o Vexillum, o Espírito Santo passou a ser a característica predominante do novo emblema. O projeto (coisa estranha!) havia sido fruto, não de uma preocupação teológica, mas artística. Tratava-se de transformar o estandarte da Legião Romana, que não tinha nenhum sentido religioso, em estandarte da Legião de Maria. A pomba substituiria a águia e a imagem de Nossa Senhora substituiria a do Imperador ou do Cônsul. Daí a representação final, em que o Espírito utiliza Maria como canal das Suas influências vivificadoras e toma posse da Legião.

 

A pintura da Tessera, mais tarde, veio ilustrar a mesma atitude de devoção: o Espírito Santo aparece pairando sobre a Legião. Por Seu poder onipotente se trava um combate sem fim: a Virgem esmaga a cabeça da Serpente, enquanto os seus batalhões avançam, vitoriosos, sobre as forças adversas.

 

Secundária, mas interessante, é a circunstância de a cor da Legião ser a cor vermelha e não a cor azul, como era lícito esperar. Assim foi decidido, em relação à cor do halo da imagem de Nossa Senhora, no Vexillum e na Tessera. Requeria o simbolismo a representação da Virgem, cheia do Espírito Santo e, por conseqüência aureolada de vermelho. Daqui surgiu a idéia de a cor da Legião ser a cor vermelha. A Tessera, em que a Senhora aparece radiante como a bíblica Coluna de Fogo e envolta nas chamas do Espírito Divino, sublinha ainda o mesmo pensamento.

 

Assim, ao compor a fórmula do Compromisso, impunha-se logicamente – embora de início causasse surpresa – que ela fosse dirigida ao Espírito Santo e não à Rainha da Legião. Batia-se assim na mesma tecla: o Espírito Santo é o regenerador do mundo, não havendo graça concedida aos indivíduos, por mínima que escape à Sua ação e Maria é sempre a Sua Medianeira. Por virtude do Espírito, o Eterno Filho de Deus faz-se homem no seio de Maria. O gênero humano uniu-se desta forma à Santíssima Trindade e Maria passou a ligar-se, por uma relação única e distinta, a cada uma das Pessoas Divinas. É um dever para nós procurar entrever esta tríplice relação. A compreensão


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 42]

 

do Plano Divino é sem dúvida uma grande graça, que não está fora do nosso alcance.

 

Insistem os Santos na necessidade de bem distinguir as Três Divinas Pessoas e de prestar a cada uma delas a devida atenção. A este respeito, o Credo Atanasiano (1) é absoluto e estranhamente ameaçador, pois se trata do fim último da Criação e da Encarnação – a glória da Santíssima Trindade.

(1) Profissão de Fé cuja forma surgiu com o I Concílio Ecumênico (Nicéia – ano 325); quando Santo Atanásio defendeu brilhantemente a divindade de Jesus contra aqueles que o consideravam uma simples criatura do Pai, inferior a Ele e não o Filho de Deus.

 

Mas como poderemos nós penetrar, embora obscuramente, em tão incompreensível mistério? Com certeza, só pela luz divina, que podemos solicitar confiadamente da Virgem Maria, a quem pela primeira vez foi exposto, com clareza o mistério da Trindade. A revelação teve lugar no momento histórico da Anunciação. Pelo seu Arcanjo, a Trindade Santíssima assim se manifestou a Maria: “O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra. E, por isso mesmo, o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).

 

Aparecem nesta revelação de modo evidente as Três Divinas Pessoas. Primeiro, o Espírito Santo, a quem é atribuída a obra da Encarnação; em seguida, o Altíssimo,o Pai d’Aquele que há de nascer; e finalmente a Criança que “será grande e chamada Filho do Altíssimo” (Lc 1,32).

 

A consideração das diferentes relações da Virgem com as Divinas Pessoas vai nos ajudar a distingui-las de maneira mais perfeita.

 

A relação de Maria com a Segunda Pessoa Divina – a maternidade – é a mais acessível ao nosso entendimento. A sua maternidade, porém, é de natureza mais íntima, mais contínua e infinitamente mais elevada que a maternidade humana normal. No caso de Jesus e de Maria, a união das almas ocupa o primeiro plano, e a da carne, o segundo; de tal forma que, embora se tenham separado fisicamente na ocasião do nascimento de Jesus, a união dos dois não só não se interrompeu, como progrediu até, por graus incompreensíveis de intensidade, a ponto de Maria poder ser declarada pela Igreja, não apenas “aliada” da Segunda Pessoa Divina – Correndentora na obra da Salvação, Medianeira da Graça – mas de fato, “semelhante a Ele”.

 

Do Espírito Santo, Maria é comumente chamada, o templo ou o santuário. Semelhantes termos, todavia, não exprimem


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 43]

 

totalmente a realidade, a união íntima e profunda do Espírito Santo com a Virgem, união que a elevou à dignidade tão sublime que só Ele a excede. O Espírito Divino apossou-se de Maria, fez uma só coisa com ela, e animou-a de tal sorte que pode ser considerada a sua verdadeira alma. Maria não é um mero instrumento ou canal da Sua atividade divina; é, antes, a Sua Cooperadora inteligente, consciente, a ponto de se poder afirmar que a ação de Maria é a ação do Espírito Santo e que a rejeição da intervenção de Maria é a rejeição simples da intervenção do Espírito Divino.

 

O Espírito Santo é Amor, Beleza, Poder, Sabedoria, Pureza e tudo quanto é divino. Quando desce em plenitude a uma alma, desaparecem as dificuldades e os mais graves problemas encontram solução de acordo com a Vontade Divina. Aceitando a Sua colaboração, o homem entra no domínio da onipotência (Sl 77). Ora, uma das condições para O atrair a nós é a compreensão da relação da Virgem com Ele. Outra, porém, existe e vital, uma especial consideração pelo Espírito Santo como Pessoa real e distinta, com a Sua missão específica junto do gênero humano. Um tal apreço não conseguirá manter-se sem que o nosso espírito se volte com freqüência para Ele. Se lançarmos mão desta prática nas nossas devoções à Santíssima Virgem, todas elas se poderão orientar para o Espírito Santo. O Rosário, por exemplo, é uma oração que os legionários poderão utilizar especialmente desta forma. É que o Rosário constitui uma excelente devoção ao Espírito Santo, não só por ser a principal forma de oração a Nossa Senhora, como também pelo fato de conter os quinze mistérios em que se celebram as mais importantes intervenções do Espírito de Deus, no drama da Redenção.

 

A relação de Maria com o Eterno Pai é usualmente definida como a de Filha. Semelhante título propõe-se designar:

 

a) a posição de Maria como “a primeira de todas as criaturas, a mais grata Filha de Deus, a mais próxima e a mais querida”. (Newman);

 

b) a plenitude da sua união com Jesus, pela qual contraiu uma nova relação com o Pai (1), que lhe dá direito a ser chamada misticamente, a Filha do Eterno Pai;

(1) “Como Mãe de Deus, Maria contrai uma certa afinidade com o Pai” (Lépicier).

 

c) a semelhança sublime com o Pai, que a tornou capaz de dar ao mundo a Luz Eterna que nasce do seio deste Pai amoroso.

 

A designação de “Filha” talvez não nos dê a entender bastante, a influência que a sua relação com o Pai lhe permite exer-


[Capítulo 7      O Legionário e a Santíssima Trindade      página 44]

 

cer em nós, filhos d’Ele e dela. “Deus Pai comunicou a Maria a Sua fecundidade, tanto quanto era possível comunicar a uma simples criatura, para lhe dar o poder de produzir Seu Filho e todos os membros do Seu Corpo Místico” (S. Luís Maria de Montfort). A sua relação com o Pai é um elemento fundamental, sempre presente, no fluxo de vida que verte para as almas. Deus exige que os Seus dons ao homem se traduzam, por parte deste, em apreço e cooperação. Por conseguinte, esta união vivificante deve ser objeto freqüente dos nossos pensamentos. O Pai Nosso, que os legionários repetem tantas vezes, rezado com esta especial intenção, dará satisfação plena a este dever. Composto por Jesus Cristo, nele pedimos o que nos é mais necessário e do modo mais perfeito. Rezado com inteira consciência e no espírito da Igreja Católica, realizará perfeitamente o propósito de glorificar o Eterno Pai e de prestar-Lhe a homenagem do nosso reconhecimento, pelo dom superabundante com que nos presenteou, por Maria.

 

“Recordemos para confirmar a dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o exemplo que nos deram as Pessoas da Santíssima Trindade.

 

O Pai não deu e não dá o Seu Filho senão por Maria; não adota filhos senão por ela, nem comunica as Suas graças senão por ela. Deus Filho não foi formado para todo o mundo, senão por Maria, nem é formado e gerado todos os dias senão por ela, em união com o Espírito Santo e só por meio dela comunica os seus merecimentos e virtudes. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por ela, e só por meio dela distribui os Seus dons e favores. Depois de tantos e tão manifestos exemplos da Santíssima Trindade, poderemos nós, sem uma cegueira extrema, dispensar-nos de Maria, não nos consagrarmos a ela, nem dela depender?” (S. Luís Maria de Montfort: Tratado de Verdadeira Devoção, 140).

 

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O LEGIONÁRIO E A EUCARISTIA

 

1. A Santa Missa

 

Como já acentuamos, a santidade dos membros é de fundamental importância para a Legião. Além disso é também o seu principal meio de ação. É que o legionário não pode ser canal


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 45]

 

de graças para os outros, senão na medida em que ele próprio as possui. Por isso, ao ingressar na Legião, cada membro pede insistentemente por intermédio de Maria a plenitude do Espírito Santo e a graça de ser instrumento do Seu poder divino, que há de renovar a face da terra.

 

As graças assim pedidas brotam todas, sem exceção, do Sacrifício de Jesus no Calvário. É pela Santa Missa que o Sacrifício da Cruz se perpetua entre os homens. A Missa não é, pois, uma simples representação simbólica do passado: ela torna real e atualmente presente no meio de nós essa ação sublime que Nosso Senhor consumou no Calvário e pela qual remiu a humanidade.

 

A Cruz não vale mais do que a Missa, porque são um e mesmo sacrifício, afastados o tempo e o espaço pela mão do Onipotente. O Sacerdote e a Vítima são idênticos, difere apenas o modo de oferecer o Sacrifício. A Missa contém tudo quanto Jesus Cristo ofereceu a Deus e tudo quanto alcançou para os homens; e o oferecimento dos que participam da Missa torna-se um só com o próprio sacrifício do Salvador.

 

O legionário deverá recorrer à Missa, se deseja, para si e para os outros, uma participação abundante nas riquezas da Redenção. A Legião não impõe aos seus membros qualquer obrigação concreta sobre a participação na Missa, pois as ocasiões e circunstâncias da vida de cada membro são muito diferentes. Todavia, preocupada com eles e com seus trabalhos, insiste com todos e suplica-lhes que tomem parte nela, com freqüência – diariamente se for possível – e recebam nessa ocasião a Sagrada Comunhão.

 

Se os legionários são obrigados a agir sempre em união íntima com Maria, é sobretudo no ato solene da participação na Santa Missa que o devem fazer.

 

Como sabemos, a Missa compõe-se de duas partes principais, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. É importante ter presente que estas duas partes estão tão intimamente unidas que formam um só ato de culto (SC 56). Por isso, os fiéis devem tomar parte na Missa inteira, onde estão a mesa da Palavra e a mesa do Corpo de Cristo, para que por elas sejam instruídos e alimentados (SC 48, 51).

 

“O sacrifício da Missa não é tão somente uma recordação simbólica da Cruz. Ao contrário, a Missa torna atualmente presente o sacrifício do Calvário, como uma excelsa realidade não sujeita a tempo e a espaço. O espaço e o tempo desaparecem, pela mão do Onipotente. O mesmo Jesus que morreu na Cruz está ali presente. Os participantes unem-se à Sua vontade santíssima e sacrifical; e,


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 46]

 

por Jesus presente no meio deles consagram-se ao Pai celeste como uma viva oblação. A Santa Missa é, pois, uma tremenda realidade, a realidade do Gólgota: torrente de dor e de arrependimento, de amor e de devoção, de heroísmo e de espírito de sacrifício, que brota do altar e corre sobre a comunidade em oração” (Karl Adam: O Espírito do Catolicismo).

 

2. Liturgia da Palavra

 

A Missa é, acima de tudo, a celebração da fé, daquela fé que nasceu em nós e foi alimentada pela audição da Palavra de Deus. Recordemos a este respeito as palavras da Instrução Geral sobre o Missal (nº 9): “Quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é o próprio Deus que fala ao Seu povo, é Cristo presente na Sua palavra quem anuncia o Evangelho. Por isso, as leituras da Palavra de Deus, que oferecem à Liturgia um dos elementos de maior importância, devem ser escutados por todos com veneração”. A homilia é também de grande importância: parte necessária da Missa nos Domingos e Dias Santos, e também desejável nos outros dias. Pela homilia, o sacerdote explica o texto sagrado à luz dos ensinamentos da Igreja, para o crescimento da fé dos presentes.

 

Nossa Senhora é o modelo da nossa participação na palavra, porque “é a Virgem que sabe ouvir, que acolhe a palavra de Deus com fé, fé que foi para Ela a preparação e o caminho para a maternidade divina” (MCul 17).

 

3. A Liturgia da Eucaristia em união com Maria

 

Nosso Senhor não começou a obra da Redenção, sem o consentimento de Maria, solenemente pedido e livremente dado; nem a completou no Calvário, sem a sua presença. “Por esta comunhão de sofrimentos e de vontades entre Maria e Cristo, mereceu ela, com justíssima razão, tornar-se a Restauradora do mundo perdido e a Despenseira de todas as graças, que Jesus alcançou com a Sua morte e com o Seu sangue” (AD 9). Junto a Cruz do Salvador esteve Maria, representando o gênero humano; também agora, em cada Missa está presente, cooperando com Jesus, como sempre, ela, a Mulher anunciada desde o princípio, Aquela que esmaga a cabeça da Serpente infernal. Por isso, uma amorosa união a Maria deve fazer parte de toda a Missa bem participada.


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 47]

 

Com Maria, no Calvário, estiveram também os representantes de uma Legião – o centurião e a sua coorte – que desempenharam um fúnebre papel no oferecimento da Vítima, embora não soubessem que estavam crucificando o Senhor da Glória (1Cor 2, 8). E ó maravilha! a graça desceu, em torrentes, sobre os seus corações. “Contemplai e vede”, diz S. Bernardo, “como a fé tem o olhar penetrante. Reparai bem nos seus olhos de lince! Por ela, no Calvário, o Centurião reconheceu a vida na morte; e, num último suspiro, o Espírito soberano”. Contemplando a sua Vítima morta e desfigurada, os legionários romanos proclamaram-na Verdadeiro Filho de Deus (Mt 27, 54).

 

A conversão destes homens grosseiros e cruéis foi o fruto repentino e inesperado das orações de Maria. Estranhos filhos, os primeiros que a Mãe dos homens recebeu no Calvário e que lhe tornaram para sempre tão querido, o nome de legionários. Depois disto, quem poderá duvidar de que ela, quando os seus legionários – unindo-se às suas intenções, elemento integrante da sua cooperação – participam todos os dias da santa Missa, os reúna à volta de si e lhes dê aqueles olhos penetrantes de fé e o seu Coração transbordante para que, assim, tomem parte de maneira mais íntima e proveitosa na continuação do sublime sacrifício do Calvário?

 

Quando virem levantar o Filho de Deus, os legionários hão de unir-se a Ele, para com Ele formarem uma só Vítima. A Missa, sacrifício de Jesus Cristo, é também o deles. Deveriam, em seguida, receber o Corpo adorável do Senhor: para obter a plenitude dos frutos do Divino Sacrifício é absolutamente necessário que os participantes comunguem com o sacerdote a carne da Vítima imolada.

 

Hão de compreender então, a parte essencial de Maria, a nova Eva, nestes mistérios sagrados – parte e cooperação tão íntima que, “quando o seu amado Filho consumava a Redenção do gênero humano no altar da Cruz, lá estava a Seu lado, sofrendo e remindo com Ele” (Pio XI). Ao se retirarem, Maria acompanhará os legionários, dando-lhes parte das suas graças e da distribuição que se segue, derramando através deles, em todos quantos encontrarem ou, naqueles por quem trabalharem, os infinitos tesouros da Redenção.

 

“A sua maternidade é particularmente notada e vivida pelo povo cristão no Banquete Sagrado – celebração litúrgica do mistério da Redenção – no qual se torna presente Cristo, no seu verdadeiro Corpo, nascido da Virgem Maria.


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 48]

 

Com muita razão, a piedade do povo cristão percebeu sempre uma ligação profunda entre a devoção à Virgem Santíssima e o culto da Eucaristia: pode-se comprovar este fato, na liturgia tanto ocidental como oriental, na tradição das Famílias religiosas, na espiritualidade dos movimentos contemporâneos, mesmo dos movimentos juvenis e na pastoral dos santuários marianos: Maria conduz os fiéis à Eucaristia (RMat 44).

 

4. A Eucaristia, nosso tesouro

 

A Eucaristia é o centro e a fonte da graça: por isso, deve constituir também a pedra angular do sistema legionário. A mais ardente atividade não fará nada que preste, se esquecer, por um só momento, que o seu motivo principal é o estabelecimento em todos os corações do reino da Eucaristia. Deste modo será atingido o fim para que Jesus veio ao mundo: comunicar-se às almas, para as fazer uma só coisa com Ele. Ora, o meio principal para conseguir tal união é a Eucaristia. “Eu sou”, diz Jesus “o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu darei é a minha carne, para a salvação do mundo” (Jo 6, 51-52).

 

A Eucaristia é o bem infinito. Neste sacramento, com efeito, está o próprio Jesus tão presente como outrora em Nazaré ou no Cenáculo de Jerusalém. A Sagrada Eucaristia não é o símbolo da Sua pessoa ou um instrumento do Seu poder: é o mesmo Jesus, vivo e inteiro. Por isso, Aquela que O concebeu e nutriu “encontrava na hóstia adorável o fruto bendito do seu ventre, e renovava na sua vida de união com Jesus Sacramentado os ditosos dias de Belém e Nazaré” (S. Pedro Juliano Eymard).

 

Muitos, para quem Jesus não passa de um homem inspirado, O honram e imitam; e maiores homenagens Lhe renderiam, se n’Ele vissem algo de mais elevado. Como deveríamos nós nos comportarmos, visto possuirmos o inestimável benefício da fé? Como são indesculpáveis os católicos que crêem mas não praticam. Aquele Jesus, que os outros tanto admiram, possuem-n’O os católicos, vivo, na Eucaristia. Têm livre acesso a Ele; podem e devem recebê-l’O, mesmo todos os dias, como alimento das suas almas.

 

À vista disto, como é triste verificar a vergonhosa negligência com que é tratada tão rica herança e como pessoas que crêem na Sagrada Eucaristia, por pecados e desleixos, se privam deste alimento vital da alma, que Jesus, desde o primeiro instante da


[Capítulo 8      O Legionário e a Eucaristia      página 49]

 

Sua existência terrestre, pensava em dar-lhes. Logo em Belém (Casa do Pão) foi reclinado na palha de que Ele era o Trigo Divino, destinado a tornar-se em breve o Pão Celeste que havia de unir a Ele todos os homens (e uns aos outros), no seu Corpo Místico.

 

Maria é a Mãe deste Corpo Místico. E assim como outrora cuidava dedicadamente de todas as necessidades de Jesus Menino, assim deseja agora ardentemente nutrir o Corpo Místico, do qual é Mãe, tanto quanto o é de Jesus. Que angústias para o seu Coração maternal, ao ver a fome – às vezes extrema – de seu Filho, no Seu Corpo Místico, porque poucos se alimentam como devem do Pão Divino, e muitos, absolutamente nada. Que todos quantos desejam de fato unir-se a Maria, para participar dos seus cuidados maternais para com as almas, partilhem também das suas angústias e se esforcem, com ela, por matar a fome do Corpo Místico de Jesus. O legionário deve aproveitar todos os recursos para despertar nas pessoas com quem realiza o seu apostolado, o conhecimento e o amor ao Santíssimo Sacramento, e também aproveitar para destruir o pecado e a indiferença que d’Ele afastam tanto, os homens. Cada comunhão obtida representa um lucro incomensurável, porque, alimentando a alma individual, nutre todo o Corpo Místico de Cristo e o faz crescer em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens (Lc 2, 52).

 

“Esta união da Mãe com o Filho na obra da Redenção alcança o ponto culminante no Calvário, onde Cristo ‘se ofereceu a si mesmo, vítima sem mácula, a Deus’ (Hb 9, 14), e onde Maria esteve de pé, junto à Cruz (Cf. Jo 19, 15), ‘sofrendo profundamente com o seu Unigênito e associando-se com ânimo maternal ao seu sacrifício, consentido amorosamente na vítima que havia gerado’, e oferecendo-a também ela, ao eterno Pai. Para perpetuar ao longo dos séculos o Sacrifício da Cruz, o divino Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico, memorial da sua Morte e Ressurreição, e confiou-o à Igreja, sua Esposa, a qual, sobretudo aos domingos, convoca os fiéis para celebrar a Páscoa do Senhor, até que ele volte: o que a mesma Igreja faz em comunhão com os Santos do céu e, em primeiro lugar, com a bem-aventurada Virgem Maria, de quem imita a caridade ardente e a fé inabalável” (MCul 20).


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O LEGIONÁRIO E O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 

1. O serviço legionário é baseado nesta doutrina

 

Já na primeira reunião de legionários ficou bem claro o caráter sobrenatural do serviço a que iam se dedicar. A sua convivência com o próximo devia transparecer cordialidade, não por motivos meramente naturais, mas porque deveriam ver nesse próximo a mesmíssima Pessoa de Cristo, tendo sempre presente que tudo o que fizessem aos outros, ainda que de maneira fraca ou desprezível, o faziam Àquele mesmo Senhor que afirmou: “Em verdade vos digo que o que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos, a mim próprio o fizestes” (Mt 25, 40).

 

Ora, o que se deu com a primeira reunião tem-se dado com todas as que se lhe seguiram. Nenhum esforço tem sido poupado na intenção de fazer ver aos legionários que tal critério deve ser, não só a pedra basilar do seu serviço, mas o alicerce da disciplina e da harmonia na vida interna da Legião. O legionário deve ver e respeitar nos Oficiais e nos companheiros, o próprio Cristo. Que ele tenha sempre presente esta verdade transformadora. Para ajudá-lo a atingir tal fim é que se inscreve esse princípio na Ordem Permanente, lida mensalmente na reunião do Praesidium. Essa Ordem insiste ainda neste outro princípio fundamental da Legião: devemos trabalhar em tão estreita união com Maria que seja ela quem de fato, por meio do legionário, execute a sua obra.

 

Estes princípios básicos da Legião não são mais, afinal, do que a conseqüência da Doutrina do Corpo Místico de Cristo, doutrina que constitui o tema principal das Epístolas de São Paulo: e isto nada tem de singular, sabendo-se que a conversão do Apóstolo se deve à declaração dessa doutrina. Perante o clarão que baixara do céu, o grande perseguidor dos cristãos caiu por terra, cego, e ouviu estas aterradoras palavras: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” E Saulo interrogou: “Quem é tu, Senhor?” E uma voz respondeu-lhe: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At 9, 4-5). Que maravilha que estas palavras ficassem gravadas a fogo vivo na alma do Apóstolo e que este se sentisse a todo momento compelido a falar e a escrever sobre a verdade nelas contida.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 51]

 

São Paulo compara a união entre Cristo e os batizados àquela que existe entre a cabeça e os outros membros do corpo humano. Neste, cada membro tem a sua finalidade, a sua função especial; uns são mais nobres, outros menos, mas todos, dependendo uns dos outros, são animados pela mesma vida. Deste modo, o dano sofrido por um deles reflete-se em todos; mas, se um recebe benefício, todos dele participam.

 

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e a Sua plenitude (Ef 1, 22-23); Cristo é a Cabeça, a parte principal, indispensável e perfeita, onde todos os membros vão buscar as suas energias e a sua própria vida. O batismo une-nos a Cristo com laços de tal forma estreitos, que ninguém poderá imaginá-los. O termo “místico” não significa, de forma alguma, irreal. De acordo com as vibrantes palavras da Sagrada Escritura – “somos membros do Seu corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos” (Ef 5, 30). Daqui resultam certos deveres sacratíssimos de amor e de serviço, não só entre os membros e a Cabeça, mas entre os próprios membros (1Jo 4, 15-21). A comparação do corpo ajuda-nos poderosamente a compreender esses deveres, e tal conhecimento constitui já meio caminho andado para o seu cumprimento.

 

Com razão se tem afirmado ser este o dogma central do Cristianismo. De fato, toda a vida sobrenatural, todas as graças concedidas ao homem são fruto da Redenção. Esta se baseia no fato de Cristo e a Sua Igreja constituírem uma única pessoa mística; e assim é que as reparações operadas por Cristo, a Cabeça, e os méritos infinitos da Sua Paixão pertencem também aos Seus membros, os fiéis. Deste modo se explica como é que Nosso Senhor pôde sofrer pelo homem, conseguindo o perdão de culpas que não cometera. “Cristo é a Cabeça da Igreja, Seu Corpo, do qual ele é o Salvador” (Ef 5, 23).

 

A atividade do Corpo Místico é a do próprio Cristo. Os fiéis são n’Ele incorporados e n”Ele vivem, sofrem e morrem, e, em Sua Ressurreição, ressuscitam. O batismo santifica, precisamente, porque estabelece, entre Cristo e a alma, essa comunicação de vida, por onde flui, da Cabeça para os membros, a santidade. Os outros Sacramentos, sobretudo a Divina Eucaristia, destinam-se a estreitar a união entre o Corpo Místico e a Cabeça. Tal união, entre a cabeça e os membros, intensifica-se ainda pelo exercício da fé e da caridade, pelos vínculos da autoridade e do serviço mútuo na Igreja, pelo trabalho e pelo sofrimento, aceitos com resignação; resumindo: por qualquer ato de vida verdadeiramente cristã. Tudo isto, porém, será mais eficaz, se a alma atuar decididamente sob a proteção de Maria Santíssima.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 52]

 

Maria, pelo seu privilégio de Mãe da Cabeça e dos membros, passa a ser um eminente laço de união do Corpo Místico. Se é certo que “somos membros do Seu Corpo, formados da Sua carne e dos Seus ossos”, somos também, com igual verdade e plenitude, filhos de Maria, Sua Mãe. A Santíssima Virgem foi criada para conceber e dar à luz o Cristo total, quer dizer, o Corpo Místico com todos os seus membros, perfeitos e ligados entre si (Ef 4, 15-16), e unidos com a Cabeça, Jesus Cristo; e ela cumpriu seu destino, em colaboração e mediante o poder do Espírito Santo, que é a vida e a alma do Corpo Místico. No seio maternal de Maria, e dócil aos seus cuidados, a alma irá crescendo em Cristo, até chegar à idade perfeita (Ef 4, 13-15).

 

“Maria desempenha um papel único e sem igual na economia divina. Ela preenche, entre os membros do Corpo Místico, um lugar à parte – o primeiro depois da Cabeça. Neste organismo divino do Cristo Total, a sua função está intimamente ligada à vida de todo o Corpo. É o Coração... Servindo-nos de uma imagem mais popular, ela assemelha-se, por motivo da sua função – é o que diz S. Bernardo – ao pescoço, que liga a cabeça aos membros do Corpo. A figura suficientemente clara demonstra o porquê da mediação universal de Maria, entre Cristo – a Cabeça Mística – e os Seus membros. No entanto, a comparação do pescoço é menos vigorosa que a do coração, para significar a enorme importância da influência de Maria e do seu poder, o maior depois de Deus, nas operações da vida sobrenatural; e isto, porque o pescoço não passa de simples ligação, nada fazendo para iniciar ou influenciar a vida. O coração, pelo contrário, é um centro de vida, o primeiro a receber os tesouros que imediatamente distribui a todo o organismo” (Mura: O Corpo Místico de Cristo).

 

2. Maria e o Corpo Místico

 

Os cuidados postos por Maria na alimentação, no cuidado e no carinho do Corpo físico do seu Divino Filho, continuam a ser dispensados agora, em favor de todos e de cada um dos membros do Corpo Místico, dos mais humildes aos mais nobres. E assim é que, “agindo os membros com mútua solicitude” (1Cor 12, 25), jamais o fazem independentemente de Maria, mesmo quando deixem, por descuido ou ignorância, de reconhecer a sua presença. Nada mais fazem do que unir os seus esforços aos esforços de Maria. É uma


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 53]

 

obra que lhe pertence e à qual se tem entregado por completo desde a Anunciação até hoje. Considera-se, assim, que não são propriamente os legionários que se valem do auxílio da sua Rainha para melhor servir os restantes membros do Corpo Místico, mas é ela que se digna utilizá-los. E, por tratar-se de uma obra que pertence a Maria, ninguém pode cooperar nela, sem que a Senhora benevolente, se digne permiti-lo. Tal fato, conseqüência lógica da doutrina do Corpo Místico, deve ser meditado por todos os que se dedicam ao serviço do próximo, mas não reconhecem o lugar e os privilégios de Maria. Constitui, além disso, uma boa lição para os que confessam acreditar nas Escrituras, mas desconhecem e menosprezam a Mãe de Deus. Cristo – fiquem todos sabendo – amou Sua Mãe, sujeitando-se a ela (Lc 2, 51); e o seu exemplo obriga todos os membros do Seu Corpo Místico a fazerem o mesmo: “Honrarás... tua Mãe” (Ex 20, 12). Por mandamento divino, cabe a nós amá-la filialmente. Todas as gerações hão de bendizer tão boa Mãe (Lc 1, 48).

 

Portanto, assim como ninguém poderá pensar em colocar-se a serviço do próximo a não ser com Maria, assim também não poderá realizar dignamente tal missão, se não tiver , ainda que imperfeitamente, as mesmas intenções de Maria. Quanto maior for a nossa união com ela, tanto mais perfeitamente cumpriremos o divino preceito de amar a Deus e de servir o próximo (1Jo 4,19-21).

 

A função própria dos legionários dentro do Corpo Místico é guiar, consolar e esclarecer os outros. Tal missão, note-se, só será devidamente cumprida, quando os legionários se compenetrarem por completo, da doutrina do Corpo Místico e da identificação deste com a Igreja. A posição e os privilégios da Igreja, a sua unidade, a sua autoridade, o seu desenvolvimento, padecimentos, milagres, triunfos, o seu poder de conferir a graça e o perdão dos pecados: tudo isto não será apreciado no seu justo valor, se não se compreender que Cristo vive na Igreja e que é por intermédio dela, que continua a Sua missão na terra. A Igreja reproduz verdadeiramente a vida de Cristo.

 

Cada membro da Igreja é intimado por Cristo, sua Cabeça, a desempenhar determinada missão dentro do Corpo Místico.

 

“Jesus Cristo” – lemos na Constituição Lumen Gentium – “comunicando o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos, chamados de entre todos os povos, o Seu Corpo Místico. Nesse corpo a vida de Cristo difunde-se naqueles que nEle crêem...” Como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam, um só corpo, assim também os fiéis em Cristo”


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 54]

 

(Cf. 1Cor 12, 12). “Na organização do Corpo Místico de Cristo existe igualmente diversidade de membros e funções. É um único Espírito que distribui os seus vários dons para bem da Igreja, na medida das riquezas e exigências dos serviços” (Chl 20).

 

Para saber a forma de serviço que deve caracterizar os legionários na vida do Corpo Místico, fixemos os olhos em Maria. Ela foi-nos apresentada como o coração do Corpo Místico. A sua função, como a do coração humano, é fazer circular o sangue de Cristo, levando às diversas partes do corpo, a vida e o crescimento. Acima de tudo, é um trabalho de amor. Por conseguinte, os legionários, ao exercerem o seu apostolado em união com Maria, são chamados a fazer uma só coisa com Ela, no Seu papel vital de coração do Corpo Místico.

 

“Não pode dizer a vista à mão: não preciso da tua ajuda; nem a cabeça aos pés: não me sois necessários” (1Cor 12, 21). Tais palavras revelam ao legionário, a importância da sua cooperação na obra do apostolado. E isto, não devido apenas à sua união com Cristo, com o qual forma um só Corpo e de quem depende, mas ainda porque o próprio Cristo, que é a cabeça, depende verdadeiramente do legionário a quem bem poderia se dirigir nestes termos: “Eu necessito da tua ajuda na Minha obra de santificar e salvar as almas”. São Paulo destaca, a propósito, a dependência em que se encontra a cabeça em relação ao corpo, quando fala de completar em sua carne, o que falta à Paixão de Cristo (Cl 1, 24). A frase, estranha, não significa de modo algum que a obra de Cristo ficasse imperfeita; ela salienta apenas a idéia de que, cada membro do Corpo Místico tem de contribuir, na medida do possível, para a própria salvação e para a salvação dos restantes membros (Fl 2, 12)

 

Essa doutrina instrui o legionário sobre a sublime vocação, a que foi chamado, como membro do Corpo Místico: a de completar o que falta à missão de Nosso Senhor. Maravilhoso pensamento este: Jesus Cristo necessita de mim para levar a luz e a esperança aos que vivem nas trevas, o consolo aos aflitos, a vida aos mortos no pecado. Inútil seria acrescentar, conseqüentemente, que o legionário tem de agir dentro do Corpo Místico, copiando de modo singular o amor e a obediência incomparáveis que Cristo, a Cabeça, dedicou à Sua Mãe; amor que o Seu Corpo Místico tem de reproduzir. 

 

“Assim como São Paulo nos assegura completar em seu próprio corpo a medida dos sofrimentos de Cristo, assim podemos afirmar que um verdadeiro cristão, membro de Jesus e a Ele unido pela grã-


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 55]

 

ça, continua e vai até o fim, através do seu trabalho comprometido com o espírito de Jesus, as ações do próprio Salvador, durante a Sua vida mortal. E isto de tal forma que, quando um cristão reza, dá continuidade à oração iniciada por Jesus sobre a terra; quando trabalha, completa o que faltou à vida apostólica de Jesus. Temos de ser assim outros tantos Cristos sobre a terra, continuando-O na Sua Vida e nas suas ações, agindo e sofrendo tudo, no espírito de Jesus, isto é, com santas e divinas disposições” (São João Eudes: O Reino de Jesus).

 

3. O sofrimento no Corpo Místico

 

A missão dos legionários coloca-os em íntimo contato com todos os homens, especialmente com os que sofrem. Necessário é, pois, que conheçam a fundo aquilo que o mundo é inclinado a chamar, o problema do sofrimento. Ninguém pode fugir nesta vida à sua Cruz. A maior parte revolta-se contra ela, procurando desviá-la dos seus ombros, e, porque isso é impossível, ficam esmagados sob o seu peso. Inutilizam assim os planos da Redenção, que exigem o complemento da dor para que a vida resulte frutuosa, do mesmo modo que, qualquer tecido exige o cruzamento de fios para se obter o tecido. A dor só aparentemente contraria e impossibilita a vida do homem. Na realidade, ela a favorece e a aperfeiçoa. Assim o ensina a Sagrada Escritura, em cada uma das suas páginas, quando proclama a necessidade “não só de crer em Cristo, mas também a de sofrer por Ele” (Fl 1, 29); e ainda: “Se morrermos com ele, com Ele viveremos; se com Ele padecermos, com Ele reinaremos” (2Tm 2, 11-12).

 

A nossa morte em Cristo, de que fala o Apóstolo, está representada por uma cruz salpicada de Sangue – aquela em que Cristo, nossa Cabeça, acaba de consumar a Sua obra. Ao pé da Cruz e imersa em tal desolação que parecia impossível continuar a viver, estava a Mãe do Redentor e dos remidos, aquela de cujas veias tinha vindo o sangue que tão abundantemente molhava a terra, para resgate da humanidade. Este Sangue Precioso é o mesmo que é destinado a circular pelo Corpo Místico, conduzindo a vida até as mais pequenas células; levando à alma a perfeita imagem de Cristo, de um Cristo completo; não apenas do de Belém e do Tabor, feliz e refulgente de glória, mas também do Cristo doloroso, do Cristo vítima, do Cristo do Calvário. Para que os maravilhosos frutos desta torrente redentora possam ser aplicados às almas devemos conhecê-los.


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo      página 56]

 

Saibam todos os cristãos que não podem selecionar em Cristo o que agrada e rejeitar o restante. Saibam-no tão bem como o soube Maria nas alegrias da Anunciação. Ela já então sabia que não era convidada a ser somente mãe venturosa, mas também mãe dolorosa; tendo-se entregado a Deus sem a menor reserva desde sempre, aceita o Cristo completo. Ao acolher o Menino no seu seio,  ela tinha perfeito conhecimento de tudo quanto estava contido no mistério; estava disposta tanto a esgotar com o seu Filho o cálice da amargura, como a compartilhar com Ele, as Suas glórias. Nesse momento, se uniram aqueles dois Corações Sacratíssimos tão estreitamente, que chegaram quase a identificar-se. Foi, então, que começaram a pulsar em conjunto dentro do Corpo Místico e em seu benefício; e, Maria se tornou a Medianeira de todas as Graças, o Vaso Espiritual que recebe e espalha o Precioso Sangue do Senhor. Ora, o que aconteceu à Mãe, acontecerá com aos filhos. O homem será tanto mais útil a Deus, quanto mais íntima for a sua união com o Sagrado Coração, a fonte, onde ele irá beber o Sangue Redentor, para o derramar com grande fartura sobre as almas. É necessário porém, que esta união com o Sangue e o Coração de Cristo, abranja totalmente a vida de Jesus; não basta que se aproprie de uma ou de outra fase. Seria tão leviano como indigno receber de braços abertos o Rei da Glória e rejeitar o Homem das Dores, porque Um e Outro são o mesmo Cristo. Aquele que não acompanhar o Cristo sofredor, não tomará parte na Sua missão junto das almas nem participará da Sua glória.

 

Conclui-se, portanto, que sofrer é sempre uma graça: graça que, quando não cura, fortifica. Nunca podemos conceber o sofrimento como castigo do pecado. “Fica sabendo” diz S. Agostinho, “que as aflições do gênero humano não são uma lei penal, pois o sofrimento tem caráter terapêutico”. Por outro lado, a Paixão do Senhor transborda, por privilégio todo especial, sobre os santos e os justos, a fim de os tornar mais semelhantes ao Redentor. Este intercâmbio e esta fusão de sofrimentos é a base de toda a mortificação e reparação.

 

Uma simples comparação com a circulação do sangue no corpo humano dá a idéia perfeita da função e da finalidade do sofrimento. Tomemos para exemplo a mão. A pulsação que ali se nota corresponde ao bater do coração – fonte do sangue quente que nela circula. É que a mão está unida ao corpo de que faz parte. Se a circulação diminui, as veias se encolhem e o sangue encontra maior dificuldade em correr; e essa dificuldade aumenta à medida que o frio se torna mais intenso. Se o frio for de tal


[Capítulo 9      O Legionário e o Corpo Místico de Cristo     página 57]

 

intensidade que faça cessar a pulsação, a mão gelará e os seus tecidos morrerão. Ficará caída, sem sangue e não tardará a surgir a gangrena, caso esta situação se prolongue.

 

Estes diversos graus de frio ajudam-nos a compreender melhor as possíveis situações espirituais do Corpo Místico. Em alguns a capacidade de receber o Precioso Sangue é tão limitada, que correm perigo de morte, como membros gangrenados que têm de ser amputados. O remédio para um membro gelado é evidente: provocar de novo a circulação para que recupere a vida. Introduzir o sangue à força, nas veias e artérias constitui, sem dúvida processo doloroso, mas a dor é anúncio de futura alegria. Acontece que a maioria dos católicos praticantes não são de fato membros gelados; contentes consigo, dificilmente se considerarão até membros frios. No entanto, o Precioso Sangue não circula neles no grau desejado pelo Senhor, o que o obriga a introduzir neles à força, a Sua vida.

 

O Sangue Divino, circulando e dilatando as veias endurecidas, causa dores ao paciente: são os sofrimentos da vida. Estas dores, porém, bem compreendidas, não deveriam constituir uma fonte de alegria? A consciência da dor converte-se, então, na consciência da presença real e íntima de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

“Jesus Cristo sofreu tudo quanto tinha de sofrer, nada faltou para fazer transbordar a medida dos Seus padecimentos. No entanto, a Sua Paixão não terminou ainda... Terminou, sim, no que ser refere à Cabeça, mas continua nos membros do Seu Corpo. Com muita razão, pois, Nosso Senhor, que ainda sofre no Seu Corpo, deseja ver-nos tomar parte no seu sacrifício redentor. Exige-o a nossa união com Ele: porque, se somos o Corpo de Cristo e membros uns dos outros, tudo quanto sofra a Cabeça, os membros também deveriam sofrer em solidariedade com ela” (Santo Agostinho).

 

10

 

APOSTOLADO DA LEGIÃO

 

1. Dignidade do Apostolado

 

Para descrever a dignidade do apostolado, para o qual a Legião convida os seus membros, e demonstrar a sua importância para a Igreja, não podemos encontrar palavras mais expressivas do que a seguinte declaração:


[Capítulo 10     Apostolado da Legião    página 58]

 

“O dever e o direito dos leigos ao apostolado, se originam da sua mesma união com Cristo Cabeça. Com efeito, pertencendo pelo Batismo ao Corpo Místico de Cristo e robustecidos pela Confirmação com a força do Espírito Santo, é pelo Senhor mesmo que são destinados ao apostolado. São sagrados em ordem a um sacerdócio real e a um povo santo (cf. 1 Pd 2, 4-10) para que todas as suas atividades seja oblações espirituais e por toda a terra dêem testemunho de Cristo. E os Sacramentos, sobretudo a Sagrada Eucaristia, comuniquem e alimentem neles, aquele amor que é a alma de todo o apostolado” (AA 3).

 

Pio XII dizia: “Os fiéis, e mais propriamente os leigos, encontram-se na linha mais avançada da vida da Igreja; para eles, a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, eles devem ter consciência, cada vez mais clara, não só de pertencerem à Igreja, mas de serem a Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis sobre a terra, sob a orientação do chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja” (ChL 9).

 

“Maria exerce sobre o gênero humano uma influência moral que não podemos definir melhor, senão comparando-a às forças físicas de atração, afinidade e coesão, que na Natureza unem entre si, os corpos e as partes componentes... Parece-nos ter demonstrado que Maria tomou parte em todos os grandes movimentos, que constituem a vida das sociedades e a sua verdadeira civilização” (Petitalot).

 

2. Absoluta necessidade do Apostolado dos Leigos

 

Não temos dúvida em afirmar que a saúde moral de uma comunidade católica depende da presença no seu seio de um grupo numeroso de apóstolos que, embora formado por leigos, partilha do espírito do sacerdote, assegurando-lhe estreito contato com o povo e constante controle da realidade. A segurança resulta desta perfeita união entre o sacerdote e o povo.

 

Ora, o apostolado exige ardoroso interesse pela prosperidade da Igreja e pela sua obra, interesse que dificilmente existirá sem o desejo de trabalhar pessoalmente, na extensão do Reino de Deus. A organização apostólica torna-se assim o molde de verdadeiros apóstolos.

 

Onde estas qualidades de apostolado não forem cuidadosamente cultivadas, a nova geração terá de enfrentar inevitável-


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 59]

 

mente um sério problema: a falta de sincero interesse pela Igreja e a ausência de sentido de responsabilidade. Deste Catolicismo infantil, o que se poderá esperar? Só está seguro, em tempo de tranqüilidade. A experiência ensina-nos que, ao menor sinal de perigo, o rebanho sem energia se deixa dominar pelo desespero, pisoteando, na fuga, até o próprio pastor, ou é devorado pela primeira alcatéia de lobos que aparece. “Em todos os tempos” – diz um princípio formulado pelo Cardeal Newman – “os leigos têm sido a justa medida do espírito católico”.

 

“Fomentar entre os leigos o sentido de uma vocação própria – eis o importantíssimo papel da Legião de Maria. Nós, os leigos, corremos o risco de identificar a Igreja com o clero e os religiosos, a quem Deus concedeu o que chamamos, em sentido demasiadamente exclusivo, uma vocação. Somos tentados, inconscientemente a olhar-nos como multidão anônima, salvando-nos por grande sorte, se cumprirmos o mínimo exigido. Esquecemo-nos de que o Senhor chama as suas ovelhas pelo nome (Jo 10, 3) e que – usando as palavras de S. Paulo (Gl 2, 20), que como nós não esteve fisicamente presente no Calvário: – “O Filho de Deus amou-me e se entregou a Si mesmo por mim”. Cada um de nós, seja ele carpinteiro de aldeia como o próprio Jesus ou uma humilde dona de casa, como a Virgem Maria, tem uma vocação; é chamado individualmente por Deus a amá-lO e a servi-lO, a fazer um trabalho particular que outros poderão talvez, realizar melhor, mas nunca substituir. Só eu e mais ninguém posso dar o meu coração a Deus ou executar o meu trabalho. Ora, a Legião de Maria cultiva exatamente este sentido pessoal da religião. O legionário não se contenta com uma atitude passiva ou irresponsável: homem ou mulher, tem de ser e de fazer alguma coisa por Deus. A religião não é coisa de menor importância, mas a inspiração da vida inteira, por mais simples que ela seja aos olhos humanos. A convicção de uma vocação pessoal cria, inevitavelmente, o espírito apostólico, o desejo de prosseguir a obra de Cristo, de ser outro Cristo, de servi-lO no mais pequenino de seus irmãos. A Legião é assim o substituto leigo de uma ordem religiosa, a tradução da idéia cristã de perfeição, na vida dos leigos; a expansão do Reino de Cristo no mundo do dia-a-dia” (Alfredo O’Rahilly).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 60]

 

3. A Legião e o Apostolado dos Leigos

 

Como tantos outros grandes princípios, o apostolado é em si mesmo uma teoria fria e abstrata. Daí o perigo real de não exercer atração sobre as pessoas, de tal maneira que poderão não corresponder ao elevado destino que lhes foi imposto ou, pior ainda, poderão ser julgados incapazes de lhe corresponder. O resultado desastroso seria o abandono do esforço exercido, para levar os leigos a desempenharem, na batalha da Igreja, a sua parte própria e indispensável.

 

Ora, – diz um qualificado juiz, o Cardeal Riberi, então Delegado Apostólico nas Missões da África e depois Internúncio na China: “A Legião de Maria é o apostolado apresentado de forma atraente e fascinante; tão palpitante de vida que a todos encanta; realizado conforme o desejo de Pio XI, isto é, em inteira dependência da Virgem Mãe de Deus; exigindo a qualidade como elemento básico para o recrutamento; protegido pela oração assídua, pelo sacrifício de si próprio, por uma organização perfeita e por uma estreita cooperação com o sacerdote. A Legião de Maria é um milagre dos tempos modernos”.

 

A Legião respeita o sacerdote e obedece-lhe com acatamento que deve aos legítimos superiores. Mais ainda: o seu apostolado baseia-se no fato de que os principais canais da graça são a missa e os sacramentos, de que o sacerdote é o ministro oficial. Todos os esforços e trabalhos deste apostolado devem dirigir-se para este elevado fim: levar o alimento divino à multidão doente e esfomeada. Isso significa que um dos objetivos principais da ação legionária é conduzir o sacerdote ao meio do povo, se não em pessoa, o que às vezes é impossível, ao menos tornando compreensível a sua função e valorizando a sua influência.

 

Esta é a idéia essencial do apostolado da Legião. Apesar de leiga na massa dos seus membros, trabalhará em união com o sacerdote, sob a sua direção e em plena identificação de interesses. Procurará ardentemente apoiar os seus esforços e conseguir-lhe um lugar mais vasto na vida dos homens, de sorte que, recebendo-o, recebam Aquele que o enviou.

 

“Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que Eu enviar recebe-Me a Mim, e o que Me recebe, recebe Aquele que Me enviou” (Jo 13, 20).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 61]

 

4. O Sacerdote e a Legião

 

A idéia do sacerdote, assistido por um grupo dedicado de apóstolos que participa dos seus trabalhos, tem a mais santa das aprovações: o exemplo do próprio Jesus Cristo que, preparando-se para converter o mundo, rodeou-se de homens escolhidos aos quais instruiu e encheu do Seu espírito.

 

Esta divina lição aprenderam-na e aplicaram-na os Apóstolos, chamando em seu auxílio todos os fiéis para os ajudarem na conquista dos seres humanos. Como muito bem disse o Cardeal Pizzardo, é possível que os estrangeiros vindos de Roma (At 2, 10) que ouviram a pregação dos Apóstolos no dia de Pentecostes, fossem os primeiros a anunciar Jesus Cristo naquela cidade, lançando assim as sementes da Igreja-Mãe, que São Pedro e São Paulo haviam de fundar oficialmente. “Que teriam feito os Doze, perdidos na imensidão do mundo, se não estivessem rodeado de colaboradores – homens e mulheres, velhos e novos – dizendo-lhes: Trazemos conosco o tesouro do Céu, ajudai-nos a reparti-lo” (Pio XI).

 

A estas palavras de um grande Pontífice podem ajuntar-se as de um outro, como demonstração de que o exemplo de Nosso Senhor e seus Apóstolos, na conversão do mundo foi dado por Deus como modelo a seguir por cada sacerdote (um outro Cristo) no seu pequenino mundo, paróquia, bairro ou obra especial.

 

Falando um dia o Papa S. Pio X com um grupo de cardeais, dizia-lhes: “Que coisa é mais necessária nos tempos presentes para a salvação da sociedade?” – “Levantar escolas católicas”, respondeu um. – “Não”, retorquiu o Papa. – “Multiplicar as igrejas”, tornou outro. – “Também não”. – “Intensificar o recrutamento sacerdotal”, sugeriu um terceiro. – “Não, não”, replicou o Papa: “O que há de mais necessário é a existência em cada paróquia de um grupo de leigos que sejam ao mesmo tempo virtuosos, instruídos, resolutos e verdadeiramente apostólicos”.

 

No fim da vida, este santo Pontífice contava, para a salvação do mundo, com grupos de católicos convenientemente treinados por um clero zeloso, que se entregaram ao apostolado pela palavra e pela ação, mas sobretudo, pelo exemplo. Nas dioceses em que exerceu o sagrado ministério antes de ser Papa, dava menos importância ao recenseamento dos paroquianos do que à relação dos católicos, capazes de irradiar a sua fé, dedicando-se ao apostolado. Era de opinião que em todas as classes, podia haver um grupo de especial destaque. Por isso, ele classificava os sacerdotes de acordo com os resultados obtidos nesta matéria,


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 62]

 

pelo seu zelo e pelos seus talentos (Chautard: A alma de todo o apostolado, 4).

 

“A missão de pastor não se limita ao cuidado singular dos fiéis, mas estende-se também propriamente à formação da verdadeira comunidade cristã. Para que seja cultivado devidamente o espírito de comunidade, deverá abraçar não só a Igreja local, mas também a Igreja inteira. A comunidade local, porém, não deve se preocupar somente com o cuidado pelos seus fiéis, mas também, cheia de ardor missionário, deve preparar, para todos, o caminho para Cristo. Considere, todavia, como recomendados de modo especial, os que estão se preparando para o Batismo e os recém-batizados, que devem ser educados gradualmente, no conhecimento e na vivência da vida cristã” (PO 6).

 

“Deus feito homem achou necessário deixar o Seu Corpo Místico na terra. Se não o tivesse feito, a Sua obra teria terminado no Calvário. A Sua morte teria merecido a salvação para o gênero humano, mas como é que tantos homens teriam ganho o Céu sem a Igreja para lhes comunicar a vida da cruz? Cristo identifica-se, de modo especial, com o sacerdote. O sacerdote é como um coração a mais, que abre caminho para os corações, ao sangue da vida sobrenatural. É uma parte essencial do sistema de transmissão espiritual no Corpo Místico de Cristo. Se ele falha, o sistema é bloqueado, e aqueles que dele dependem não recebem a vida que nos planos de Cristo deveriam receber. O sacerdote, dentro dos devidos limites, deveria ser para o seu povo o que Cristo é para a Igreja. Os membros de Cristo são um prolongamento d’Ele mesmo e não simplesmente empregados, agregados, partidários. Os membros de Cristo possuem a vida de Cristo. Partilham da atividade de Cristo. Deveriam ter a maneira de ver de Cristo. Os sacerdotes, por sua vez, deveriam ser uma só coisa com Cristo, sob todos os aspectos possíveis. Se Cristo achou necessário formar um Corpo espiritual para si, o sacerdote deveria fazer o mesmo. Deveria formar, para si, membros que fossem uma só coisa com ele. Se um sacerdote não tiver membros vivos, formados por ele, unidos a ele, o seu trabalho se reduzirá a dimensões insignificantes. Ficará só e desamparado. “O olho não pode dizer à mão: não necessito do teu serviço; nem a cabeça pode dizer aos pés: vós não me sois necessários” (1Cor 12, 21).

 

De sorte que, se Cristo fez do Seu Corpo Místico o princípio do Seu caminho, da Sua verdade, da Sua vida para os homens, isto tudo vai agir, exatamente, através do novo Cristo, o sacerdote. Se ele não exerce a sua função de modo que ela seja verdadeiramente a


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 63]

 

perfeita construção do Corpo Místico, a que se refere a Carta aos Efésios (4, 12 – texto habitualmente traduzido por “edificação dos fiéis”), a vida divina só em pequena quantidade penetrará nos corações e neles frutificará. Além disso, o sacerdote ficará empobrecido, porque, embora a missão da cabeça seja ministrar a vida ao corpo, não é menos verdade que a cabeça vive pela vida do corpo, crescendo com o seu crescimento, partilhando da sua fraqueza se ele perde as forças.

 

O sacerdote que não compreende esta lei da missão sacerdotal, avançará pela vida afora, realizando apenas uma pequena parte das suas possibilidades, quando o seu verdadeiro destino em Cristo é abraçar os horizontes” (Padre F.J. Ripley).

 

5. A Legião na Paróquia

 

“Nas atuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão com a Igreja no seio das suas paróquias e para o despertar do impulso missionário com relação aos que em nada acreditam e também com relação àqueles que por ventura abandonaram ou diminuíram a prática da vida cristã” (ChL 27). Logo se perceberá que, com a fundação da Legião de Maria se desenvolverá enormemente um verdadeiro espírito de comunidade. Através da Legião, os leigos acostumam-se a trabalhar na paróquia em íntima união com os sacerdotes e a participarem das responsabilidades pastorais. A regulamentação das várias atividades paroquiais, mediante uma reunião regular semanal, traz vantagens evidentes. Todavia uma consideração mais elevada se impõe: as pessoas envolvidas nas atividades paroquiais, pertencendo à Legião, receberão uma formação espiritual que as ajudará a compreender que a paróquia é uma comunidade Eucarística e que por meio de um sistema bem organizado, se tornarão capazes de atingir cada um dos paroquianos, com o objetivo de elevar a comunidade. Alguns dos trabalhos em que a Legião pode se empenhar na paróquia, são apresentados no capítulo 37: Sugestões de Trabalhos.

 

“O apostolado dos leigos deve ser considerado pelos sacerdotes como parte integrante do seu ministério, e pelos fiéis, como uma exigência da vida cristã” (Pio XI).


[Capítulo 10      Apostolado da Legião      página 64]

 

6. Um idealismo forte e uma ação intensa, frutos da Legião

 

Se a Igreja se prendesse a uma rotina demasiadamente cautelosa, colocaria a Verdade de que é guarda, em situação desfavorável. A natureza generosa necessita de um ideal de ação; e se a juventude se acostumar a procurá-lo nas organizações ou sistemas não religiosos, isso constituirá uma desgraça terrível, cujas conseqüências atingirão as gerações futuras.

 

A Legião pode remediar este mal, realizando os seu programa de iniciativa, de esforços e de sacrifícios, ajudando a Igreja a apropriar-se destas duas palavras que dão vida: “Idealismo” e “Ação”, de modo a torná-las preciosas auxiliares da sua doutrina.

 

No dizer do historiador Lecky, o mundo é governado pelos ideais. Sendo assim, aqueles que criam um ideal mais alto, arrastam por ele, o gênero humano. Trata-se, é evidente, de um ideal prático e suficientemente claro, que possa ser atingido por todos. Admitamos que os ideais apresentados pela Legião correspondam a estas duas exigências.

 

Uma das mais importantes características da Legião será o desabrochar de numerosas vocações religiosas entre os legionários e os seus filhos.

 

Alguém poderá apresentar a objeção de que ninguém quererá assumir, no egoísmo universal em que vivemos, o “pesado” compromisso de membro da Legião. É um erro. A multidão daqueles que preferem uma vida vulgar passa sem deixar rastro. Pelo contrário, os poucos que correspondem, enérgicos, ao esforço exigido por um ideal mais elevado, permanecerão, transmitindo lentamente o seu ardor a outros.

 

Um Praesidium da Legião pode constituir um meio poderoso para ajudar o sacerdote no recrutamento cada vez maior de leigos que colaborem na evangelização dos que estão confiados aos seus cuidados. Deste modo, uma hora e meia, despendida por semana, a guiar os membros de um Praesidium, a encorajá-los, a sobrenaturalizá-los, vai lhe permitir estar em toda a parte, ouvir tudo, exercer influência em cada um, ultrapassando as possibilidades das suas forças físicas. Com efeito, a direção de vários Praesidia parece constituir uma das melhores aplicações do zelo de um pastor do rebanho.

 

O sacerdote, armado assim com os seus legionários, – armas humildes, como o bastão e a bolsa, a atiradeira e as pedras, mas tornados por Maria, instrumentos do Céu – pode avançar,


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como outro David, com a certeza antecipada da vitória, contra os mais provocadores Golias da descrença e do pecado.

 

“É a força moral e não a material que manterá o seu apostolado e assegurará o seu triunfo. Não são os gigantes os que mais fazem. Como era pequenina a Terra Santa! Todavia conquistou o mundo. E que insignificante não era a Ática! Não obstante formou o espírito humano. Um só era Moisés; um só, Elias; um só, David; um só, Paulo; um só, Atanásio; um só, Leão! A graça atua sempre por intermédio de poucos. Os instrumentos do Céu são: visão penetrante, convicção firme, resolução que não se deixa dominar; o sangue do mártir; a prece do santo, a ação heróica, a crise momentânea, a energia concentrada numa palavra ou num olhar. Não tenham medo, pequeno rebanho, porque é onipotente Aquele que está no meio de vocês e por vocês realizará prodígios” (Newman: A posição atual dos católicos).

 

7. Formação apostólica pelo método mestre e aprendiz

 

A formação de apóstolos é para a maior parte das pessoas um problema de fácil solução, mediante uma série de conferências e o estudo de livros de texto. A Legião julga, pelo contrário, que não pode haver formação efetiva sem trabalho correspondente que a acompanhe. A palestra sobre o apostolado, sem a realização de um trabalho real, levaria, talvez, a resultados apostos. Notemos que, ao expor o processo de concluir o trabalho, torna-se necessário descrever as suas dificuldades e apresentar motivos ou normas superiores para a sua perfeita realização. Falar desta maneira aos candidatos sem lhes mostrar ao mesmo tempo, de modo concreto, que o trabalho é fácil e está ao alcance das próprias forças, serviria apenas para intimidar e afastar. O sistema de conferência produz o teórico e também os homens que pensam converter o mundo com a atividade da inteligência. Tais pessoas perderiam o desejo de se consagrar aos serviços humildes e ao prosseguimento dedicado dos contatos individuais dos quais tudo depende, e que o verdadeiro legionário, diga-se de passagem, abraça prontamente.

 

A formação, no entender da Legião, deverá ser feita conforme o método mestre e aprendiz. É este o processo ideal de formação usado em todas as profissões e artes, sem exceção. Em vez de longas conferências, o mestre coloca a obra dian-


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te do aprendiz e, por demonstração prática, indica-lhe como se faz, explicando cada ponto à medida que o trabalho prossegue. Depois, sob o olhar do mestre que lhe corrige os desacertos, o aprendiz tenta por si mesmo, o trabalho. De tal método de formação surge o homem competente, o profissional. As palestras hão de basear-se, por conseqüência, no próprio trabalho, e cada uma das palavras se referirá a uma ação concreta, senão pouco fruto se há de colher. É estranho, mas há pouco aproveitamento de conferências, mesmo por parte de estudantes, regularmente aplicados!

 

Acrescente-se que, propor a pessoas desejosas de se iniciar numa organização apostólica, o sistema de conferências, seria afastar inúmeros candidatos. Poucos estariam dispostos a sujeitar-se a semelhante prova. A maior parte, ao deixar os bancos escolares, prometeu a si mesma, não voltar. Gente simples do povo fica apavorada diante da idéia de ter que voltar às aulas, mesmo “santas”. Daqui, a fraca atração exercida sobre as almas pelos métodos de estudo da estratégia apostólica. O processo legionário é mais simples e psicológico. “Venham conosco e trabalharemos juntos” – dizem os legionários. Convidam-nos não para uma aula, mas para o trabalho que eles mesmos estão fazendo. Certos de que a tarefa não excederá as suas energias, os novos operários alistam-se com entusiasmo na organização, tornando-se em breve apóstolos competentíssimos. Além de verem como os outros membros trabalham, os candidatos tomam parte nas atividades comum, e aprendem pelos relatórios e respectivos comentários, o melhor meio de os levar a bom fim.

 

“A Legião é muitas vezes criticada por falta de membros especializados ou por não insistir a que se dediquem a longos períodos de estudo. Digamos pois a este respeito: a) A Legião utiliza sistematicamente a contribuição dos seus membros mais bem qualificados. b) Evitando, embora, dar extrema importância ao estudo, esforça-se por preparar cada um dos seus membros, por métodos apropriados, para o seu apostolado particular. c) O objetivo dominante, porém, é apresentar uma estrutura com a qual a Legião possa dizer ao católico comum: ‘Venha, traga seu pouco talento e nós lhe ensinaremos a desenvolvê-lo e a usá-lo, por intermédio de Maria, para glória de Deus’. Não devemos esquecer que a Legião existe tanto para os humildes e desvalidos, como para os sábios e poderosos” (Padre Tomás O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).


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O PLANO DA LEGIÃO

           

1. A santificação pessoal: fim e meio

 

O meio comum e essencial de que a Legião de Maria se serve para atingir o seu fim, consiste na execução de um serviço pessoal sob o impulso do Espírito Santo, isto é, tendo como princípio motor e apoio, a graça divina e como último objetivo, a glória de Deus e a salvação das almas.

 

A santificação pessoal é assim não só o fim da Legião de Maria, mas, também o seu principal meio de ação: “Eu sou a videira, vós os ramos. O que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer”  (Jo 15, 5).

 

“A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério, o sagrado Concílio expõe, é infalivelmente Santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai “o único santo”, amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Ef 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia ou quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: “esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, dando bom exemplo ao próximo; aparece de um modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçados sob o impulso do Espírito Santo por muitos cristãos, quer particularmente, quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo, admirável testemunho e exemplo desta santidade” (LG 39).

 

2. Um sistema perfeitamente organizado

 

As grandes fontes de energia natural, se não forem canalizadas, perdem-se. De modo semelhante, o zelo sem método e o entusiasmo sem direção nunca produzem grandes resultados, quer interiores quer exteriores, e mesmo assim, a maior parte das vezes, são de pouca duração. Consciente disso, a Legião apresenta aos seus membros mais um modo de vida do que uma simples tarefa a realizar. Baseia-se, para tal, num sistema perfeitamente


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organizado, no qual, tem força de regra aquilo que em outras organizações é apenas aconselhado ou simplesmente sugerido, impondo, mesmo no que se refere a cada pormenor, a mais exata observância. Promete, como prêmio, a perseverança e um visível progresso nas virtudes da perfeição cristã, especialmente a fé, o amor a Maria, a intrepidez, a imolação de si próprio, a fraternidade, o espírito de oração, a prudência, a paciência, a obediência, a humildade, a alegria e o espírito apostólico.

 

“O desenvolvimento do que comumente chamamos apostolado dos leigos é uma das manifestações especiais do nosso tempo, tendo por si, se atendermos unicamente ao número dos que a ele se podem dedicar, possibilidades ilimitadas de expansão. Apesar disso, como nos parecem insuficientes as disposições tomadas para a manutenção e progresso deste movimento colossal! Quando se compara o grande número de congregações religiosas tão admiravelmente concebidas para atender às necessidades daqueles que abandonam o mundo, com a maneira pela qual estão organizados os que no mundo permanecem, – que contraste impressionante! De um lado, que escrupuloso cuidado e que sábia precisão – para fazer render ao máximo a atuação de cada um! Do outro, como são elementares e superficiais as disposições empregadas! A organização exige dos seus membros, inegavelmente, a realização de uma tarefa; mas esta, para a maior parte deles, não passa, na roda da semana, de simples distração, que dificilmente chegará a representar algo mais importante. Devemos ter, quanto a este serviço, o mais elevado conceito. Não deveria ele constituir, para cada um dos membros, a base de toda a sua vida espiritual, e ainda ser o seu bordão de peregrino na caminhada para o céu?”

 

Sem dúvida, as congregações religiosas devem servir de modelo aos leigos que trabalham em comum. Não é ousado afirmar que, em igualdade de circunstâncias, a qualidade de trabalho realizado aumentará na medida em que mais se aproximar dos métodos das congregações. Surge, porém, uma dificuldade: até que ponto se deve impor uma regra? Por mais desejável que seja a disciplina para se trabalhar com eficácia, corre-se constantemente o perigo de exagerar, diminuindo assim o poder de atração do organismo. Nunca devemos esquecer que se trata de uma organização permanente de leigos. Não equivale, de forma alguma, a uma nova ordem religiosa, nem pretende vir a ser, como outrora aconteceu, e muitas vezes, com outras organizações.


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“O fim que se pretende atingir é este e não outro: levar a uma organização eficiente as pessoas que têm uma vida comum – como nós a conhecemos – e nas quais devemos ter em conta as diferenças de gostos e ocupações, que nem sempre são de caráter puramente religioso. A regulamentação a impor não deve ultrapassar aquilo que possa ser aceito pela maior parte das pessoas, a que a organização é destinada, mas, também não deve ficar aquém” (Padre Miguel Creedon, primeiro Diretor Espiritual do Concilium).

 

3. A perfeição dos membros

 

Segundo a Legião, a perfeição dos seus membros deve avaliar-se, não pelo prazer causado pelos êxitos reais ou aparentes, mas pela fidelidade exata ao seu método. Só merecem o nome de legionários na medida em que obedecem ao sistema.

 

Exortam-se os Diretores Espirituais e os Presidentes dos Praesidia a relembrar constantemente este ideal de perfeição àqueles que lhes foram confiados. Constitui o ideal que todos podem atingir e que não está no êxito nem na consolação conquistada pelo trabalho. Só na sua realização encontrar-se-á o remédio eficaz contra a monotonia, o trabalho enfadonho, a falta de êxito real ou imaginário que, aliás, podem reduzir a nada, no campo do apostolado, as mais prometedoras esperanças.

 

“Devemos notar que os nossos serviços à Sociedade de Maria se avaliam, não pela importância do cargo que nessa sociedade desempenhamos, mas pelo grau de espírito sobrenatural e de zelo por Maria, com que nos dedicamos ao dever que nos é imposto pela obediência, – por mais humilde e apagado que seja” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).

 

4. A obrigação principal

 

Como primeira obrigação e a mais importante no seu sistema, a Legião de Maria impõe aos seus membros a participação das reuniões. O que a lente é para os raios solares é a reunião para os membros: foco que os concentra, os incendeia, e inflama tudo quanto dele se aproxima. É a reunião que faz a Legião. Ela é o vínculo: se esse vínculo for partido ou relegado ao abandono, os membros desertam pouco a pouco e a obra desmorona.


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Pelo contrário, quanto mais a reunião for respeitada, tanto mais se intensificará o benéfico poder da organização.

 

As seguintes palavras, traçadas nos primeiros tempos da Legião, representam ainda hoje, como outrora, o seu modo de pensar sobre o organismo e, conseqüentemente, sobre a importância fundamental da reunião, – foco, como acima se disse, do sistema: “Numa organização, o indivíduo, por mais categorizado que seja, desempenha o papel de dente numa roda. Cede, em parte, a sua independência à máquina, isto é, ao conjunto dos seus associados que deste modo produzem cem vezes mais. Um sem-número de indivíduos que, de outra maneira, permaneceriam inativos ou inferiores à sua tarefa, entram em movimento; e cada um deles trabalha, não mais com a sua reduzida força pessoal, mas com o ardor e a potência incalculáveis que lhe são transmitidos pelas melhores qualidades de cada associado. Reparem em um bocado de carvão caído por terra, e o imaginem depois, transformados em brasa, em uma fornalha ardente. Assim é com os homens.

 

A organização possui, desta maneira, independentemente dos indivíduos que a compõem, uma vida própria. Mais que a beleza ou a necessidade do trabalho realizado, esta característica parece ser, na prática, o ímã que atrai os novos legionários. O organismo estabelece uma tradição, gera a lealdade, impõe o respeito e a obediência, e inspira poderosamente todos os membros. Interroguem-nos e verão que eles confiam na Legião como em uma mãe cheia de sabedoria e de prudência. E tem razão. Não é ela que os defende de todas as armadilhas: das imprudências do zelo, do desânimo nas dificuldades, do orgulho no êxito, da hesitação na defesa de idéias rejeitadas por todos, da timidez na solidão e, em geral, da areia movediça onde se afunda a inexperiência? É ela que se apodera da matéria bruta da boa intenção, trabalha-a e a transforma; é ela, enfim, que empreende a ação num plano regular e lhe assegura a expansão e a continuidade” (Padre Miguel Creedon).

 

“Considerada em relação a nós, seus membros, a Sociedade de Maria é a extensão, a manifestação visível de Maria, nossa Mãe Celeste. Maria recebeu-nos na Sociedade, como em seu amoroso seio maternal, para nos formar à imagem e semelhança de Jesus e assim nos tornar seus filhos prediletos; para distribuir a cada um de nós uma tarefa apostólica, e associar-nos dessa maneira à sua missão de corredentora das almas. Para nós, a causa e os interesses da Sociedade identificam-se com a causa e os interesses de Maria” (Pequeno Tratado de Mariologia, por um Marianista).


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5. A reunião semanal do Praesidium

 

            O Praesidium reúne-se semanalmente, numa atmosfera sobrenatural de oração, de práticas de piedade e de suave espírito fraterno. Nesta reunião, é marcada uma tarefa especial a cada membro e recebido o relatório do trabalho realizado. A reunião semanal é o coração da Legião, de onde jorra, para as veias e artérias, o sangue, que garante a vida, a fonte da luz e da energia; é um tesouro inesgotável que provê a todas as necessidades. É o grande exercício de comunidade, onde o Salvador, segundo a Sua promessa, assiste invisível, no meio dos Seus, e onde graças especiais são derramadas sobre o trabalho de cada um. É aí que os legionários são formados no espírito de religiosa disciplina que os leva, primeiro, a agir no propósito de agradarem a Deus e de se santificarem a si próprios; em seguida, a recorrer à organização como o meio mais apropriado para atingirem estes fins; e, por último, a entregar-se inteiramente à tarefa que lhes foi confiada, sem jamais a subordinar aos seus gostos pessoais.

 

Considerem os legionários a assistência à reunião semanal do Praesidium como o primeiro e mais sagrado dever para com a Legião. Nada a pode substituir. Sem ela, o trabalho será como um corpo sem alma. A razão mostra e a experiência comprova que o descuido no cumprimento deste dever primordial será seguido de um trabalho ineficaz e, em breve, de inevitáveis desistências.

 

“Àqueles que não marcham com Maria aplicam-se as palavras de Santo Agostinho: ‘Bene curris, sed extra-viam’: corres bem, mas por fora do caminho. Aonde irás assim parar?”  (Petitalot)

 

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FINS EXTERNOS DA LEGIÃO

 

1. O trabalho atualmente em curso

 

A Legião não se propõe este ou aquele trabalho especial: tem como objetivo principal a santificação dos seus membros. Para atingir esta finalidade apóia-se, em primeiro lugar, na assistência às diversas reuniões, em que a oração e outras práticas de


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piedade estão tão unidas e entrelaçadas que moldam com suas características toda a atividade legionária. Mas a Legião procura desenvolver a santidade de um modo peculiar, dando-lhe o caráter de apostolado, aquecendo-a até o ponto de sentir a necessidade de se comunicar. Esta difusão não é apenas o aproveitamento de uma força em desenvolvimento, mas, por uma espécie de reação, é um elemento necessário ao desenvolvimento dessa mesma força: nada contribui mais para o progresso do espírito apostólico do que o exercício do apostolado. Daí, o motivo por que a Legião impõe a cada membro uma obrigação essencial da máxima importância: a de realizar semanalmente um trabalho ativo, determinado pelo Praesidium. A execução desta tarefa constitui um ato de obediência ao Praesidium. Salvas as exceções adiante indicadas, o Praesidium pode aprovar qualquer trabalho ativo que satisfaça a referida obrigação. Todavia, a Legião exige que o trabalho obrigatório seja orientado para reais necessidades e, entre estas, as mais graves, pois a intensidade do zelo que a Legião se esforça por inflamar nos seus membros exige um objetivo digno. Um trabalho insignificante provocará reações desfavoráveis: corações prontos a sacrificar-se pelo próximo, a pagar a Jesus Cristo amor com amor e, em reconhecimento pelos Seus trabalhos e por Sua morte, prontos a dar-Lhe o seu esforço e o seu sacrifício – acabarão por instalar-se na pobreza de uma rotina e na perda de entusiasmo pelo trabalho apostólico.

 

“Eu não fui recriado com a mesma facilidade com que fui criado. Deus disse uma palavra – e tudo foi feito; mas, se isto bastou para me criar, já para me recriar disse muitas palavras, obrou muitas maravilhas e sofreu muitas dores.” (São Bernardo).

 

2. O fim mais remoto e mais elevado: o fermento da comunidade

 

Por mais importante que seja o trabalho que esteja sendo realizado, a Legião não o considera como o fim último ou mesmo principal do apostolado de seus membros. O trabalho pode consumir uma, duas ou mais horas da semana do legionário; para a Legião, porém, que olha mais longe, cada hora deve constituir a irradiação do fogo apostólico aceso no seu lar. O sistema que inflama assim as pessoas lançou no mundo uma força poderosa. O espírito apostólico domina como senhor e tudo governa: pensamentos, palavras e ações. As suas manifestações externas não


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são limitadas pelo tempo nem pelo espaço. Os indivíduos mais tímidos e os menos dotados adquirem uma capacidade especial para influenciar os outros, de modo que, onde quer que estejam, e mesmo sem terem a intenção de exercer apostolado, conseguem dominar o pecado e a indiferença. É a experiência universal que no-lo ensina. Tal como o general que contempla, satisfeito, a sólida ocupação dos pontos estratégicos, a Legião vê com alegria os lares, as oficinas, as escolas, os estabelecimentos comerciais e os lugares dedicados ao trabalho e ao recreio, onde um verdadeiro legionário foi colocado pelas circunstâncias. Mesmo onde a falta de religião e o escândalo se encontram fortemente entrincheirados, a presença desta nova Torre de David impedirá o seu avanço e fará com que recuem. A Legião nunca dará seu apoio à corrupção: antes, deverá se esforçar em remediá-la, tornando-a objeto das suas orações, lamentando-a com mágoa, combatendo-a contínua e decididamente, em busca de um êxito que certamente há de alcançar.

 

Assim, pois, a Legião começa por reunir os seus membros a fim de que, perseverem em oração, juntamente com a sua Rainha. Envia-os em seguida aos lugares de pecado e de aflição, para aí praticarem o bem e para que fazendo-o, se inflamem na vontade de realizar maiores coisas; e, finalmente, estende o seu olhar para os largos caminhos e pequenos atalhos da vida de cada dia, a fim de neles descobrir campo de ação para missões, cada vez mais gloriosas. Conhecedora das realizações operadas por pequeninos núcleos legionários; ciente das possibilidades ilimitadas de recrutamento; e convicta de que o seu sistema, se vigorosamente utilizado pela Igreja, constitui um meio extraordinariamente eficaz para purificar o mundo pecador, a Legião deseja ardentemente que os seus membros se multipliquem e se tornem Legião no número, como o são no nome.

 

Unindo os legionários ativos, os auxiliares e aqueles que estão sob sua influência, a Legião conseguirá abranger uma população inteira e erguê-la do nível de negligência e da rotina a uma entusiasmada fidelidade à Igreja. Imagine-se o que isto significa numa aldeia ou cidade! Os fiéis deixam de ser um peso morto na Igreja, para constituírem uma força motriz, cujos impulsos, diretamente ou através da comunicação dos Santos, atingem os confins da Terra e, até os lugares mais sombrios. Uma população inteira organizada pela causa de Deus – que ideal sublime! Ideal não apenas teórico, mas possível e prático no mundo dos nossos dias, se todos resolverem levantar os olhos para o alto e a pôr mãos à obra.


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“Sim, o laicado é uma ‘raça escolhida, um sacerdócio santo’, chamado a ser o ‘sal da terra’, e a  ‘luz do mundo’. A sua missão específica é exprimir o Evangelho na vida pessoal e, desta forma, colocá-lo como fermento, na realidade do mundo, em que vive e trabalha. As grandes forças que moldam o mundo – a política, os meios de comunicação social, a ciência, a tecnologia, a cultura, a educação, a indústria e o trabalho – são precisamente as áreas em que os leigos gozam de uma especial competência no exercício da sua missão. Se estas forças forem guiadas por verdadeiros discípulos de Cristo, que sejam ao mesmo tempo inteiramente competentes nos conhecimentos humanos, podemos estar seguros de que o mundo será transformado, a partir de dentro, pelo poder redentor de Cristo.” (João Paulo II, Irlanda, Limerick, outubro de 1979).

 

3. A união de todos os homens

 

“Procurar primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça” (Mt 6, 33), ou seja, trabalhar diretamente na salvação das almas, eis a preocupação maior da Legião de Maria. Não se deve esquecer, no entanto, que outras coisas lhe foram dadas por acréscimo, como, por exemplo, o seu valor como elemento social. Torna-se, assim, a Legião de Maria um tesouro nacional para o país onde se encontra, e converte-se, para os seus habitantes, em um valioso elemento de riqueza espiritual.

 

O exercício frutuoso da máquina social exige, como qualquer outro mecanismo, a cooperação harmoniosa de todas as suas peças. Cada uma, isto é, cada indivíduo, deve cumprir rigorosamente a função que lhe foi confiada causando o menor atrito possível.   Aliás, se o indivíduo não cumpre com a sua obrigação, surge o desperdício de energia, o bom andamento é perturbado e os dentes da roda da máquina social deixam de se ajustar uns aos outros. Reparar o mal é impossível, pois torna-se dificílimo descobrir-lhe a extensão ou as causas. Por isso, o remédio a adotar consiste em aumentar a força motriz ou lubrificar a máquina com mais dinheiro. Este remédio leva a um fracasso progressivo, pois diminui a noção de serviço ou de colaboração espontânea. Há sociedades com tal vitalidade que podem continuar a funcionar mesmo quando metade de suas partes se encontram mal engrenadas. Mas à custa de quanta pobreza, de quanta frustração e infelicidade! Não se poupam dinheiro nem esforços para pôr em


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ação peças que deviam mover-se sem dificuldade ou ser, até mesmo, fontes de energia. Resultado: problemas, desordens, crises. 

 

Ninguém ousará negar que isto se passa mesmo nos Estados mais bem governados. O egoísmo é a regra da vida individual; o ódio converte a existência de muitos em forças puramente destrutivas, e cada dia que desponta traz consigo uma nova e universal demonstração da verdade que pode ser expressa rigorosamente nestes termos: “Os homens que negam Deus, que Lhe são traidores, atraiçoarão igualmente todas as pessoas e tudo quanto existe abaixo de Deus – no Céu e na Terra” (Brian O’Higgins). 

 

A que alturas podemos esperar que se eleve o Estado, se ele não é mais que a soma das vidas individuais? Se as são um perigo e um tormento para si próprias, que poderão oferecer ao mundo senão uma parte da sua própria desordem?

 

Suponhamos agora que uma força nova surge na sociedade, comunicando-se de indivíduo a indivíduo, como que por contágio, e converte em centro de atração os ideais generosos de abnegação e de fraternidade: – que transformação não seria operada! As chagas vivas cicatrizam-se e a vida passa a ser vivida num nível superior. Imagine-se ainda o aparecimento de uma nação em que a vida se ajuste por estas elevadas normas e apresente perante o mundo o exemplo de um povo inteiro que pratica unanimemente a sua Fé, e resolve, em conseqüência, todos os seus problemas sociais. Quem põe em dúvida que tal nação passaria a constituir, para o mundo, um farol luminoso, a cujos pés se sentaria a Terra para alimentar-se da luz dos seus ensinamentos?

 

Ora é indiscutível que a Legião possui a força capaz de interessar os leigos na sua própria religião, de forma vital e também de comunicar um idealismo ardente aos que vivem sob a sua influência, fazendo-os esquecer as divergências, as distinções e as rivalidades e fazendo com que se resolvam a amar o gênero humano e a servi-lo devotadamente. Este idealismo, que se encontra enraizado na religião, não é um simples sentimento, não se evapora: disciplina o indivíduo, educando-lhe a vontade de servir; anima-o a sacrificar-se e torna-o capaz de maiores heroísmos.

 

Por quê? A razão está na causa motriz. A energia deve ter uma fonte. A Legião dispõe de um motivo que força a servir a comunidade. E o motivo é este: Jesus e Maria eram cidadãos de Nazaré. Amavam a sua aldeia e o seu país com religiosa devoção, pois para os judeus a fé e a pátria estavam tão divinamente enlaçadas que formavam apenas uma só coisa. Jesus e Maria viveram perfeitamente a vida comum de sua localidade. Cada pessoa, cada coisa ali era para eles objeto do mais profundo interesse. Se-


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ria impossível imaginá-los indiferentes ou descuidados sob qualquer aspecto.   

 

Hoje, o seu país é o mundo e cada lugar, a sua Nazaré. Numa comunidade de batizados, Jesus e Maria estão mais intensamente unidos às pessoas do que outrora aos seus próprios parentes. Mas o Seu amor tem agora de se exercer por meio do Corpo Místico. Se os membros deste corpo se esforçarem por servir o lugar em que vivem, Jesus e Maria virão a esse lugar e derramarão a sua benéfica influência, não só sobre as pessoas como também no meio-ambiente. Haverá progressos materiais e os problemas hão de diminuir.  Nem há verdadeiros melhoramentos que possam vir de qualquer outra fonte.

 

A atenção ao nosso dever de cristãos em cada localidade seria mais uma manifestação de patriotismo. Esta palavra não é bem compreendida: que vem a ser de fato o verdadeiro patriotismo? Dele não existe no mundo nem mapa nem modelo. Um exemplo aproximado é a dedicação e o sacrifício pessoal que se desenvolve em tempo de guerra. Mas neste caso, a dedicação e o sacrifício são motivados mais pelo ódio do que pelo amor e, por conseguinte, orientados para a destruição. É imperioso, pois, estabelecer um modelo correto de patriotismo pacífico.

 

É este serviço da comunidade, feito por motivos espirituais, que a Legião vem estimulando com o nome de Verdadeiro Amor à Nação. Não só deve este serviço ser empreendido por motivos espirituais, mas ele e tudo o que origina nele deve ser utilizado para promover o bem espiritual. Atividades que só produzissem progressos materiais falsificariam a idéia do Verdadeiro Amor à Nação. O Cardeal Newman exprime perfeitamente esta idéia básica, quando diz que um desenvolvimento material, que não é acompanhado por uma manifestação correspondente de ordem moral é quase para inspirar medo. É indispensável garantir o verdadeiro equilíbrio.

 

O Concilium tem à disposição de quem o desejar, um folheto sobre este assunto.

 

Reparem, povos da Terra! Se assim é a Legião, não parece que ela nos oferece, pronta para o combate, uma Cavalaria dotada do poder mágico de unir os homens num sublime empreendimento pela Causa de Deus, serviço que supera infinitamente as lendárias campanhas do Rei Artur, o qual, segundo Tennyson, “na sua ordem da Távola Redonda, juntou a Cavalaria Andante de seu reino e de todos os reinos numa Companhia gloriosa, elite da humanidade, para servir de modelo ao mundo poderoso e constituir o início sorridente de uma nova era?”


[Capítulo 12      Fins Externos  da Legião      página 77]

 

“A Igreja, que é ao mesmo tempo ‘agrupamento visível e comunidade espiritual,’ caminha juntamente com toda a humanidade, participa da mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família de Deus.

 

O Concílio incentiva os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade permanente, mas que caminhamos em busca da futura, pensam que podem por isso descuidar dos deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé os obriga ainda mais, a cumprir esses deveres, segundo a vocação própria de cada um” (GS 40-43).

 

“Uma resposta prática a esta necessidade e obrigação realçadas na Constituição Conciliar encontra-se no movimento legionário começado em 1960 e conhecido como o Verdadeiro Amor à Nação. A medida dos bons êxitos já alcançados mostra as vastas possibilidades de desenvolvimento. Mas, note-se bem, o que a Legião tem para oferecer à ordem temporal não é um conhecimento ou competência excepcionais, não é uma habilidade extraordinária, nem mesmo um grande número de trabalhadores – mas o dinamismo espiritual que a converteu numa força mundial que pode ser aproveitada para elevar qualquer setor do Povo de Deus, que tenha a inteligência e o bom senso de aproveitar essa força. A iniciativa, porém, deve vir da Legião. Afastando embora tudo o que possa sugerir mundanismo, a Legião há de recordar-se sempre do mundo, no sentido do Decreto anterior. Tome consciência de que o homem tem de viver no meio das coisas materiais, das quais depende em larga escala, a sua própria salvação” (Padre Thomas O’Flynn, C.M., antigo Diretor Espiritual do Concilium Legionis Mariae).      

 

4. A grandiosa campanha pela causa de Deus

 

Esta é a cavalaria de que a Igreja precisa neste tempo de extraordinário perigo para a religião. A preocupação com as coisas do mundo e a falta de consciência religiosa, animados por hábil propaganda, difundem a sua influencia corruptora, em círculos cada vez mais vastos, ameaçando submergir o mundo.

 

Comparada com estas forças formidáveis, vemos como a Legião é uma organização modesta! Não importa. Esse mesmo contraste torna-a mais audaz. A Legião é formada por almas estreitamente unidas à Virgem poderosíssima; encerra em si gran-


[Capítulo 12      Fins Externos  da Legião      página 78]

 

des princípios e conhece a forma eficaz de os aplicar. Tudo leva a crer, portanto, que o Onipotente se digne operar nela e por ela os maiores prodígios.

 

Os objetivos da Legião de Maria são totalmente opostos aos das legiões que negam “o nosso único Mestre e Senhor Jesus Cristo” (Jd 1, 4). O objetivo da Legião de Maria é levar Deus e a religião a todo o indivíduo; o das outras legiões é precisamente o contrário. Não se pense, no entanto, que o plano da Legião foi idealizado especialmente para opor-se a este império da descrença. As coisas passaram-se com extrema simplicidade. Um pequeno grupo de almas reuniu-se em torno de uma imagem de Nossa Senhora e disse-lhe: “Guiai-nos!” Unidos a Ela, começaram a visitar uma enorme enfermaria, cheia de aflitos, de doentes e miseráveis, de uma grande cidade, vendo em cada um deles o amado Filho de Maria. Compreenderam que Jesus estava presente em cada membro da humanidade e que deviam ajudar Maria na tarefa maternal de cuidar d’Ele. De mãos dadas com Ela, iniciaram o seu trabalho simples e humilde, e ei-los tornados Legião. Esta Legião entrega-se a atos simples de amor de Deus, no homem, e de amor dos homens por amor de Deus; em toda a parte este amor revela o seu poder de ganhar os corações.

 

Também os sistemas materialistas professam amar e servir o homem. Pregam um evangelho vazio de fraternidade, em que milhões e milhões de pessoas acreditam. Para o abraçar abandonam a religião que julgam sem vida. No entanto, esta situação não é desesperada. Há um meio de trazer de novo à fé estes milhões de homens e de salvar outros milhões incontáveis. A esperança baseia-se na aplicação de um grande princípio que São João Maria Vianney, o Santo Cura de Ars, formulava nestes termos: “O mundo pertence a quem mais o ama e melhor lhe testemunha o seu amor.” As pessoas não deixarão de ver e de ser impressionadas por uma fé real que atua, movida por um amor heróico a todos os homens. Convencei-os de que a Igreja os ama mais do que os outros, e hão de regressar à fé, apesar de todas as dificuldades e, se for preciso, derramar por ela o próprio sangue.

 

Para realizar uma conquista assim, não basta um amor vulgar, nem um Catolicismo pobre que dificilmente se agüenta a si mesmo. Tal obra só pode ser levada avante por um Catolicismo que ame de todo o coração a Jesus Cristo, seu Senhor, e saiba vê-lo e amá-lo em todos os homens, sem distinção. Mas esta suprema caridade de Cristo deve ser praticada em tão alto grau que leve os que a observam a considerá-la como uma verdadeira ca-


[Capítulo 12      Fins Externos  da Legião      página 79]

 

racterística da Igreja e não como manifestação isolada de alguns de seus membros. Deve manifestar-se na vida do conjunto dos leigos.

 

Não será demasiada ambição querer inflamar toda a Igreja neste sublime ideal? Sim, a tarefa é heróica. Os horizontes do problema são tão extensos e tão numerosas as hostes que dominam os povos, que até o coração mais valente pode ser levado a desanimar. Mas Maria é o coração da Legião, e este coração é fé e amor sem igual. Com esta firme convicção, a Legião estende os seus olhares sobre o mundo com inabalável esperança: “A terra pertence a quem mais a ama.” E voltando-se para a sua excelsa Rainha, diz-lhe como no princípio: “Guiai-nos!”

 

“A Legião e o materialismo que age na sociedade enfrentam-se mutuamente. Vamos compará-los. A verdadeira energia motriz do sistema materialista é a sua disciplina implacável, exercendo-se através de uma rede de espiões e denunciantes. Isto está de tal modo desenvolvido que os cidadãos em geral sentem que tudo quanto fazem ou dizem será denunciado. Utilizando este instrumento de terror universal, uma autoridade que oprime pode impor a sua vontade a uma nação inteira. É um sistema eficiente, mas horrível. A submissão completa a este controle absoluto significa a extinção da liberdade e finalmente da própria faculdade moral.

 

Nada consegue resistir a este domínio a não ser a mobilização total dos católicos. A Legião possui, para este fim, a engrenagem perfeita, fato admitido pelo exército contrário. Mas essa engrenagem por si, é inútil se lhe falta uma força que a movimente. Essa energia motriz reside na espiritualidade legionária, que consiste num real apreço pelo Espírito Santo e pela Verdadeira Devoção à Sua Esposa, a Bem-aventurada Virgem Maria, e numa verdadeira confiança nos mesmos, espiritualidade esta que se alimenta do Pão da Vida, a Eucaristia.

 

Quando estas duas forças, a Legião e o materialismo, entram em luta, este último pode matar e perseguir, mas falhará na tentativa de esmagar o espírito da Legião. Os legionários suportam os maus tratos e, mantendo vivas as chamas da liberdade e da religião, acabam, finalmente, por triunfar” (Padre Adão MacGrath, S.S.C.).


[página 80]

 

13

      

CONDIÇÕES DE ADMISSÃO NA LEGIÃO

 

1. A Legião de Maria está aberta para todos os católicos que:

 

a) pratiquem fielmente a sua religião;

 

b) estejam animados do desejo de exercer o seu apostolado na Igreja, como membros da Legião;

 

c) e estejam resolvidos a cumprir todas as obrigações impostas aos membros da organização.

 

2. Aqueles que desejem ingressar na Legião de Maria devem solicitar sua inscrição em um Praesidium.

 

3. Os candidatos com menos de 18 anos só podem ser admitidos nos Praesidia juvenis (Ver o capítulo 36).

 

4. Ninguém deve ser admitido como candidato à Legião de Maria antes de o Presidente do Praesidium, a que é requerida a admissão, se ter certificado através de uma observação cuidadosa, de que o pretendente satisfaz as condições exigidas.

 

5. Antes de ser alistado nas fileiras da Legião, o candidato deve submeter-se satisfatoriamente a uma prova mínima de três meses. Pode, todavia, desde o princípio,  participar plenamente nos trabalhos da Legião.

 

6. A cada candidato será entregue, um exemplar da Tessera.

 

7. A admissão propriamente dita consiste essencialmente no Compromisso Legionário e na inscrição do nome do candidato na lista dos membros do Praesidium. A fórmula do Compromisso Legionário vem inserida no capítulo 15 e está impressa de forma a facilitar a leitura.

 

Monsenhor Montini (mais tarde Papa Paulo VI), escrevendo em nome de Pio XII, declara: “Este Compromisso Legionário e Mariano tem fortalecido os legionários de todo o mundo na sua luta por Cristo, especialmente os que estão sofrendo perseguições pela fé”.

 

Existe um comentário do Compromisso Legionário – “A Teologia do Apostolado” – devido à pena ilustre de Sua Eminência, o Cardeal Suenens, Arcebispo de Malinas, e publicado em várias línguas. Obra de incalculável valor, que devia andar nas mãos de todos os legionários. A sua leitura, no entanto, aproveita também a qualquer católico responsável, pois encerra uma exposição notável dos princípios diretivos do apostolado cristão.

 

[Capítulo 13      Condições de Admissão na Legião      página 81]

a) Terminado o período de provação de uma forma satisfatória, deverá o candidato ser informado com uma semana de antecedência, pelos menos, da sua admissão. Durante ela, o candidato procurará familiarizar-se com as palavras e o sentido do Compromisso Legionário, de maneira que, na cerimônia da admissão, o leia com facilidade, compreensão e fervor.

 

b) Na reunião semanal do Praesidium, logo após a recitação da Catena e enquanto todos os membros se conservam de pé, aproxima-se o Vexillum do candidato que, tomando na mão esquerda uma cópia do Compromisso, recita-o em voz alta, intercalando o seu próprio nome no lugar respectivo. No início do terceiro parágrafo leva a mão direita à haste do Vexillum e aí a conserva até o fim da recitação. Depois recebe a bênção do sacerdote (se este estiver presente) e o seu nome é inscrito na lista dos membros.

 

c) Em seguida os legionários sentam-se de novo, ouvem a alocução e a reunião segue o seu curso.

 

d) Se o Praesidium não possuir ainda o Vexillum, o candidato fará o Compromisso perante uma imagem do mesmo – a que figura na Tessera, por exemplo.

 

8. Uma vez aprovado, o candidato deve assumir sem demora, o seu Compromisso Legionário. Dois ou mais candidatos podem ser recebidos no mesmo dia, o que não é aconselhável, pois se torna evidente que, quanto mais numerosos, menos solene se torna a cerimônia para cada um deles.

 

9. A cerimônia da recepção pode constituir uma difícil prova para as pessoas extremamente sensíveis; mas tanto melhor: porque a cerimônia ganhará para elas em solenidade e seriedade – que se refletirão na sua futura vida legionária.

10) Compete ao Vice-Presidente, de maneira especial, o dever de acolher os candidatos, de os instruir nas suas obrigações, e de os animar durante a provação e depois dela. É este, porém, um dever em que todos os legionários devem colaborar.

 

11. Se um candidato, por qualquer motivo, não desejar assumir o Compromisso, poder-se-á prolongar o período de provação por mais três meses. O Praesidium tem o direito de adiar o Compromisso até se certificar de que o candidato satisfaz as condições exigidas.  Dê-se a este, de modo semelhante, ampla oportunidade para se decidir. Mas ao fim dos três meses suplementares, o candidato deverá assumir o Compromisso incondicionalmente, ou deixar o Praesidium.


[Capítulo 13      Condições de Admissão na Legião      página 82]

 

Se um membro, depois de ter assumido o Compromisso, mais tarde o rejeita interiormente, tem a obrigação moral de deixar a Legião.

 

A aprovação e o Compromisso são a porta por onde se ingressa na Legião. Não deve ficar aberta, por negligência, aos indivíduos despreparados que possam baixar o nível e enfraquecer o espírito da Legião.

 

12. O Diretor Espiritual não está obrigado à cerimônia do Compromisso. Mas assumi-lo seria não só legítimo, como agradável e honroso para o Praesidium.

 

13. Reserve-se esse Compromisso ao seu fim específico. Não é permitido usá-lo como ato de consagração na Acies ou em outras solenidades. Nada impede, porém, que os legionários o utilizem nas suas devoções particulares.

 

14. As faltas dos legionários às reuniões do Praesidium deverão ser consideradas com justa compreensão, conforme as causas que as motivaram. Não se risquem levianamente os nomes da Lista Oficial, sobretudo se as ausências se baseiam em doença, mesmo prolongada.  Quando, porém, o nome de um membro foi retirado da lista por haver faltado de maneira irresponsável, requer-se, para reingressar na Legião, novo período de provação e novo Compromisso.

 

15. Em tudo ao que se refere o serviço legionário e só nisso, os membros tratar-se-ão por “Irmão” ou “Irmã”.

 

16. Conforme as necessidades e com a aprovação da Curia, os membros se agruparão em Praesidia de homens, mulheres, rapazes, moças ou mistos. No seu início, a Legião foi um organismo puramente feminino. Só oito anos mais tarde se formou o primeiro Praesidium de homens. Apesar disso, a Legião apresenta base igualmente apropriada para estes, existindo atualmente em atividade numerosos Praesidia, quer mistos, quer masculinos. Os primeiros Praesidia da América, da África e da China foram de homens.

 

Embora as mulheres ocupem, por isso, lugar de honra na Legião, usamos sempre nestas páginas o pronome masculino para designar os legionários de um e outro sexo.  Tal é o costume do direito. Evitam-se, assim, repetições cansativas de “ele ou ela”.

 

“A Igreja nasceu para tornar todos os homens participantes da redenção salvadora e, através deles, conduzir efetivamente a Cristo o universo inteiro, dilatando pelo mundo o seu reino para glória


[Capítulo 13      Condições de Admissão na Legião      página 83]

 

de Deus Pai. Toda a atividade do Corpo Místico que seja orientada para este fim, chama-se apostolado. A Igreja exerce-o de diversas maneiras, por meio de todos os seus membros, já que a vocação cristã é também, por sua própria natureza, vocação ao apostolado. Do mesmo modo que num corpo vivo, nenhum membro tem um papel meramente passivo, mas antes, juntamente com a vida do corpo, também participa da sua atividade, assim também no corpo de Cristo, que é a Igreja, todo o corpo “segundo a função de cada parte, opera o próprio crescimento” (Ef. 4, 16). Mais ainda: é tão profunda neste corpo a união entre os membros (Ef. 4, 16) que se deve dizer que não aproveita nem à Igreja nem a si mesmo, aquele membro que não trabalha para o crescimento do corpo, segundo sua própria medida” (AA2).

 

14

       

O PRAESIDIUM

 

1. O núcleo de Membros Ativos da Legião de Maria chama-se Praesidium. Esta palavra latina indicava um destacamento da Legião Romana incumbido de determinada tarefa: um setor da linha de batalha, uma praça forte, uma guarnição. Conseqüentemente, o termo Praesidium é aplicado, com a máxima razão, à unidade orgânica da Legião de Maria.

 

2. Cada Praesidium adota como nome um título de Nossa Senhora, por exemplo: “Nossa Senhora da Misericórdia”, ou o de um dos seus privilégios, como “Imaculada Conceição”, ou, finalmente, o de algum acontecimento da sua vida, p. ex., “A Visitação”.

 

Feliz o Bispo que vier a ter na sua Diocese, Praesidia suficientes para formar uma Ladainha viva de Maria!

 

3. O Praesidium tem autoridade sobre todos os seus membros e poder para regular as suas atividades legionárias. Os membros, por seu lado, devem obedecer lealmente a todas as ordens legítimas do Praesidium.

 

4. Cada Praesidium, quer diretamente, quer por intermédio de um Conselho aprovado, deve estar filiado ao Concilium Legionis, sem o que não pertencerá à Legião. Segue-se que nenhum Praesidium deve ser fundado sem prévia licença de sua Curia ou, à falta desta, do Conselho Superior imediato, ou ain-


[Capítulo 14      O Praesidium      página 84]

 

da, em último recurso, do Concilium. O novo Praesidium dependerá diretamente do Conselho que autorizou a sua fundação.

 

5. Nenhum Praesidium deve ser fundado em qualquer paróquia, sem o consentimento do Pároco ou do Ordinário. Um ou outro deve ser convidado a presidir à cerimônia da inauguração.

 

6. O Praesidium deve se reunir regularmente, uma vez por semana. A reunião deverá ser feita conforme o estabelecido no Capítulo intitulado “Ordem a observar na reunião do Praesidium.”

 

Esta regra é absolutamente invariável. Haverá quem diga com várias e excelentes razões que é difícil reunir semanalmente e que uma reunião quinzenal ou mensal bastaria para os fins em vista.

 

A tais objeções tenha-se presente que a Legião em circunstância alguma pode consentir que a reunião deixe de ser semanal, nem concede a nenhum Conselho o direito de alterar esta norma. Se a regulamentação do trabalho ativo em curso fosse o único assunto a tratar, talvez bastasse uma reunião mensal, embora seja para duvidar que o referido trabalho fosse feito semanalmente, como manda o Regulamento. Mas um dos fins essenciais da reunião é a oração semanal em comum, e será inútil acrescentar que tal fim só pode ser atingido com a reunião semanal.

 

É certo que uma reunião semanal acarreta sacrifício. Mas, se a Legião não pode exigi-lo com confiança aos seus membros, – onde encontraremos a base necessária e firme para o seu sistema?

 

7. Haverá em cada Praesidium como Diretor Espiritual, um sacerdote, e também um Presidente, um Vice-Presidente, um Secretário e um Tesoureiro.

 

Chamam-se Oficiais do Praesidium e são os seus representantes na Curia. As obrigações de cada um deles serão tratadas no capítulo 34. A primeira, porém, há de ser a perfeita execução do trabalho semanal ordinário, de modo a servirem de exemplo aos restantes membros.

 

8. Os Oficiais deverão apresentar ao Praesidium um relatório de cada reunião da Curia, e manter assim o necessário contato entre o Praesidium e a Curia.

 

9. O Diretor Espiritual é designado para o seu cargo pelo Pároco ou pelo Bispo. A permanência no cargo dependerá da aprovação dos mesmos.


[Capítulo 14      O Praesidium      página 85]

 

Um Diretor Espiritual pode encarregar-se, ao mesmo tempo, da direção de mais de um Praesidium.

 

Caso ele não possa participar das reuniões do Praesidium, poderá fazer-se substituir por outro sacerdote ou religioso, ou, em circunstâncias especiais, por um Legionário competente, chamado Tribuno.

 

Embora o Diretor Espiritual deva estar a par do que se passa nas reuniões, a sua presença não é essencial à validade das mesma.

 

O Diretor Espiritual pertence à categoria dos Oficiais do Praesidium e deve apoiar toda autoridade legionária legítima.

 

10. O Diretor Espiritual deverá ter autoridade decisiva nas questões religiosas ou morais levantadas nas reuniões do Praesidium, cabendo-lhe o direito de suspender qualquer deliberação até que o Pároco ou o Bispo dêem o seu parecer.

 

“Este direito é uma arma necessária; mas, como qualquer arma, deve ser usada discreta e cautelosamente, para que não aconteça tornar-se instrumento de destruição e não de proteção. Numa associação bem organizada e bem dirigida a sua utilização nunca será necessária.” (Civardi: Manual da Ação Católica)

 

11. Os Oficiais do Praesidium, exceto o Diretor Espiritual, serão nomeados pela Curia, ou, se esta não existir, pelo Conselho imediatamente superior.

 

É para desejar que se evitem francas discussões a respeito das qualidades ou defeitos de candidatos a Oficiais, possivelmente presentes. Assim, quando se tem que preencher qualquer vaga no quadro dos Oficiais, o Presidente da Curia costuma apresentar a esta, depois de cuidadosa pesquisa (em que deve ser ouvido sobretudo o Diretor Espiritual do Praesidium) o nome da pessoa que lhe pareça mais idônea, e que a Curia nomeará, se assim o entender.

 

12. A duração do mandato dos Oficiais (exceto a do Diretor Espiritual) é de três anos, prolongável por outro período igual ao primeiro, isto é, seis anos ao todo. Depois de o seu mandato terminar um Oficial não pode continuar a exercer as suas funções.

 

A transferência de um Oficial para outro cargo ou para cargo idêntico em unidade diferente deverá considerar-se como nova nomeação.

 

Após um intervalo de três anos, um Oficial pode ocupar o mesmo cargo no mesmo Praesidium.


[Capítulo 14      O Praesidium      página 86]

 

Quando, por qualquer motivo, um Oficial não puder completar os três anos de mandato, deverá considerar-se como tendo servido três anos, na data do abandono do cargo. Aplicam-se depois as normas gerais da renovação dos mandatos: a) se se tratar de um primeiro período, pode, dentro do triênio que não completou, ser designado para o mesmo lugar por um novo período de três anos; b) se se tratar de um segundo período, deve decorrer três anos entre a saída do cargo e a nova nomeação para as mesmas funções.

 

“O problema da duração de um cargo deve ser resolvido de acordo com os princípios gerais. Em qualquer organização – sobretudo numa organização religiosa de voluntários – nunca devemos perder de vista o grande perigo de acomodação que a ameaça, no todo ou em qualquer das suas partes, pela diminuição do entusiasmo, pela infiltração do espírito de rotina, pelo endurecimento dos métodos, diante dos males que surgem constantemente. Perigo realmente sério, – porque muito humano.

 

Este processo de deterioração conduz a um trabalho sem vida, a uma completa indiferença. A organização deixa de atrair ou reter os membros mais qualificados, caindo numa indiferença aniquiladora. É disto que a Legião tem de se defender a todo o custo. Para tal, é absolutamente indispensável garantir, em todo e cada um dos Conselhos ou Praesidia, um perpétuo renovar de entusiasmo. O nosso primeiro cuidado deve recair sobre os Oficiais – fontes naturais de zelo – esforçando-nos para que não diminua o impulso do seu primitivo fervor, o que se consegue com a mudança a que acima nos referimos. Se os Oficiais falham, tudo falha. Se neles se extingue a chama do entusiasmo, vão esfriar, na mesma medida os grupos que eles dirigem. E o pior é que se contentarão facilmente com o estado de coisas, a que se habituaram. Para tal situação não há remédio possível a não ser que o socorro venha de fora. Teoricamente, tal remédio estaria num estatuto que exigisse a renovação periódica de um cargo. Na realidade, porém, este remédio não seria eficaz, pois que os próprios conselhos administrativos não se aperceberiam do lento desmoronar e aprovariam automaticamente a reeleição dos mesmos dirigentes.

 

Conseqüentemente, parece que a única atitude segura a se tomar é substituir os Oficiais, sem considerar seus méritos ou outras circunstâncias. O procedimento das ordens religiosas sugere à Legião, o critério a seguir: “o de limitar a seis anos a duração dos cargos e exigir a renovação do poder após o primeiro triênio” (Decisão tomada pela Legião, limitando a duração dos cargos dos Oficiais).


[Capítulo 14      O Praesidium      página 87]

 

13. “Não há maus soldados,” dizia Napoleão, – “só há maus oficiais”. É esta uma forma irônica de afirmar que são os oficiais que fazem os soldados. O padrão estabelecido pelos Oficiais, dentro da organização, em matéria de generosidade e de trabalho, nunca será ultrapassado pelos Legionários. Daí, a imperiosa necessidade de escolher os Oficiais entre os melhores elementos. Se o operário deve ser digno de seu salário, o legionário deve ser digno de ocupar um cargo de direção.

 

A nomeação sucessiva de bons Oficiais deveria significar o aperfeiçoamento constante do espírito do Praesidium. Cada novo Oficial, além de velar cuidadosamente pela manutenção do nível adquirido, há de contribuir com a sua participação pessoal para o progresso do Praesidium.

 

14. A nomeação do Presidente, sobretudo, requer madura reflexão. Um erro em tal matéria pode ser a ruína do Praesidium. A escolha só deve ser feita depois de um sério exame dos possíveis candidatos, de acordo com os requisitos apontados no capítulo 34, n° 2, relativo ao Presidente. A pessoa que não ofereça garantia de poder satisfazer às normas ali estabelecidas, deve ser absolutamente posta de lado, por maiores que sejam os seus méritos, sob qualquer outro ponto de vista.

 

15. Não havendo razões especiais em sentido contrário, a Curia, sempre que proceder à reorganização de um Praesidium que esteja em má situação, substituirá o Presidente. A ruína do núcleo provém, na maior parte dos casos, do desleixo ou incapacidade do Presidente.

 

16. Durante o tempo de prova, o legionário só provisória ou temporariamente poderá exercer um cargo de direção num Praesidium de adultos. Se ele não tiver sido retirado do cargo, durante o período de prova, ao expirar este torna-se Oficial de pleno direito, e o tempo decorrido vai ser tomado em conta para o triênio acima referido.

 

17. Nenhum membro do Praesidium deve sair para entrar em outro, sem prévia autorização de seu Presidente. A admissão em novo Praesidium será feita de acordo com as regras e constituições que regulam a admissão de novos membros, podendo estes ser dispensados da prova e da Promessa. Tal autorização, quando pedida, não deve ser negada sem razão suficiente. Ao pretendente fica sempre o recurso de apelar para a Curia.


[Capítulo 14      O Praesidium      página 88]

 

18. O Presidente do Praesidium, depois de consultar os Oficiais, pode suspender qualquer membro do Praesidium, por motivos que todos considerem suficientes, sem ter de dar contas ao Praesidium.

 

19. A Curia tem o direito de expulsar ou suspender qualquer membro de um Praesidium, ficando a este o recurso de apelar para o Conselho diretivo, imediatamente superior, cuja decisão será definitiva.

 

20. Qualquer discordância entre Praesidia, relativa à divisão dos trabalhos, será solucionada pela Curia.

 

21. Um dos deveres essenciais do Praesidium é recrutar e manter à sua volta um sólido grupo de Auxiliares.

 

Um exército bem comandado, corajoso, perfeitamente disciplinado e armado, representa uma força irresistível. No entanto, se contar apenas consigo próprio, a sua eficiência será pouco durável. Ele depende a toda hora de uma grande multidão de trabalhadores que lhe fornecem munições, víveres, fardas e assistência médica. Vamos privá-lo de toda essa ajuda e veremos o que acontecerá a esta excelente formação, depois de alguns dias de combate.

 

Os Auxiliares são para o Praesidium o mesmo que aquela turma de trabalhadores é para o exército. Fazem parte integrante da organização. Sem eles o Praesidium é incompleto.

 

O verdadeiro método para se manter a comunicação com os Auxiliares é o contato pessoal. Não bastam cartas para cumprir tão importante dever.

 

22. Um exército procura sempre assegurar o futuro pelo estabelecimento de escolas de formação militar. Da mesma maneira, cada Praesidium deve considerar a fundação e direção de um Praesidium Juvenil como parte essencial do seu próprio sistema. Dois legionários adultos serão escolhidos para Oficiais do Praesidium Juvenil. Nem todos os legionários servem para tais cargos. A formação dos jovens exige qualidades especiais do educador. Que os Oficiais sejam, portanto, escolhidos com muito cuidado. O desempenho desta tarefa satisfaz a obrigação do trabalho semanal que lhes compete como membros do Praesidium de adultos a que pertencem. Representarão o Praesidium Juvenil na Curia de adultos ou na Curia Juvenil, se esta existir.

 

Os outros dois cargos de Oficiais serão preenchidos por membros juvenis que assim serão treinados para as responsabi-


[Capítulo 14      O Praesidium      página 89]

 

lidades futuras. Representarão o Praesidium na Curia Juvenil, nunca, porém, na Curia de Adultos.

 

“Numerosos são os raios do sol, mas uma só a luz; muitos os ramos da árvore, mas um só o tronco, firmemente seguro por raízes inabaláveis.” (São Cipriano: De Unitate Ecclesiae).

 

15

 

COMPROMISSO LEGIONÁRIO (1)

 

Espírito Santíssimo, Eu .....  (nome do candidato),

desejando alistar-me hoje nas fileiras da Legião de Maria, e reconhecendo que não posso, por mim mesmo, prestar serviço digno,

suplico-vos que desçais a mim e me enchais de Vós mesmo,

a fim de que os meus débeis atos sejam sustentados pelo Vosso poder e se tornem instrumentos dos Vossos soberanos desígnios.

Reconheço também que, tendo Vós vindo regenerar o mundo em Jesus Cristo,

só por Maria o quisestes fazer;

que sem Ela não podemos conhecer-Vos, nem amar-Vos;

que é por Ela que os Vossos dons, virtudes e graças são

distribuídos a quem lhe apraz, quando lhe apraz, e na medida e maneira que lhe apraz.

Reconheço, enfim, que o segredo do perfeito serviço legionário

consiste na união total com aquela que Vos está inteiramente unida.

 

Por isso, empunhando o estandarte da Legião que simboliza a nossos olhos todas estas verdades,

apresento-me diante de Vós como soldado e Filho de Maria,

e proclamo a minha completa dependência d’Ela.

Maria é a Mãe da minha alma.

O Seu coração e o meu fazem um só coração;


[Capítulo 15      Compromisso Legionário      página 90]

 

e do fundo deste coração único, Ela repete as palavras de outrora:

“Eis aqui a escrava do Senhor”;

e mais uma vez vindes, Espírito Divino, por Seu intermédio operar grandes coisas.

 

Que o Vosso poder me cubra e comunique à minha alma o Vosso fogo e o

Vosso amor,

de modo a fundi-lo com o amor de Maria e a Sua vontade de

salvar o mundo;

para que eu seja puro n’Aquela que fizestes Imaculada;

para que, por Vós, cresça em mim o Cristo, meu Senhor;

para que eu, unido a Ela, Sua Mãe, possa levá-Lo ao mundo e às almas que

d’Ele carecem;

para que estas almas e eu, depois da vitória, possamos reinar com Ela na

glória da Trindade Santíssima.

 

Confiado em que me acolhereis – e Vos dignareis utilizar os meus serviços – e que convertereis neste dia, a minha fraqueza em força,

tomo lugar nas fileiras da Legião e ouso prometer um serviço fiel.

Prometo sujeitar-me completamente à sua disciplina,

que me liga a meus irmãos,

e  faz de nós um exército,

e nos conserva alinhados na marcha com Maria,

para cumprir a Vossa vontade e operar os Vossos prodígios de graça,

que renovarão a face da Terra,

e estabelecerão o Vosso reino, Espírito Santíssimo, sobre todas as coisas.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

(1) Anteriormente: “Promessa Legionária”.

 

“Notou-se que o Compromisso Legionário se dirige ao Espírito Santo, a Quem o comum dos católicos tem muito pouca devoção, e a Quem os legionários devem dedicar um amor muito especial. O seu trabalho, que é a santificação própria e a dos outros membros do Corpo Místico de Cristo, depende do poder e da ação do Espírito Santo, exigindo, por isso, uma íntima união com Ele. Para isto, duas coisas são essenciais: atenção cuidadosa às inspirações do Espírito Santo e uma terna devoção à Virgem Santíssima, com quem Ele trabalha em profundíssima união. Foi, provavelmente, a falta desta última e não da primeira, que fez com que houvesse no mun-


[Capítulo 15      Compromisso Legionário      página 91]

 

do uma grande ausência da verdadeira devoção ao Espírito Santo, apesar dos numerosos livros escritos e dos inúmeros sermões pregados sobre este assunto. Os legionários amam muito, certamente, a Maria – sua Mãe e Rainha; mas, se juntarem este amor a uma devoção mais ardente e mais esclarecida ao Espírito Santo, entrarão perfeitamente no plano divino que exigiu a união do Espírito Santo e de Maria na obra de regeneração do mundo. Conseqüentemente, os legionários não poderão deixar de ver coroados os seus esforços por um acréscimo de forças e de êxitos.

 

‘As primeiras orações rezadas pelos legionários foram a Invocação e a Oração ao Espírito Santo, seguidas do Terço do Santo Rosário.’ Desde então as mesmas preces abrem cada reunião. Há a maior conveniência em colocar sob a mesma santa proteção, a cerimônia que incorpora o legionário nas fileiras da Legião. Esta cerimônia traz à memória o dia do Pentecostes – em que a graça do apostolado foi derramada pelo Espírito Santo, através de Maria. O legionário, procurando o Espírito Santo, por intermédio de Maria, receberá d’Ele de maneira abundante os Seus Dons e, entre estes, o de um verdadeiro e esclarecido amor à Mãe de Deus.

 

Além disso, a fórmula do Compromisso harmoniza-se com a espiritualidade legionária simbolizada pelo Vexillum, que nos mostra a Pomba presidindo a Legião e a sua obra – por Maria, para todos os seres humanos” (Extrato da ata da 88a reunião do Concilium Legionis). (Estas citações não fazem parte da Promessa Legionária).

 

16

 

GRAUS SUPLEMENTARES DA LEGIÃO

 

Além dos membros ativos comuns a Legião admite duas categorias de membros.

 

1. Os pretorianos

 

Os Pretorianos(1) constituem um grau superior nas fileiras dos Membros Ativos. Compreende aqueles que, além das obrigações próprias de membro ativo, se comprometem:

(1) A guarda Pretoriana era a ala selecionada, a mais especial do Exército Romano.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 92]

 

1º a rezar diariamente todas as orações da Tessera;

 

2º a participar da Missa e comungar todos os dias. O receio de não poder participar da Missa e comungar todos os dias, sem exceção, não é motivo para desistir de entrar para Pretoriano, visto que ninguém pode estar certo de tal regularidade. Quem, normalmente, não falta mais do que uma vez ou duas por semana a estas obrigações, pode inscrever-se tranqüilamente como Pretoriano;

 

3º a reza diária de um ofício aprovado pela Igreja, especialmente o Ofício Divino ou parte significativa do mesmo; por exemplo Laudes, de manhã, e Vésperas, à tarde. Foi também aprovado um breviário mais breve, com estas duas partes do Ofício Divino, a que se acrescentou a oração da noite ou Completas – que também pode ser utilizada.

 

Tem sido sugerido que se fizesse um dia a reza do Ofício e no outro, uma meditação. Tal proposta não está de acordo com o fim essencial que levou à criação do Pretoriano – unir o legionário aos grandes atos oficiais do Corpo Místico. O apostolado ativo do legionário é uma participação no apostolado oficial da Igreja. O grau de Pretoriano ajuda a introduzi-lo mais profundamente na vida comunitária da Igreja. Daí, a exigência da Missa e da Sagrada Comunhão, atos centrais em que se renova diariamente o Ato Supremo do Cristianismo.

 

A seguir, na Liturgia, vem o Ofício Divino, a oração coletiva da Igreja, em que Jesus Cristo reza. Em qualquer Ofício baseado nos Salmos, utilizamos as preces inspiradas pelo Espírito Santo, unindo-nos, assim, intimamente à voz coletiva, que sobe aos ouvidos do Pai celeste. Por isso, se impõe ao Pretoriano um Ofício Divino e não a meditação.

 

“À medida que a graça progride em nós, deve o nosso amor tomar novas formas”, dizia aos seus legionários o Arcebispo Mons. Leen. A reza do Ofício Divino por inteiro constituirá, para quem o puder fazer, uma nova manifestação de amor.

 

Convém notar:

 

a) Os Pretorianos não constituem uma unidade à parte dentro da Legião, mas um simples grau do serviço ativo; por isso, não se devem fundar Praesidia especiais para Pretorianos.

 

b) O grau de Pretoriano deve ser considerado como um contrato particular meramente pessoal.

 

c) É proibido usar de imposição moral por mínima que seja, para recrutar Pretorianos; e, embora se possam e devam aconselhar freqüentemente os legionários a tornarem-se pretorianos, não é permitido dar ou citar os nomes em público.


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d) O legionário torna-se Pretoriano pela inscrição do seu nome numa lista própria.

 

e) Os Diretores Espirituais e os Presidentes devem esforçar-se por aumentar o número de Pretorianos, mantendo-se, ao mesmo tempo, em relação com os Pretorianos atuais, para que não se cansem do seu generoso compromisso.

 

Se o Diretor Espiritual consentisse na inscrição do seu nome na lista dos Pretorianos, tal fato fortaleceria a sua qualidade de legionário, estreitaria os laços que o ligam ao Praesidium e havia de influenciar favoravelmente no aumento do número de Pretorianos.

 

A Legião deposita grandes esperanças no grau de Pretoriano. Levará muitos membros a uma vida de mais íntima união com Deus por meio da oração; introduzirá na organização legionária um coração, cheio de vida, no qual um número cada vez maior de legionários procurará envolver-se, influindo deste modo inevitavelmente em toda a circulação espiritual da Legião. Esta confiará assim cada vez mais no poder da oração, para conseguir bons resultados em todas as suas obras e se convencerá cada vez mais profundamente de que o seu principal e verdadeiro destino é aperfeiçoar, na ordem sobrenatural, todos os seus membros.

         

 “Deveis crescer, bem o sei; é o vosso destino; exige o vosso nome de católicos; é o privilégio da herança dos Apóstolos. Mas, como admitir uma extensão material, sem o desenvolvimento moral correspondente? Só o pensar em tal possibilidade causa horror” (Newman: A Posição Atual dos Católicos).

 

2. Membros Auxiliares

 

À Categoria de Auxiliares podem pertencer os sacerdotes, religiosos e leigos. Os Auxiliares são as pessoas que, não podendo ou não querendo assumir as responsabilidades de Membros Ativos, se unem à Legião através do compromisso de rezar determinadas orações em seu nome.

 

Os auxiliares subdividem-se em duas categorias:

 

a) uma elementar, cujos membros se chamam simplesmente Auxiliares;

 

b) e outra, superior, cujos membros recebem o nome particular de Adjutores Legionis ou Adjutores.

 

Não há limite de idade para os Membros Auxiliares.

 

Não é preciso oferecer unicamente pela Legião as orações


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estabelecidas. Basta oferecê-las em honra da Santíssima Virgem. É possível, por isso, que a Legião não receba qualquer fruto delas; mas a verdade é que também não deseja receber nada que possa produzir maior bem em outro lugar. Como, porém, tais orações são um serviço legionário, é provável que sensibilizem a Rainha da Legião a ter em consideração as necessidades da mesma Legião.

 

Recomenda-se insistentemente, no entanto, que este e outros serviços legionários sejam entregues como oferta à Santíssima Virgem, sem a mínima reserva, para que ela os administre conforme as suas intenções. Tal modo de agir elevará o nosso serviço a um nível superior de generosidade e realçará grandemente o seu valor. A reza diária da seguinte fórmula de oferecimento ou de outra semelhante será suficiente para manter essa intenção: “Maria Imaculada, Medianeira de toda as graças, a vós entrego a parte das minhas orações, trabalhos e sofrimentos, de que posso dispor”.

 

As duas categorias de Auxiliares são para a Legião o que as asas são para a ave. Com elas bem abertas – e tanto mais quanto maior for o número de Auxiliares – e agitadas intensamente sob o impulso marcante das orações prescritas, rezadas com fidelidade, a Legião poderá elevar-se no caminho do ideal e do esforço sobrenaturais. Voará rápida para onde quiser e nem as mais altas montanhas lhe cortarão a carreira. Fechem-se, porém, e a Legião arrastar-se-á lenta e penosamente, detendo-se ao menor obstáculo.

 

Primeiro Grau: Os Auxiliares

 

Esta categoria, cujos membros são chamados Auxiliares, é a ala esquerda do exército legionário que reza. O serviço legionário que lhes corresponde consiste na reza diária de todas as orações da Tessera, a saber: a invocação e oração ao Espírito Santo; o terço do Rosário e as invocações que se lhe seguem; a Catena e as orações finais. Podem distribuir-se pelas diferentes horas do dia, como mais convier.

 

As pessoas que costumam rezar diariamente o terço por qualquer intenção particular podem ser membros Auxiliares sem a obrigação de acrescentar novo terço.

 

“Quem reza “presta auxílio a todas as almas. Socorre e ampara seus irmãos, pela salutar e poderosa força de atração de uma alma que crê, conhece e quer. Cumpre o que acima de tudo nos pede S.Paulo: orações, súplicas, e ações de graça por todos os homens.


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“Não cesseis de orar e de suplicar em todos os tempos, no Espírito Santo” (Ef 6, 18). E não vos parece que, se deixais de vigiar, de insistir, de vos esforçar, de vos manter firmes, tudo há de enfraquecer, o mundo há de recuar e os vossos irmãos hão de sentir em si mesmos menos força e amparo? Sim, certamente. Cada um de nós, até certo ponto, leva o mundo aos ombros e os que deixam de trabalhar, de vigiar, sobrecarregam os demais” (Graty: As fontes).

 

Grau Superior: Os Adjutores

                           

São eles a ala direita da Legião que reza, formada por todos aqueles que diariamente: a) rezam as orações da Tessera; b) e participam da santa Missa, comungam e rezam um ofício aprovado pela Igreja (Veja-se o valor especial de um Ofício no capítulo sobre o Pretoriano).

 

Segue-se, portanto, que os Adjutores estão para os simples Auxiliares como os Pretorianos para os simples membros Ativos. As obrigações acrescentadas são as mesmas.

            

O fato de alguém falhar a estas obrigações uma ou duas vezes por semana não se considera falta grave aos seus deveres de membro Adjutor.

 

Não se exige a reza do Ofício aos Religiosos que não são obrigados a rezá-lo pelos seus Regulamentos próprios.

 

Esforcem-se por levar o simples Auxiliar a tornar-se Adjutor, pois esta categoria oferece-lhe um verdadeiro modelo de vida. O que se diz para os Pretorianos, no que se refere à união do legionário à oração da Igreja e ao valor especial de um ofício, aplica-se igualmente aos Adjutores.

 

Fazemos um apelo especial aos Sacerdotes e Religiosos para que se tornem Adjutores. A Legião deseja vivamente unir-se a estas almas consagradas, especialmente dedicadas a uma vida de oração e estreita intimidade com Deus e que constituem na Igreja, poderosas usinas de energia espiritual. Ligada eficazmente a estas geradoras de força, a máquina legionária desenvolverá um potencial irresistível.

                                

Se refletirem um pouco, verão como é pequeno o encargo que com isso acrescentam às suas obrigações de costume; – nada mais do que a Catena, a Oração da Legião e algumas invocações; uma questão de alguns minutos apenas. Mas, através deste laço com a Legião, podem tornar-se a sua força motriz.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 96]

 

“Dai-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu levantarei a própria Terra”, dizia outrora Arquimedes. Unidos à Legião, os Adjutores encontrarão nela o ponto de apoio indispensável da longa alavanca da suas fervorosas orações que, deste modo, se tornarão suficientemente fortes para levantar as almas oprimidas do mundo inteiro e afastar para longe, montanhas de dificuldades.

 

“No cenáculo, onde pela vinda do Espírito Santo a Igreja foi definitivamente fundada, Maria começa  a exercer visivelmente no meio dos Apóstolos e dos discípulos reunidos, uma função que continuará a exercer pelos séculos afora, de um modo íntimo e oculto: a de unir corações na oração e de vivificar as almas pelos méritos da sua intercessão todo-poderosa: “Todos animados de um mesmo espírito perseveravam na oração com as piedosas mulheres e Maria, Mãe de Jesus e os irmãos d’Ele”(At 1, 14) (Mura: O Corpo Místico de Cristo).

 

Observações gerais relativas aos dois graus de Auxiliares

 

1. Serviço complementar. A Legião suplica aos Auxiliares dos dois graus que considerem as suas estritas obrigações de membros, não como máximo mas antes como o mínimo exigido pelo serviço legionário que eles terão a generosidade delicada de completar com outras orações e boas obras, feitas especialmente nesta intenção.

 

Sugerimos aos sacerdotes Adjutores um “Memento” especial em todas a missas e o oferecimento do Santo Sacrifício de tempos a tempos pelas intenções de Maria e da Legião. Exortamos também os outros Auxiliares a mandarem celebrar de vez em quando uma missa, ainda que com algum sacrifício, pelas mesmas intenções.

 

Por mais generoso que se mostre o Auxiliar para com a Legião, recebe dela em retorno infinitamente mais. O motivo é claro. A Legião dá a conhecer aos Auxiliares – tanto como aos Membros Ativos – as grandezas de Maria, alista-os como soldados ao serviço de tão maravilhosa Rainha e leva-os a amá-la como devem. Estas vantagens são tão elevadas que nenhuma palavra lhes pode traduzir o valor. A Legião eleva a vida espiritual dos seus membros a um plano superior, garantindo-lhes deste modo uma eternidade mais gloriosa.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 97]

                                                  

2. Quem ousará recusar a Maria este presente? Não esqueçamos que Aquela que é a Rainha da Legião é igualmente a Rainha do Universo, de todas as suas partes, e de tudo quanto ao mundo interessa. Dar a Maria, portanto, é ir de encontro às mais urgentes necessidades, é aplicar as orações onde produzem maior fruto.

 

3. Na administração dos bens espirituais colocados em suas mãos, Maria Imaculada nunca esquecerá as numerosas exigências e deveres da nossa vida normal e todas as nossas obrigações atuais. Poderá desculpar-se: “Eu bem queria ser Auxiliar, mas dei tudo, desinteressada e completamente, a Maria ou às almas do Purgatório ou às missões. Fiquei sem nada; não tenho nada para a Legião. Que proveito lhe resultará da minha presença no Serviço Auxiliar?” A Legião responde: há maior vantagem no alistamento de pessoas tão generosas. A sua boa vontade em ajudar a Legião é já em si uma oração a mais, uma prova de especial pureza de intenção, um apelo irresistível à generosidade ilimitada da guardiã dos divinos tesouros. Fiquem certos de que, se se alistarem como Auxiliares, Maria corresponderá aos seus desejos: lucrarão suas novas intenções e as antigas não hão de perder. É que esta maravilhosa Rainha e Mãe tem tal arte que nos enriquece de forma maravilhosa, ao mesmo tempo que aproveita a nossa oferta para socorrer generosamente os outros com os nossos tesouros espirituais. A sua intervenção produz um trabalho a mais, realiza uma maravilhosa multiplicação, que S. Luís Maria de Montfort chama segredo da graça. É preciso notar – diz ele – que as nossas boas obras, ao passarem pelas mãos de Maria, aumentam em pureza e conseqüentemente em mérito e valor de reparação e de súplica. Tornam-se assim mais poderosa para aliviar as almas do Purgatório e converter os pecadores do que no caso de não passarem pelas mãos virginais e liberais de Maria”.

                            

Todas as vidas necessitam da força que provém desta admirável transação, através da qual nos é tirado o que temos para ser colocado a juros, transformado em trabalho proveitoso e devolvido depois com lucro. Esta força encontra-se no dom que fizermos a Maria, da oração fiel dos Auxiliares.

 

4. A Legião parece ter recebido de Maria um pouco do seu dom de atrair irresistivelmente os corações, talvez devido ao grande número de almas aflitas com as quais está em contato. Os legionários não terão, pois, grandes dificuldades em alistar os


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seus amigos no Serviço Auxiliar, tão essencial para a Legião e tão vantajoso para os próprios Auxiliares que, associados à Legião, participam das suas orações e trabalhos.

 

            5. Tem-se verificado que o Serviço Auxiliar da Legião, (a ala que reza), tem a capacidade de encantar as almas tanto como a qualidade de Membro Ativo. Pessoas que de outro modo não pensariam em rezar diariamente o terço, cumprem fielmente as obrigações do Serviço Auxiliar que exige a reza diária de todas as orações da Tessera. Quantas almas desanimadas, recolhidas em asilos e hospitais ou em outros estabelecimentos, ganham ânimo e interesse pela vida, entrando como Auxiliares na Legião! Inúmeros católicos, perdidos nas suas aldeias, vivendo em circunstâncias propícias a tornar a religião sem gosto, quando não rotineira, compreenderam afinal como Auxiliares que desempenham papel importante na Igreja; quantos, tendo chamado a si como coisa própria os interesses da Legião, lêem com grande interesse qualquer escrito que a ela se refira e lhes venha às mãos! Reconhecem-se como parte nas lutas assumidas ao longe pela Legião em prol das almas, luta cuja sorte depende das suas orações. As notícias procedentes de diversos lugares acerca de nobres e emocionantes trabalhos a favor das almas enchem-lhes a vida monótona de apaixonante interesse por estes atos heróicos. As suas existências acham-se assim transformadas pelo mais sublime dos ideais: o ideal de cruzado. Mesmo as almas mais santas precisam de semelhante estímulo.

 

6. Um dos objetivos do Praesidium será o Alistamento de todos os católicos da sua área nas fileiras do Serviço Auxiliar. Desta maneira se prepararia um terreno favorável a outras formas de apostolado legionário. As visitas neste sentido serão por todos recebidas como uma honra e de antemão podem ser consideradas frutuosas.

 

7. Na medida em que os membros das outras organizações ou atividades católicas se alistarem como Auxiliares, conseguir-se-á uma desejável integração das atividades a que pertencem. Ficariam assim unidos na oração, na simpatia, no ideal, sob a proteção de Maria, e isto sem nenhum prejuízo da autonomia ou das características próprias dos diversos organismos e sem retirar deles as orações próprias dos seus membros. Note-se que as orações dos Auxiliares não são oferecidas nas intenções da Legião, mas simplesmente em honra de Nossa Senhora.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 99]

 

8. Um não-católico não pode ser Membro Auxiliar normal. Se acontecer, porém (e acontece, de fato, de vez em quando), que uma tal pessoa deseje rezar diariamente as orações da Legião, entregue-se-lhe a Tessera e anime-se no seu generoso propósito. Tome-se nota do nome para poder manter contato com ela. Nossa Senhora estará atenta, com certeza, às necessidades dessa pessoa.

                                                 

            9. Mais do que as necessidades locais, devem apresentar-se aos Auxiliares, como objeto das suas orações, os trabalhos da Legião e as difíceis batalhas por ela travadas a favor do ser humano, através do mundo inteiro. É certo que não tomam parte direta na luta; desempenham, porém, um papel essencial, comparável ao dos trabalhadores das fábricas de munições e ao dos serviços de abastecimento, sem os quais as forças combatentes nada podem.

 

10. O recrutamento de Auxiliares, não deve ser feito levianamente. Antes de os admitirmos, devemos instruí-los perfeitamente em todas as suas obrigações e ter uma razoável garantia de que serão fiéis aos compromissos que assumirem.

 

11. Com o fim de interessar cada vez mais os Auxiliares pela perfeita execução dos seus compromissos, e ao mesmo tempo: a) em relação ao presente, melhorar a sua qualidade e garantir a sua perseverança, b) e no que toca ao futuro levá-los a ingressar nas fileiras dos Adjutores e dos Membros Ativos, – seria aconselhável contar-lhes alguns dos trabalhos da Legião .

 

12. É necessário manter-se em contato constante com os Auxiliares a fim de os conservarem na Legião e avivar neles o interesse pela organização; trabalho admirável para certos legionários, cujo ideal devia ser o progresso espiritual daqueles que lhes estão confiados.

 

13. Dar-se-á conhecimento aos Auxiliares das enormes vantagens resultantes da sua entrada na Confraria do Santíssimo Rosário. Visto rezarem já mais orações do que as prescritas pelos Estatutos da Confraria, só lhes resta inscreverem-se nela.

 

14. Da mesma maneira, com a intenção de desenvolver plenamente a vida espiritual dos soldados Auxiliares de Maria, seria bom ao menos explicar-lhes a “Verdadeira Devoção” ou consagração total da vida a Maria. Muitos deles hão de sentir-se felizes


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 100]

 

por poderem servi-la de uma forma mais perfeita, que exige a doação dos seus tesouros espirituais Àquela, a quem Deus escolheu como sua própria Tesoureira. E por que hesitar, se as intenções de Maria são os interesses do Coração de Jesus? Abrangem todas e cada uma das necessidades da Igreja e do apostolado. Estendem-se ao mundo inteiro. Descem mesmo às santas almas que sofrem no Purgatório. O zelo pelas intenções de Maria significa portanto carinho compreensivo pelas necessidades do Corpo do Senhor. É que, notemos, Maria não é agora Mãe menos compreensiva do que foi nos dias de Nazaré. Quando nos conformamos com as suas intenções, vamos diretamente ao fim, que é a vontade de Deus. Se quisermos alcançar este mesmo objeto apenas por nossa iniciativa, que caminho tortuoso não seguiremos! E quem nos diz que atingiremos o fim da caminhada?

                                    

Não faltará quem possa ser levado a pensar que tal devoção é própria só de pessoas avançadas em espiritualidade. É importante lembrar que foi a pessoas que acabavam de se libertar do pecado, e às quais se tornavam necessário recordar as verdades elementares do Catecismo, que S. Luís Maria de Montfort recomendou o Rosário, a devoção a Maria e a Santa Escravidão de Amor.

                                           

15. É desejável e, de fato, essencial estabelecer entre os Auxiliares, uma organização de regulamento suave com reuniões e festas próprias. Uma tal rede estendida sobre a comunidade teria como efeito a penetração desta pelo ideal legionário de apostolado e oração, a ponto de em breve, todos maravilhosamente o porem em prática.

                                             

16. Falando bem claramente: uma associação baseada no Serviço Auxiliar da Legião não seria menos importante que qualquer outra, tendo a mais, a vantagem de ser a própria Legião com todo o seu fervor e características. As reuniões freqüentes de tal associação  garantiriam aos membros o contato com o espírito e as necessidades da Legião e iriam torná-los mais fervorosos no seu serviço.

                                               

17. Deve-se fazer o esforço de levar cada um dos Auxiliares a ingressar nos Patrícios, pois as duas associações completam-se de maneira ideal uma à outra. A reunião dos Patrícios cumprirá o fim da reunião periódica recomendada para os Auxiliares. Ajudará a mantê-los em contato com a Legião e contribuirá para o seu progresso em importantes aspectos. Por outro lado, se os Patrícios forem recrutados para Auxiliares, representará isso para eles mais um passo em frente.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 101]

                                               

18. Não se devem empregar os Auxiliares nos trabalhos ativos habituais da Legião. O contrário parece, à primeira vista, muito atraente. Com efeito, não será bom incentivar os Auxiliares a maiores realizações? Mas, se refletirmos um instante, veremos que se trataria da execução de um trabalho legionário sem a respectiva reunião semanal, o que significaria pôr de lado a condição essencial de Membro Ativo da Legião.

                                                  

19. Os Auxiliares poderão tomar parte na Acies, quando isso se julgar conveniente ou possível, por ser esta uma cerimônia para eles excelente, pois os ligará intimamente aos Membros Ativos da Legião. Os Auxiliares que desejassem fazer o Ato de Consagração individual à Santíssima Virgem deveriam fazê-lo depois dos Membros Ativos.

                                                   

20. A invocação na Tessera a ser rezada pelos Auxiliares será: “Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças, rogai por nós”.

                                                     

21. O convite insistente da Legião a todos os Membros Ativos: “sempre de serviço pelo próximo” – estende-se igualmente aos Auxiliares.

 Os Auxiliares, tanto como os Membros Ativos, devem dedicar todos os esforços para recrutar novos membros para o serviço da Legião, de tal modo que, ajuntando um elo a outro elo, a Catena Legionis possa transformar-se numa rede dourada de orações que envolva o mundo inteiro.

 

22. Não falta quem proponha freqüentemente a redução ou substituição das Orações dos Auxiliares em consideração aos cegos, às crianças e às pessoas que não sabem ler.

                                                        

Sem considerar o fato de uma obrigação perder parte da sua força, quando se torna menos exata, é evidente que o atendimento de tais pedidos é absolutamente impossível. Admitidas estas exceções, não tardaria o momento em que seria preciso estendê-las a pessoas de pouca leitura, de vista defeituosa ou muito ocupadas; seria abrir a porta ao relaxamento que, com o tempo, se tornaria regra geral.

 

Não, a Legião deve insistir na observância das normas estabelecidas. Se certas pessoas não são capazes de cumprir as obrigações prescritas, não podem ser Auxiliares. Entretanto podem prestar à Legião serviços incalculáveis, orando por ela como lhes for possível e a isto devem ser incentivadas.


[Capítulo 16      Graus Suplementares da Legião      página 102]

                                                       

23. É permitido pedir ao Auxiliar que pague a Tessera e o certificado de inscrição, mas nada mais se pode exigir dele.

                        

24. Cada Praesidium terá em seu poder um Registro dos Membros Auxiliares com os respectivos nomes e endereços, subdividido em duas seções, uma para os Adjutores e outra para os simples Auxiliares. Este Registro será submetido periodicamente à Curia ou aos seus representantes autorizados. Será examinado atentamente para verificar se está bem conservado, se há cuidado no recrutamento de novos membros e se, de vez em quando, são visitados os Auxiliares existentes para se ter certeza de que, depois de terem colocado a mão no arado, não voltem para trás (Lc 9, 62).

 

25. Uma pessoa torna-se Membro Auxiliar pela inscrição do seu nome no Registro dos Membros Auxiliares de qualquer Praesidium. Este Registro ficará aos cuidados do Vice-Presidente.

                                                              

26. Os nomes dos que desejam tornar-se Auxiliares serão escritos numa lista provisória até decorrerem os três meses de provação. Antes de os inscrever no Registro dos Auxiliares, o Praesidium deve certificar-se de que cumprem fielmente obrigações que deles são esperadas.

 

            “Que recompensa não dará o bom Jesus a quem lhe entrega heróica e desinteressadamente, pelas mãos de sua Santíssima Mãe, todo o valor das suas obras? Se dá cem vezes, mesmo  neste mundo, àqueles que por seu amor deixam os bens exteriores, temporais e perecíveis, que não dará Ele ao homem que lhe sacrifica mesmo os bens interiores e espirituais?” (São Luís Maria de Montfort).

 

17

 

AS ALMAS DOS LEGIONÁRIOS FALECIDOS

 

Terminada a caminhada da vida, eis o legionário gloriosamente reclinado no leito da morte. Agora, é ele confirmado no serviço legionário e por toda eternidade. Esta eternidade foi a Legião que o ajudou a conquistar. Ela formou a essência e o molde de toda a sua vida espiritual. Pelo poder das suas orações, rezadas


[Capítulo 17      As Almas dos Legionários Falecidos      página 103]

 

cada dia fervorosamente num só coração por todos os legionários Ativos e Auxiliares, a fim de que a Legião pudesse reunir-se no céu sem uma perda, ela ajudou-a a vencer os perigos e dificuldades de toda a sua longa vida. Que pensamento suave e consolador para todos os legionários! Neste momento, sofremos por termos perdido um companheiro e um amigo. Apressemo-nos a orar para que a alma deste soldado seja prontamente libertada do Purgatório.

 

Imediatamente depois do falecimento de um membro ativo, o Praesidium mandará rezar uma missa pelo seu eterno descanso; e todos os membros do Praesidium devem rezar ao menos uma vez as Orações da Legião, incluindo o Terço, pela mesma intenção. Estas obrigações, porém, não se estendem aos parentes dos legionários. Todos os legionários que o puderem fazer, e não só os do próprio Praesidium, deverão tomar parte na santa missa e no enterro.

 

Recomenda-se a reza do Terço e das outras orações legionárias durante o enterro. Isto poderá fazer-se imediatamente a seguir às orações oficiais da Igreja. Este costume, extremamente proveitoso ao falecido, é profundamente consolador para os seus parentes entristecidos, para os próprios legionários e para todos os amigos presentes.

 

Esperamos com confiança que as mesmas orações sejam rezadas mais de uma vez, durante o velório, e que não limitaremos a isto a nossa piedosa lembrança.

 

No mês de Novembro, cada Praesidium mandará celebrar uma missa pelos legionários falecidos, não só do Praesidium, mas de todo o mundo. Nesta ocasião como em todas as outras em que se reza por eles, incluiremos nessas intenções os diversos graus de membros da Legião.

 

“O Purgatório faz parte do Reino de Maria. Lá se encontram também alguns dos seus filhos que, em dolorosos momentos de aflição, esperam o nascimento para a glória eterna. S. Vicente Ferrer, S.Bernardino de Sena e Luís de Blois e outros, declaram explicitamente que Maria é Rainha do Purgatório; e S. Luís Maria de Montfort convida-nos a pensar e agir de acordo com esta crença. Quer que ponhamos nos braços da Maria o valor das nossas preces e satisfações. Promete-nos em recompensa, um benefício mais abundante a favor das almas que nos são queridas, do que no caso de lhes aplicarmos diretamente as nossas orações” (Lhoumeau: Vida Espiritual na Escola de S. Luís Maria de Montfort).


[página 104]

 

18

 

ORDEM A OBSERVAR NA REUNIÃO DO PRAESIDIUM

 

1. Em todas as reuniões, a disposição deve ser uniforme. Os membros deverão sentar-se em volta de uma mesa, numa das extremidades da qual se preparará, sobre uma toalha branca, de dimensões convenientes, um pequenino altar com a imagem (de cerca de 60 cm de altura) da Imaculada Conceição na atitude de distribuidora de todas as graças, ladeada de duas jarras de flores, e dois castiçais com velas acesas. Em frente da imagem, mas um pouco à direita, será colocado o Vexillum, cuja descrição vem no capítulo 27.

 

Neste Manual encontrará o leitor fotografias da disposição do altar e do Vexillum.

 

O objetivo de uma tal disposição é representar a Rainha no meio dos seus soldados; por isso, o altar não deve estar separado da mesa da reunião, nem colocado fora do círculo dos membros.

 

O amor filial que devemos à nossa mãe celeste exige que o material e as flores sejam de qualidade tão boa quanto possível. A despesa com o material não deve oferecer dificuldades, visto não ser freqüente. Talvez se encontre um benfeitor ou uma pessoa de posses que ofereça ao Praesidium, vasos e castiçais de prata. Alguém, entre os legionários, deverá assumir a responsabilidade de conservar limpos e reluzentes, os vasos e os castiçais e devidamente enfeitados de flores e de velas, compradas à custa do Praesidium.

                                                               

Se for absolutamente impossível obter flores naturais, é permitido o uso de flores artificiais, a que se ajuntará algumas folhas verdes para termos assim um elemento da natureza viva.

                                                                

Em regiões, onde seja necessário defender a chama das velas para que não se apague, coloque-se na parte superior das mesmas globos transparentes de vidro.

 

Na toalha poderão ser bordadas as palavras Legião de Maria, mas não o nome do Praesidium. Importa pôr em relevo a unidade e não a distinção.

 

“A mediação de Maria está intimamente ligada à sua maternidade e possui caráter especificamente maternal, que a distingue da mediação das outras criaturas que, de diferentes modos e sempre subordinados, participam da única mediação de Cristo; também a mediação de Maria permanece subordinada. Se, na realidade, “nenhuma criatura pôde jamais colocar-se no mesmo plano


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 105]

 

que o Verbo Encarnado e Redentor”, também é verdade que “a mediação única do Redentor não exclui, antes desperta nas criaturas cooperação multiforme, participada dessa única fonte”; e assim, “a bondade de Deus, sendo uma só, difunde-se realmente, de diferentes modos, pelos seres criados” (RMat 38).

 

2. A reunião começará pontualmente à hora marcada. Nesse momento todos os membros devem estar nos seus lugares. Esta pontualidade, tão necessária ao bom andamento do Praesidium, só é possível, se os Oficiais chegarem alguns minutos antes, o tempo suficiente para fazerem os preparativos indispensáveis.

                                                                  

Nunca se começará uma reunião de Praesidium sem um programa escrito, chamado Folha de Trabalho. Esta deve ser feita antes da reunião e por ela se orientará o Presidente ao tratar dos diversos assuntos. Nela serão registrados pormenorizadamente todos os trabalhos que estão sendo feitos pelo Praesidium com a indicação dos membros que deles foram encarregados. Não é necessário seguir sempre a mesma ordem de assuntos, em todas as reuniões; mas todos os membros devem ser chamados, um por um, a dar conta do trabalho de que foram incumbidos, ainda que dois ou mais tenham participado da mesma atividade.

                                                                  

Providencie-se, antes do fim da reunião, para que cada membro receba o trabalho para a semana seguinte.

                       

O Presidente deverá ter um livro encadernado no qual escreverá todas as semanas a Folha de Trabalho.

                                                                     

“Por mais fervoroso e absorvente que o ideal, nunca deve servir para justificar um sentimentalismo vazio e sem utilidade prática. Como já foi notado, o gênio de Santo Inácio consistia em explorar cuidadosa e organizadamente, as energias religiosas. O vapor é inútil, mesmo incômodo, enquanto não for aproveitado por um cilindro e por um êmbolo. Que desperdício de fervor espiritual, só porque não se sujeita a um exame minucioso, e não se aplica isso a casos práticos! Mal aproveitados, quatro litros de gasolina podem fazer ir pelos ares um automóvel; utilizados com competência, farão subir o carro até ao cimo do monte” (Monsenhor Alfredo O’Rahilly: Vida do Padre Guilherme Doyle).

 

3. A reunião abre com a invocação e oração ao Espírito Santo, fonte daquela graça, vida e amor, de que tanto nos alegramos em considerar Maria como canal.


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 106]

                               

Desde a hora em que concebeu o Filho de Deus em seu casto seio, Maria foi, por assim dizer, revestida de uma espécie de autoridade de jurisdição sobre as ações temporais do Espírito Santo, de tal sorte que nenhuma criatura recebe qualquer graça de Deus, a não ser por seu intermédio. Todos os dons, virtudes e graças do Espírito Santo por Ela são distribuídos a quem lhe agrada, quando lhe agrada e da maneira e na quantidade que lhe agrada” (São Bernardino de Sena: Sermão sobre a Natividade).                 

[Nota: a última parte desta citação encontra-se quase ao pé da letra nas obras de Santo Alberto Magno (Bíblia Mariana , Livro de Ester I), que viveu 200 anos antes de S. Bernardino].                                    

4. Segue-se a reza de cinco dezenas do Rosário. A primeira, terceira e quinta são iniciadas pelo Diretor Espiritual. A segunda e quarta, pelos membros. Todos rezarão em voz alta e com tanta dignidade e respeito, como se a Virgem Maria, a quem dirigem as suas súplicas, estivesse visivelmente presente no lugar da imagem.                                      

A devida reza da Ave-Maria exige que não se comece a segunda parte, antes de terminada a primeira e de o nome de Jesus ter sido pronunciado com todo respeito. Visto que o Rosário desempenha, quer como ponto de obrigação, quer como ato de piedade, papel importantíssimo na vida dos legionários, fiquem eles aconselhados a inscreverem-se na Confraria do Santíssimo Rosário (Cf. Apêndice 7).                      

O Papa Paulo VI insiste no dever de conservar o Rosário. É verdadeira oração. O seu conteúdo é verdadeiramente bíblico. Resume efetivamente toda a história da salvação e cumpre o propósito essencial de apresentar Maria nas diversas funções que desempenhou nessa história.

“Entre as diversas formas de oração, nenhuma há mais excelente que o Rosário. Resume todo o culto devido a Maria. É o remédio para todos os males e a raiz de todas as bênçãos” (Leão XIII).

“De todas as orações, o Rosário é a mais bela, a mais rica em graças e a mais agradável a Maria, a Virgem Santíssima. Amai, portanto, o Rosário e rezai-o devotamente todos os dias da vossa vida; eis o testamento que vos deixo para que vos recordeis de mim” (S. Pio X).

“Para os Cristãos, o Evangelho é o primeiro dos livros e o Rosário a síntese do Evangelho” (Lacordaire).

            

Disposição do Altar Legionário

O altar não deve ficar fora do círculo da reunião


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 107]

 

“É impossível que as orações de muitos não sejam ouvidas, se essas orações formam uma só oração. (S. Tomás de Aquino: Comentário ao Evangelho de S. Mateus, 18).

                                               

5. Após o Terço, segue-se imediatamente a Leitura Espiritual, feita pelo Diretor Espiritual ou, na sua ausência, pelo Presidente. A sua duração não deve ultrapassar cinco minutos. Embora a escolha da Leitura Espiritual seja livre, recomenda-se vivamente, ao menos durante os primeiros anos de existência do Praesidium, a leitura do Manual, a fim de familiarizar os membros com seu conteúdo e os animar a estudá-lo seriamente.

                                               

No fim da leitura, é costume fazer-se, em conjunto, o Sinal da Cruz.

                                               

“Maria é digna, sem dúvida alguma, de tais palavras de bênção, pelo fato de se ter tornado Mãe de Jesus segundo a carne (“Ditoso o ventre que te trouxe e os peitos a que foste amamentado”); mas é digna delas também e sobretudo porque, logo desde o momento da Anunciação, acolheu e acreditou na palavra de Deus e sempre foi obediente a Deus. Ela, com efeito, “guardava” a palavra , meditava-a “no seu coração” (Cf. Lc 1, 38-45; 2, 19-51) e cumpriu-a em toda a sua vida. Podemos, portanto, afirmar que as palavras de bem-aventurança pronunciadas por Jesus não se contrapõem, apesar das aparências, às que foram proferidas pela mulher desconhecida; combinam, antes com elas na pessoa desta Mãe Virgem, que a si mesma se designou simplesmente como “serva do Senhor” (Lc 1, 38) (RMat 20).

                                                   

6. Lê-se a ata da reunião anterior que, se aprovada pelos presentes, é assinada pelo Presidente. A ata não será longa nem breve demais mas de bom tamanho; as reuniões serão designadas pelo número correspondente.

                                                      

Salientamos já, no capítulo referente ao Secretário, a importância da ata. Sendo esta um dos primeiros assuntos a ser apresentado na reunião semanal do Praesidium, ocupa, digamos assim, uma posição estratégica. Pelo seu conteúdo e pela forma como é lida, exerce uma influência decisiva, positiva ou negativa, sobre o resto da reunião.

                                                    

Atas bem feitas são como o bom exemplo; como o mau exemplo, se são mal feitas. Redigidas com perfeição, se não se lêem como devem, têm de ser classificadas como sem merecimento. O exemplo arrasta; e as atas, perfeitas ou imperfeitas, influenciam a atenção e os relatórios dos membros, de tal modo


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 108]

 

que pode depender delas o bom êxito ou fracasso da reunião que, por sua vez, influenciará o trabalho da semana.

                                                 

Que o Secretário pondere estes motivos, enquanto se entrega ao trabalho silencioso da preparação das atas; e que o Praesidium, para garantia da força da sua ação, exerça neste assunto a máxima atenção.

                                                          

“Seria certamente vergonhoso que, neste ponto, se verificassem as palavras de Cristo: “Os filhos deste século são mais hábeis que os filhos da luz” (Lc 16, 8). Vede com que zeloso cuidado aqueles tratam dos seus negócios e quantas vezes, e com que rigor, fazem o balanço das suas contas, como lamentam as perdas e se resolvem energicamente a recuperá-las” (S. Pio X).

                                                               

7. Ordem Permanente. A seguinte Ordem Permanente deve figurar na Folha de Trabalho ou em outro lugar, de maneira a não passar despercebida no devido tempo e ser lida em voz alta pelo Presidente, na primeira reunião de cada mês, imediatamente depois da assinatura da ata.

 

Instrução Permanente

                                                                    

“O Serviço Legionário exige de cada membro da Legião:

 

Primeiro: A assistência pontual e regular à reunião semanal do Praesidium, onde deve apresentar em voz alta e compreensível o relatório exato do trabalho realizado.

Segundo: A reza diária da Catena.                                                       

Terceiro: A execução de um trabalho legionário, ativo e bem definido, em espírito de fé e união com Maria, de tal forma que, pelo legionário, seja Maria, a Mãe de Jesus, que mais uma vez contemple e sirva a pessoa Adorável de seu divino Filho, naqueles por quem o legionário trabalha e nos seus colegas de ação.                                                                    

Quarto: Segredo absoluto sobre os assuntos tratados em reunião ou conhecidos na realização da atividade legionária”.

                                                                         

“Por meu intermédio, Maria deseja também amar a Jesus, no coração daqueles a quem eu posso inflamar de amor com o meu apostolado e com as minhas orações contínuas. Se me identificar inteiramente com ela, serei coberto tão abundantemente de suas graças e de seu amor, que me tornarei como um rio caudaloso, capaz de, por minha vez, transbordar sobre outras almas. Por mim, Maria poderá amar a Jesus e enchê-lo de alegria, não só por meio


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 109]

 

do meu coração mas também por meio dos inumeráveis corações unidos ao meu” (De Jaegher: A virtude da Confiança. Esta citação não faz  parte da Ordem Permanente).

                                                                                

8. Relatório do Tesoureiro. O Tesoureiro deve apresentar todas as semanas o relatório da situação financeira do Praesidium, expondo as entradas e despesas havidas desde a última reunião e o saldo em caixa.

                                                                                  

“As pessoas perdem-se muitas vezes porque não há dinheiro suficiente para se investir no apostolado” (Mellet, C.S. Sp.).

                                                                                  

9. Apresentação dos relatórios dos trabalhos. Os membros, sentados, apresentam de viva voz, os relatórios dos seus trabalhos, podendo servir-se, se for preciso, de apontamentos.

                                                                                    

O Praesidium não deixará passar, como coisa natural e de pouca importância, a falta de execução do trabalho legionário. Quando alguém, por uma razão válida, não tiver podido desempenhar-se da sua tarefa, deve, sendo possível, apresentar uma explicação. A falta não justificada de um relatório causa nos demais membros uma impressão de desleixo no cumprimento do dever, e constitui um mau exemplo para todos os membros.

                                                                                        

Trabalhem os legionários com seriedade e poucas vezes surgirá a necessidade de se desculparem; e ainda bem, porque num ambiente de desculpas enfraquecem-se o zelo e a disciplina. 

                                                                                         

O relatório não deve ser dirigido só ao Presidente. É que é importante levar em conta um certo processo mental. Quando uma pessoa fala com outra individualmente, a voz ajusta-se automaticamente à distância que as separa e não mais. Isto poderia significar que as palavras dirigidas ao Presidente seriam ouvidas com dificuldade pelas pessoas a maior distância. 

                                                                                      

O relatório bem como toda a discussão sobre o mesmo devem fazer-se num tom de voz que possa ser ouvido por toda a sala. O relatório que, apesar da sua perfeição e fidelidade, não é ouvido por muitos dos presentes, torna-se pior, pelo seu efeito cansativo, do que a sua falta pura e simples. Falar em voz baixa não é sinal nem de humildade nem de boas maneiras, como alguns podem imaginar. Quem igualou jamais a simplicidade e a delicadeza de Maria? E, todavia, quem ousaria imaginá-la falando entre dentes ou de forma que as suas palavras não pudessem ser ouvidas pelas pessoas que a rodeavam? Legionários, nisto como em tudo, imitem a sua Rainha.


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 110]

                                                    

Os Presidentes não devem admitir relatórios que exijam esforço para serem ouvidos. Mostrem-se, por isso, eles próprios, não merecedores de qualquer crítica. É o Presidente que dá o tom aos membros, os quais, em geral, falam ainda mais baixo do que ele. Se, pois, o Presidente fala em tom baixo ou de conversa, os outros hão de responder-lhe em voz sumida, julgando que estão a gritar, se levantarem a voz mais do que ele. Os membros devem insistir com todos, inclusive com o Presidente, para que falem alto. Como médico, que o Diretor Espiritual peça a todos, por sua vez, para se fazerem ouvir perfeitamente, pois, criar boas condições para que todos ouçam, é essencial à saúde do Praesidium.

 

Pela sua função própria, o relatório é tão importante para a reunião como as orações. São dois elementos que mutuamente se completam, ambos necessários à reunião.

                                              

O relatório une o trabalho ao Praesidium. Deve ser, por conseqüência, uma clara exposição das atividades do legionário – tão viva, em certo sentido, como a projeção de um filme – de forma a envolver mentalmente os outros no trabalho apresentado, quer julgando-o, quer comentando-o, quer tirando lições apropriadas. Por conseguinte, o relatório há de revelar o que se tentou fazer, o que se fez de fato, e com que espírito; o tempo empregado; os métodos utilizados; o que não se conseguiu, e as pessoas com quem não se chegou a falar.

                                                 

A reunião será alegre e animada. Por isso, os relatórios serão, ao mesmo tempo, um motivo de interesse e uma fonte de informação. Se a reunião se torna demasiadamente pesada, é sinal muito claro de que o Praesidium não marcha como deve. Resultado: os jovens não entram.

                                                     

Há trabalhos de tal variedade, que fornecem matéria abundante para relatórios interessantíssimos; mas outros existem sem as mesmas possibilidades. Torna-se pois indispensável aproveitar tudo quanto saia fora do comum, embora pareça insignificante, para dar cor e vida à exposição.

                                                      

O relatório não deve ser nem longo nem breve demais, e sobretudo, nada de frases sempre iguais. Uma tendência em qualquer destes sentidos provaria não só que o membro se descuida no cumprimento do seu dever, mas que os outros colaboram com o seu descuido. Tal procedimento vai de encontro ao propósito legionário da orientação do trabalho. O Praesidium não poderá orientar as atividades, a não ser que esteja perfeitamente informado sobre elas.

                                                         

O trabalho da Legião é, em geral, tão difícil que se os membros não forem animados pelo exame cuidadoso que a assembléia


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 111]

 

faz dos seus esforços, podem cair no relaxamento. Ora, tal não deve acontecer. Eles ingressaram na Legião para fazer o maior bem possível e é, provavelmente, nos casos em que as limitações pessoais mais se fazem sentir, que o seu trabalho é mais necessário. Ora, é a disciplina legionária que levará o membro a vencer as próprias fraquezas e a cumprir até o fim o seu dever, disciplina que se exerce sobretudo, através da reunião. Se os relatórios fornecerem apenas vagas informações, vago será também o controle do Praesidium sobre as atividades do membro. Conseqüência inevitável: o Praesidium não o anima nem o defende. O membro perderá o interesse e a orientação do Praesidium, realidade vitais que não podem ser dispensadas. A disciplina legionária perde a sua influência salvadora sobre o membro, com maus resultados, quer para o interessado, quer para o grupo de que faz parte.

                                                    

Nunca esqueçamos que um relatório mal feito arrastará outros no mesmo sentido; é assim a lei da imitação. Pessoas com ótimos desejos de servir a Legião acabarão por prejudicá-la tragicamente.

                                                     

Nenhum legionário se contentará com apresentar apenas um bom relatório. Porque não desejar chegar mais alto e ajuntar por vontade própria, ao cumprimento perfeito do trabalho, um relatório que possa servir de modelo? Desta forma, colabora-se na formação dos outros membros, quer no que se refere à realização do trabalho legionário, quer ao modo de relatá-lo. “O exemplo”, diz Edmund Burke, “é a escola do gênero humano, que não tem outra”. Procedendo assim, um só indivíduo pode erguer um Praesidium ao mais elevado grau de eficiência. É que os relatórios, embora não passem de um dos numerosos elementos da reunião, exercem uma tal influência no conjunto, que, por simpatia, tudo reage com eles, para melhor ou para pior.

                                                           

Apontamos já acima Nossa Senhora como motivo de inspiração para um aspecto do relatório. Mas pensar nela pode ser uma ajuda em qualquer outro aspecto. Um olhar para a sua imagem, antes de começar o relatório, garantirá essa ajuda. É indiscutível que todo aquele que procurar fazer um relatório como, em seu pensar, Nossa Senhora o faria, não poderá deixar de apresentá-lo perfeito sob todos os pontos de vista.

                                                               

“Certos cristãos apenas vêem em Maria uma criatura de beleza e graça incomparáveis, a mulher mais terna e amável que jamais existiu. Arriscam-se, assim, a não ter para com ela senão uma devoção sentimental ou, – se são de bom caráter – a sentir-se pouco


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 112]

 

atraídos pela mãe de Deus. Nunca repararam que esta Virgem tão terna e esta Mãe tão carinhosa é também a Mulher forte por excelência, e que nunca homem algum a igualou em fortaleza de caráter. (E. Neubert: Maria no Dogma).

                                                                      

10. A Catena Legionis (Cf. Capítulo 22: Orações da Legião) será rezada por todos, de pé, no momento fixado, mais ou menos a meio do tempo que vai da assinatura da Ata ao fim da reunião, ou seja, numa reunião normal de hora e meia, uma hora depois do início.

                                                                        

A antífona é rezada por todos; o Magnificat, alternado pelo Diretor Espiritual (ou, na sua ausência, pelo Presidente) com os assistentes; e a oração final só pelo Diretor Espiritual (ou Presidente).

               

O Sinal da Cruz não se faz antes da Catena, mas é feito por todos por ocasião da reza do primeiro versículo do Magnificat. Não se faz depois da Oração, porque se segue imediatamente a Alocução.

                                                                           

Nada há mais belo na Legião do que a reza comunitária da Catena. Quer o Praesidium se encontre cheio de júbilo ou mergulhado na tristeza, quer ande penosamente pelos caminhos estreitos do dia-dia, a Catena vem como brisa do céu, cheia dos perfumes daquela que é a rosa e o lírio dos vales, trazer a todos, maravilhosamente, o frescor e a alegria. Isto não é apenas uma descrição graciosa, mas uma realidade que dá para sentir – como muito bem o sabem todos os legionários!

                                                                             

“Se insisto no Magnificat, é que vejo nele, mais do que comumente se pensa, um documento de excepcional importância para a maternidade espiritual de Maria. A Virgem Santíssima unida a Cristo desde o momento da Encarnação do Verbo, declara-se representante de gênero humano, intimamente associada “a todas as gerações” e ao destino de Seus verdadeiros filhos. Este Cântico é o hino da sua maternidade espiritual” (Bernard, O.P.: O Mistério de Maria).

                                                                                   

 “O Magnificat é a oração por excelência de Maria, o cântico dos tempos messiânicos no qual se encontram a exaltação do antigo e do novo Israel, pois conforme parece querer sugerir S. Irineu, no cântico de Maria, é lembrado o júbilo de Abraão, que pressentia o Messias (cf. Jo 8, 56), e ressoou, profeticamente antecipada, a voz da Igreja... Este cântico da Virgem Santíssima na verdade, prolongando-se, tornou-se oração da Igreja inteira, em todos os tempos” (MCul 18).


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 113]

                                                                                  

11. Alocução(1). Depois de todos se assentarem, o Diretor Espiritual lhes dirigirá uma breve alocução. Esta tomará a forma de comentário ao Manual, a não ser que circunstâncias extraordinárias exijam outra coisa, afim de que os membros se familiarizem com o seu conteúdo, em todos os pormenores. Os membros deverão tê-la em grande consideração, pois desempenha papel importantíssimo na sua formação e progresso. Os responsáveis por tal formação cometem uma injustiça para com os membros e para com a Legião, se não procuram tirar deles o rendimento máximo. Para isso, torna-se absolutamente necessário dar-lhes um conhecimento perfeito da organização. O estudo do Manual é um meio excelente, mas nunca poderá substituir a Alocução. Alguns legionários pensam ter estudado o Manual de modo satisfatório só porque o leram atentamente duas ou três vezes. Ora nem dez nem vinte leituras darão a conhecer a Legião como ela deseja ser conhecida. Tal objetivo só se conseguirá à força de muitas explicações e comentários orais, semana após semana, ano após ano, quando todos os membros se familiarizarem completamente com as idéias nele contidas.

(1) Alocução era o discurso do General Romano aos seus legionários.

                                                                      

Na ausência do Diretor Espiritual, o comentário fica a cargo do Presidente ou de outro membro por este designado. A simples leitura do Manual, ou de qualquer outro documento, insistimos, não pode substituir a alocução.

 

A alocução não deverá ultrapassar cinco ou seis minutos.

                                                                          

A diferença, entre o Praesidium em que a Alocução é bem feita, e o Praesidium em que é mal feita, é profunda: ou seja, de um lado um exército instruído e disciplinado e, do outro, um corpo de tropas sem treino nem lei.

                                                               

“Tenho, desde há muito tempo, o pressentimento de que, à medida que o mundo vai piorando e Deus é, por assim dizer, afastado dos corações dos homens, o mesmo Senhor espera ansiosamente grandes feitos de quantos lhe permanecem fiéis. Talvez não possa juntar à volta do seu Estandarte um exército numeroso, mas quer que cada um seja um herói, entregando-se inteira e amorosamente à sua causa. Se nós pudéssemos entrar neste círculo mágico de almas generosas, creio não haver graça que ele não derramasse sobre nós para nos ajudar no trabalho tão querido do seu coração: a nossa santificação pessoal” (Alfredo O’ Rahilly: Vida do Padre Guilherme Doyle).


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 114]

                                                                

12. Terminada a Alocução, toda a assistência faz o Sinal da Cruz, e retomam-se de novo os relatórios e os outros assuntos da reunião.

                                                                

“O fato histórico é que a fala de Nossa Senhora era a fala de uma mulher extraordinariamente educada. A sua inclinação natural faria dela, com facilidade, uma poetisa. De cada vez que falou, as suas palavras fluíram em ritmo poético. A sua frase era a linguagem graciosa dos artistas da palavra” (Lord: Nossa Senhora no Mundo Moderno)

                                                                    

13. Coleta secreta. Imediatamente após a Alocução faz-se a coleta secreta, contribuindo cada um conforme as suas posses. Esta tem por fim pagar as despesas do Praesidium e ajudar a Curia e os Conselhos superiores a enfrentar as suas obrigações. Eles não dispõem de outros meios para se manterem, desempenharem as suas funções de dirigirem e expandirem a Legião, senão a soma recebida dos Praesidia (Ver cap. 35 “Receitas e Despesas”).

                                                                       

A coleta não deve interromper o curso da reunião. Passam a bolsa uns aos outros com naturalidade e, mesmo que não possam contribuir com coisa alguma, todos devem colocar a mão dentro dela.

                                                                        

Haverá para isso uma bolsa própria. Não convém usar, para tal fim, uma luva ou um saco de papel.

                                                                        

A coleta é secreta, porque é necessário pôr no mesmo plano, perante o Praesidium, os membros que têm meios e aqueles que não os têm. Por isso, respeite-se o seu caráter secreto: nenhum membro pode revelar a outro o valor da sua contribuição. Por outro lado, todos devem compreender que não só o Praesidium, mas a Legião inteira dependem, no seu funcionamento e progresso, do donativo de cada legionário. Por isso, não se considere o fato como mera formalidade. A obrigação de contribuir não fica cumprida, dando uma quantia tão pequena que ela nada signifique para o doador. A este é dado o privilégio de participar, ao longe, na missão da Legião. O ato de contribuir para a fundo comum é um dos meios de exercer o sentido da responsabilidade e da generosidade.

                                                                         

Só é secreta a contribuição pessoal. A soma total pode ser anunciada; deve evidentemente ser registrada nos livros e ser comunicada ao Praesidium.

                                                                            

“Quando Jesus louvou a oferenda da viúva, “que dá, não do que lhe sobra, mas da sua mesma pobreza” (Lc 21, 3-40), somos levados


[Capítulo 18      Ordem a Observar na Reunião do Praesidium      página 115]

 

a pensar que Jesus tinha na mente Maria, Sua Mãe” (Orsini: História da Santíssima Virgem).

                                                                             

14. Fim da reunião. Uma vez tratados todos os assuntos, inclusive feita a distribuição do trabalho e a marcação das presenças, a reunião termina com as Orações Finais e a bênção do Sacerdote.

                                                                             

Não deve durar mais de hora e meia, contada a partir do momento estabelecido para começar.

                                                                                    

“Digo-vos ainda que, se dois de vós se reunirem sobre a terra a pedir qualquer coisa, esta lhe será concedida por Meu Pai que está nos céus. Porque, onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18, 19-20).

 

19

 

A REUNIÃO E O MEMBRO

                                              

1. Respeito pela reunião. Na ordem natural a transmissão da energia depende do estabelecimento ou do rompimento de uma ligação. Assim acontece também na Legião de Maria: a falha num só ponto pode ser fatal. Poderá um membro assistir às reuniões e, todavia, partilhar pouco ou nada do entusiasmo, da generosidade e da força que, como acima dissemos, constituem a vida legionária. Deve existir união entre a reunião e o membro, para o que não basta a simples assistência material. Exige-se, além desta, a presença de um elemento que ligue verdadeiramente o membro à reunião: esse elemento é o respeito. Na organização legionária, tudo depende do respeito do membro pela reunião; respeito que se manifesta pela obediência, fidelidade e estima.

                                                            

2. O Praesidium deve merecer este respeito. Uma organização, cujos ideais não se elevam acima do nível médio dos seus membros, está com falta da primeira qualidade de um líder, e não se fará respeitar por muito tempo.

                                                              

3. O Praesidium deve respeitar os regulamentos. A vida legionária comunica-se aos membros na medida em que cada um respeita o Praesidium. Consistindo esta vida, essencialmente, num generoso esforço para atingir a perfeição, o Praesidium deve es-


[Capítulo 19      A Reunião e o Membro      página 116]

 

forçar-se por merecer o máximo respeito, a fim de exercer sobre todos a mais benéfica influência. O Praesidium, que reclama dos seus membros um respeito que ele mesmo não tem às regras pelas quais se orienta, procura construir sobre a areia. Eis a razão por que, nas páginas deste Manual, insistimos tanto na necessidade de seguir à risca a ordem traçada para as reuniões e em geral, os processos que expomos.

                                                                

4. O Praesidium deve ser modelo de firmeza. A Legião exige que tudo quanto se diz e se faz nas reuniões sirva de exemplo a todos, mesmo aos mais zelosos dos membros. Dados os múltiplos aspectos da vida do Praesidium, não se torna coisa difícil. O legionário, individualmente, pode ver-se, de momento, impedido de cumprir os seus deveres, seja por doença, seja por gozo de férias, seja por circunstâncias inevitáveis: o Praesidium, porém, composto de elementos vários, nunca impedidos todos ao mesmo tempo, fica acima de tais limitações.

                                                                     

A reunião semanal nunca deve deixar de realizar-se, a não ser por impossibilidade absoluta. Se é realmente impossível reunir no dia habitual, transfere-se a reunião para outro dia. O fato de grande número de membros não poder estar presente não é motivo para a suprimir. É melhor reunir, embora em número reduzido, do que não reunir. Pouco se resolverá, com certeza, em tal reunião, mas o Praesidium desempenhou-se de um dos seus mais importantes deveres. E os assuntos tratados nas reuniões seguintes hão de lucrar grandemente, dado o profundo respeito instintivamente sentido por todos para com o Praesidium, que marcha avante, acima dos elementos que o compõem, firme no meio das suas fraquezas, dos seus erros e dos seus compromissos variados, refletindo assim, embora palidamente, a característica principal da Igreja.

 

5. Aquecimento e luz. A sala das reuniões deve estar bem iluminada e a uma temperatura agradável. O descuido neste ponto converterá a reunião em penitência, quando devia ser um prazer, e prejudicará fatalmente o futuro do Praesidium.

 

6. Assentos. Tenha-se o cuidado de que haja cadeiras ou, ao menos, bancos, para se sentarem. Se os membros se sentam aqui e ali, em carteiras escolares ou em outros assentos improvisados, cria-se um ambiente de desordem, com que o espírito da Legião, que é um espírito de ordem, nada terá a lucrar.


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7. Os Praesidia devem se reunir em horas convenientes. O fato de que a maior parte das pessoas trabalha durante o dia, exige que as reuniões se façam geralmente à noitinha ou no Domingo. Mas por outro lado, há muitos que trabalham à tardinha e de noite e importa considerar isso, marcando as reuniões em horas que lhes convenham.

 

Devemos ter igualmente em consideração os que trabalham por turnos, isto é, aqueles cujas horas de trabalho, mudam periodicamente. Dois Praesidia com horas de reunião bem distanciadas podem cooperar para os receber. Estes legionários participarão uma semana em um, outra semana em outro, à reunião dos Praesidia, conforme o seu tempo livre. Para se assegurar da continuidade da sua presença e do seu trabalho, os Praesidia precisam de se manter em estreito contato um com o outro.

 

8. Duração das reuniões. A reunião não durará mais de hora e meia, a contar do momento da abertura. Se acontece que, apesar de uma eficiente direção da reunião, com o seu encerramento automático, certos assuntos têm de ser interrompidos com freqüência ou tratados apressadamente, é sinal de que o Praesidium tem trabalho excessivo e, neste caso , convém pensar no seu desmembramento.

 

9. Duração insuficiente das reuniões. Não está determinada a duração mínima da reunião. No entanto, se esta durasse normalmente menos de uma hora – sendo meia hora ocupada pelas orações, leitura espiritual, ata e alocução – tinha fatalmente de apresentar algum defeito, que seria preciso curar, quer isso acontecesse por causa do pequeno número de membros, quer pela quantidade insuficiente de trabalho, quer pela qualidade inferior dos relatórios. Nos meios industriais, seria considerado erro grave de método, o fato de não se tirar das máquinas o rendimento máximo, quando os mercados não faltam. Do mesmo modo, é preciso tirar o melhor rendimento possível da organização legionária. Quem ousará insinuar que não há necessidade do mais elevado rendimento possível na ordem espiritual?

 

10. Chegada ou partida fora de hora. Os atrasados para as Orações Iniciais deverão ajoelhar e rezar a sós, as orações que precedem o Terço e as invocações que se lhe seguem. Mas faltar ao Terço constitui uma perda irreparável. De qualquer modo, quem tiver de sair antes do final da reunião pedirá licença ao Pré-


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sidente e, concedida esta, deverá ajoelhar e rezar a oração “A vós recorremos” e as outras invocações finais da Tessera.

 

Nunca, em circunstâncias alguma, se permitirá que um membro chegue tarde ou parta antes do fim da reunião de modo habitual. Pode-se, é certo, trabalhar e apresentar o respectivo relatório, mas a indiferença com que se falta às orações iniciais ou finais da reunião revela uma mentalidade desinteressada ou mesmo agressiva ao espírito da Legião, que é espírito de oração. A presença de tal membro traz mais prejuízo que proveito.

 

11. A boa ordem, raiz da disciplina. Sem espírito de disciplina, a reunião é como uma cabeça lúcida num corpo paralisado, incapaz de controlar os excessos dos membros, de os estimular e de os formar. A Legião conta, por isso, para desenvolver o espírito de disciplina:

 

a) com a conformidade exata com o quadro regulamentar da reunião;

 

b) com a exposição ordenada, ponto por ponto, dos assuntos da Folha da Trabalho;

 

c) com a fidelidade com que estes devem ser tratados de harmonia com o Manual;

 

d) e com o espírito marcadamente mariano, como incentivo desta ordem. Sem disciplina, os membros se deixarão arrastar pela tendência muito humana de trabalharem isolados; de evitarem, quanto possível, o controle dos trabalhos; de se entregarem a obras ditadas pelo capricho de momento e de as fazerem como quiserem. Que bons frutos se poderão esperar de tal procedimento?

 

Ao contrário, na disciplina voluntariamente aceita e consagrada às causas de Deus, reside uma das mais poderosas forças do mundo. E esta disciplina torna-se irresistível, quando usada com firmeza, mas sem rigidez, e em perfeita harmonia com a Autoridade da Igreja.

 

No seu característico espírito de disciplina, possui a Legião um tesouro, de que outros, fora dela, podem se beneficiar. Graça sem medida, num mundo que se agita inutilmente entre dois pólos opostos, o tudo proibir e o tudo permitir. A falta de disciplina interior pode disfarçar-se debaixo de uma disciplina exterior sólida, produto da tradição ou da força. Quando os indivíduos ou as coletividades dependem apenas desta disciplina externa são derrotados tragicamente, se a disciplina interior se frustra, como acontece nos momentos de crise. A afirmação da importância da disciplina interior sobre todo o sistema de disciplina externa não significa, porém, que esta não tenha valor. Na


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realidade, uma exige a outra. Quando as duas se entrelaçam, em devidas proporções, com o suave motivo de religião, dispomos de uma tríplice corda que – no dizer da Escritura – “não se romperá com facilidade” (Ecl 4,12).

 

12. Importância suprema da pontualidade. Sem pontualidade não se pode cumprir o mandamento do Senhor: “Põe a tua casa em ordem” (Is 38, 1). A organização que admite a desordem na formação dos seus membros, concorre para a sua perversão. Além disso, perde o direito ao respeito, que é a base de toda a reta educação e disciplina. A desconsideração deste princípio vital, que poderia ser tão facilmente remediado, só é comparável à conhecida falta de responsabilidade do comandante que deixa afundar o navio por não querer jogar fora um pouco da carga.

 

Coloca-se, por vezes, em cima da mesa, com todo o cuidado, um relógio, que não exerce a mais leve influência no curso da reunião. Se, noutros casos, desempenha algum papel, é apenas quanto ao princípio, meio e fim da reunião, e não quanto ao controle dos relatórios e de outros assuntos. Ora, o princípio da pontualidade e da ordem deve aplicar-se a todos os pontos da Folha de Trabalho, desde o início até ao fim.

 

Se os Oficiais não respeitam estas diretrizes, os membros devem protestar, caso contrário, estarão a ajudá-los e tornando-se também responsáveis por essa falha.

 

13. Como rezar as orações. Há almas impetuosas que têm dificuldade em conter-se, mesmo na forma de rezar. Semelhante incorreção, vinda sobretudo de pessoas de autoridade, pode arrastar o Praesidium inteiro para uma maneira de rezar que se aproxima do desrespeito. Se há, de fato, uma falta mais ou menos geral, é a excessiva pressa com que se rezam as orações, parecendo desprezar a norma legionária que manda rezar como se Nossa Senhora estivesse visivelmente presente no lugar da sua imagem.

 

14. As orações fazem parte integrante da reunião. Por diversas vezes se tem sugerido a conveniência de rezar o Terço diante do Santíssimo Sacramento, dirigindo-se em seguida os membros para o local da reunião. Não se pode admitir tal proposta, pela necessidade de salvaguardar a unidade da reunião, que a organização legionária considera essencial. Formando a reunião uma unidade inseparável, todos os assuntos nela tratados recebem uma singular marca de oração – fecundíssima em heroísmo e esforço; e tal característica se perderia, se a maior parte das orações fosse rezada noutro lugar. Essa mudança trans-


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formaria por completo o caráter da reunião e, conseqüentemente, o da própria Legião, que nela se alicerça. Por mais consideráveis que fossem nesse caso os méritos da organização, não se trataria já da Legião de Maria. Torna-se, por isso, desnecessário declarar também que a retirada do Terço ou de qualquer outra oração da Tessera – quaisquer que sejam as circunstâncias – é ainda menos aceitável. O Terço é para a reunião legionária o que a respiração é para o corpo humano.

 

15. Os exercícios de culto e a reunião. Pelas razões já apontadas, um Praesidium, que rezou as orações da Legião na igreja ou numa função que antecedeu a reunião, é obrigado a rezar de novo por inteiro as orações da Legião na reunião do Praesidium.

 

16. Orações especiais na reunião. Pergunta-se freqüentemente se é permitido oferecer as orações da reunião por intenções especiais. Como os pedidos são numerosos torna-se necessário esclarecer este assunto: – a) Se se trata de oferecer as orações normais da reunião por intenções especiais, está decidido que tais preces devem ser oferecidas pelas intenções da Santíssima Virgem, Rainha da Legião, e por mais nenhuma intenção. b) Se se trata de ajuntar outras orações por uma intenção particular, às orações da Legião, está resolvido que, sendo as orações prescritas já bastante longas, não devem, de modo habitual, acrescentar-se mais. Admite-se, todavia, que uma vez ou outra, haja interesses de excepcional importância para a Legião que reclamem súplicas extraordinárias e, nesse caso, poderá ajuntar-se uma breve oração. Mas, insistimos, tais casos devem ser raríssimos. c) É evidente, porém, que se podem recomendar intenções especiais à piedade particular dos membros.

 

17. Os relatórios e a humildade. Muitos membros pretendem justificar a pobreza dos seus relatórios, declarando que é contrário à humildade, fazer propaganda das nossas boas obras. Há neste modo de pensar um orgulho disfarçado com capa de humildade, a que os poetas chamam de pecado preferido do diabo. Cuidem pois, os legionários, para que em tais sentimentos, em vez de humildade não se escondam as espertas armadilhas do orgulho e um desejo não pequeno de esconder as atividades, próprias ao controle rigoroso do Praesidium. A verdadeira humildade não tenderá, com certeza, a seguir uma falsa diretriz que, ado-


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tada pelos demais, arrastaria o Praesidium ao abismo. Ao contrário, a simplicidade cristã encoraja os membros a evitarem os seus gostos pessoais, a submeterem-se com docilidade às regras e práticas da organização e a cumprirem plenamente seus deveres que, embora individuais, não são menos necessárias à reunião da qual cada relatório é elemento indispensável.

 

18. A harmonia, expressão de unidade. A harmonia é a exteriorização do espírito de caridade e deve, por isso, reinar, como virtude maior, na reunião. A eficiência, como a Legião a entende, não exclui a harmonia. O bem, realizado à sua custa, é de qualidade duvidosa. Por isso, os legionários evitarão como verdadeira peste todas as faltas que lhe são diretamente opostas, como o desejo de domínio, a crítica, o mau humor, o cinismo, e os ares de superioridade que, mal entram na reunião, destroem a harmonia.

 

19. O trabalho individual interessa a todos. O modo como todos participam, por igual, nas orações do princípio da reunião deve caracterizar a explanação dos assuntos subseqüentes. Nada, portanto, de conversas particulares ou risos indevidos entre vizinhos. Faça-se saber aos membros que cada caso é do interesse de todos os presentes e não só de um ou dois nele diretamente envolvidos. Ouvindo os relatórios, os assistentes visitam em espírito os lugares e pessoas por eles referidos. Sem esta convicção, o trabalho dos outros será seguido apenas superficialmente. Ora, a todo instante, os legionários presentes deviam, não só prestar aos fatos narrados, a atenção que se dá ao relato interessante de qualquer trabalho, mas sentir-se intimamente, pessoalmente, ligados aos mesmos.

 

20. O segredo é de suma importância. A Instrução Permanente, que todos os meses ressoa aos ouvidos dos membros, deve convencê-los da importância fundamental do segredo, dentro da Legião.

 

Se é vergonhosa a falta de coragem no soldado, a traição é infinitamente pior. Ora, é trair a Legião repetir fora o que se conheceu na reunião do Praesidium. Mas em tudo há um justo limite. Encontram-se, por vezes, legionários exageradamente cuidadosos que defendem, para proteger os interesses da caridade, que não se devem revelar ao Praesidium os nomes em casos de afastamento dos deveres religiosos. Dentro desta sugestão, aparentemente louvável, oculta-se um erro e uma ameaça à própria vida da Legião. Nestas condições, o Praesidium não poderia trabalhar.


[Capítulo 19      A Reunião e o Membro      página 122]

 

Adotar tal maneira de agir seria contrário aos usos de todas as Sociedades, as quais discutem livremente os casos que lhes dizem respeito.

 

A conclusão lógica de tal pretensão deveria levar os companheiros de visita a guardarem segredo com prejuízo um do outro.

 

O centro de ação, do saber e da caridade, não está no indivíduo nem nos dois visitantes, mas no Praesidium – a que devem referir-se, em pormenor, todos os casos de rotina. Negar-lhe os relatórios é quebrar a unidade e, com a desculpa de defendê-los, prejudicar os verdadeiros interesses da caridade.

 

Não há comparação com o caso do sacerdote, a quem as funções sagradas colocam num plano diferente. O legionário na sua visita domiciliar, conhece apenas o que conheceria qualquer pessoa de respeito, e que, as mais das vezes, corre já de boca em boca entre os inquilinos do prédio ou os vizinhos do bairro.

 

Dispensar membros da obrigação de apresentarem os relatórios completos da própria atividade é apagar a consciência do seu controle rigoroso, fator importantíssimo na organização legionária. Sem ela não há possibilidade de dar um conselho ou diretriz positiva, fazer uma apreciação, frustrando-se desta maneira o propósito essencial do Praesidium. Torna-se impossível, além disso, a formação e proteção dos membros, ambas baseadas no conteúdo dos relatórios. Tirem o relatório semanal detalhado, do trabalho dos membros, e ficará aberta a porta a todo tipo de imprudências. Em casos deste tipo, não deixem que as críticas recaiam injustamente sobre a Legião.

 

Pior ainda: com este proceder se enfraquecem os vínculos do próprio segredo. Porque a garantia do segredo legionário – tão bem guardado até ao presente – está na superioridade poderosa do Praesidium sobre os membros. Se esta superioridade diminui, os vínculos do segredo enfraquecem. Numa palavra, o Praesidium é não só o centro da caridade e da discrição mas também a sua defesa.

 

Os relatórios devem revestir-se do caráter de segredos de família, e, como tais, ser discutidos com plena liberdade, até se provar que tenham sido revelados a pessoas estranhas ao Praesidium. O remédio, então, consiste, não em omitir os relatórios, mas, com caridade e firmeza, chamar a atenção de quem tiver cometido tal imprudência.

 

Há todavia, casos excepcionais, em que as circunstâncias podem aconselhar um segredo absoluto. Recorra-se então ao Diretor Espiritual (ou, na sua ausência, a outro conselheiro competente), que decidirá qual a maneira de proceder.


[Capítulo 19      A Reunião e o Membro      página 123]

 

21. Liberdade de discussão. Será lícito a alguém manifestar a sua discordância com relação aos métodos empregados na reunião? A este respeito o ambiente do Praesidium não deve ser rigoroso mas antes “familiar”. Aceitem-se, com reconhecimento, as observações oportunas dos membros. Mas que elas não tomem nunca, é evidente, o tom de desafio ou de falta de respeito para com os Oficiais.

 

22. A reunião, amparo da perseverança do membro. É próprio do homem desejar com impaciência os frutos visíveis de suas canseiras, e mostrar-se, em seguida, descontente com os resultados. Ora, os resultados palpáveis são sinal pouco seguro do sucesso de uma obra. A tal membro, basta-lhe estender a mão para a recolher cheia; mas um outro, depois de um trabalho que exigiu uma dedicação heróica, acha-se de mãos vazias. O sentimento de haver gasto em vão os seus esforços leva ao desânimo e à desistência da obra. Qualquer empreendimento, avaliado só pelos resultados aparentes, é, portanto, areia movediça, incapaz de sustentar por muito tempo os membros da organização. Ora, é absolutamente necessário um apoio sólido. O legionário o encontrará em tudo aquilo que caracteriza a reunião do Praesidium: riqueza de oração, cerimonial próprio, ambiente particular, relatórios semanais dos trabalhos realizados, santa camaradagem, força da disciplina, vivo interesse e até a ordem e a limpeza.

Na reunião, nada gera o sentimento de havermos trabalhado inutilmente; nada tende a enfraquecer os vínculos legionários, pelo contrário, tudo contribui para os estreitar cada vez mais. E à medida que as reuniões vão acontecendo, umas após outras, criam em nós a impressão de uma máquina que, rodando com suavidade, atinge infalivelmente o seu fim, dando aos membros a firme garantia de um trabalho frutuoso, garantia de que depende a sua perseverança.

 

Abram os legionários, os horizontes do espírito e vejam neste mecanismo, que é a Legião, a máquina de guerra de que Maria quer valer-se para estender o reinado de seu divino Filho. São eles as peças desta máquina, cujo funcionamento depende do ajuste voluntário e generoso de cada um. Se forem fiéis às suas obrigações, a máquina trabalhará perfeitamente e a Santíssima Virgem há de utilizá-la para realizar os seus projetos. Os resultados serão excelentes, pois “só Maria conhece plenamente o que resulta em maior glória de Deus” (S. Luís de Montfort).


[Capítulo 19      A  Reunião e o Membro      página 124]

 

23. O Praesidium é uma “presença” de Maria. Os conselhos dados neste capítulo destinam-se a uma mais perfeita integração dos indivíduos num organismo de enormes potencialidades no apostolado oficial e pastoral da Igreja. A relação entre este apostolado coletivo e o apostolado individual é comparável à relação entre a liturgia e a oração particular.

 

Este apostolado está unido à Maria que “deu à luz do mundo a própria Vida que tudo renova” e é sustentado pelos seus cuidados maternais. “Deus adornou-a com dignos de uma tão grande missão” (LG 56). Maria continua a exercer essa missão pelo ministério de quantos estejam dispostos a ajudá-la. O Praesidium coloca à sua disposição um grupo de pessoas, ansiosas por ajudá-la na Sua função. Maria aceitará com certeza esta ajuda. Podemos, pois, imaginar que um Praesidium é como uma Presença local de Maria; por ele distribuirá suas graças especiais e reproduzirá a sua maternidade. É justo esperar, por isso, que um Praesidium, fiel aos seus ideais, espalhará à sua volta, vida, renovação, remédios e soluções. Os lugares com problemas deveriam aplicar este princípio espiritual.

 

“Meu filho..., mete os teus pés nas suas correntes e o teu pescoço nas suas cadeias. Baixa o teu ombro e leva-a às costas, e não te desgostes com os seus vínculos. Aproxima-te dela de todo o teu coração, e guarda os seus caminhos com todas as tuas forças... E a suas correntes serão para ti uma forte proteção e um firme apoio, e as suas cadeias um vestido de glória; porque nela está a beleza da vida e os seus vínculos são uma ligadura salutar” (Eclo 6, 25-30).

 

20

 

O SISTEMA LEGIONÁRIO NÃO DEVE SER ALTERADO

 

1. A Legião faz saber aos seus membros que não tem a liberdade de mudar ou variar, como lhes agrade, os seus regulamentos e práticas. O sistema legionário é este – e não outro. Qualquer mudança, por menor que pareça, arrasta inevitavelmente a


 

[Capítulo 20      O Sistema Não Deve Ser Alterado       página 125]

 

 

outras, a ponto de nos encontrarmos dentro de pouco tempo, perante um organismo que de Legião pouco ou nada terá a não ser o nome. A Legião não hesitaria em desaprovar tal organismo, por mais valioso que fosse, em si o trabalho que realizasse.

 

2. A experiência tem demonstrado que o nome de uma organização representa, muito pouco para certas pessoas que consideram tirania o sistema que não lhes permite cobrir com a sua bandeira as caprichosas invenções da sua imaginação.

 

Às vezes os “modernizadores” tentam alterar quase tudo na Legião, conservando, entretanto, o seu nome. Não se darão eles conta de que a transferência ilegal para a sua posse, da posição e da qualidade de membros da Legião, seria o pior dos roubos, visto ser de ordem espiritual?

 

3. Há localidades – como há, também, pessoas – inclinadas a admitir que vivem fora do comum, e que o seu caso merece legislação especial. Daí, os pedidos que de vez em quando nos dirigem para que o sistema da Legião se ajuste a circunstâncias julgadas extraordinárias. O atendimento de tais pedidos, traria desastrosas conseqüências. É que, de um modo geral, essas petições provêm, não da necessidade (pois a Legião manifestou já a sua universal capacidade de adaptação), mas da atuação de um falso espírito de independência que, em vez de atrair as bênçãos do Céu, terá como resultado a ruína do organismo. Como, todavia, nem sempre é possível convencer toda a gente de que isto é assim, saibam ao menos aqueles que se dão o direito de interpretar pessoalmente os regulamentos legionários, que a sua própria honra os obriga a não cobrir os seus ajustes com o nome da Legião.

 

4. Além disso, a imitação de alguns elementos do sistema legionário, que certos grupos tentam praticar, nunca consegue comunicar a doçura e a inspiração próprias do original. O resultado vulgar duma tal operação cirúrgica é um cadáver ou, na melhor das hipóteses, uma bela máquina e nada mais. Que grave responsabilidade quando de tudo isto colhemos resultados pobres ou nulos!

 

5. A razão principal dos diversos Conselhos da Legião é, precisamente, conservar       inviolável o sistema da Legião. Custe o que custar, devem ser fiéis ao cargo de confiança que lhes foi entregue.


[Capítulo 20      O Sistema Legionário Não Deve Ser Alterado      página 126]

 

“O sistema da Legião de Maria é excelente” (Papa João XXIII).

 

“Deveis aceitar tudo ou rejeitar tudo. A diminuição enfraquece; a amputação mutila. É uma loucura aceitar tudo exceto uma parte que pertence à integridade do todo como qualquer outra (Cardeal Newman, “Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã”).

 

21

 

O MÍSTICO LAR DE NAZARÉ

 

A doutrina do Corpo Místico de Cristo pode aplicar-se, particularmente, às reuniões da Legião, sobretudo à do Praesidium, coração do sistema legionário. “Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estarei Eu no meio deles” (Mt 18, 20). Estas palavras do Senhor nos garantem que a influência da Sua presença nos membros do Seu Corpo Místico é proporcional, em intensidade, ao número daqueles que se juntam para servi-lo. O número de pessoas é uma condição citada por Jesus para a manifestação completa do Seu poder. Isto resulta talvez da nossa deficiência individual, que não permite a Cristo revelar-se plenamente através das poucas virtudes de uma só pessoa. Ilustremos a doutrina com um exemplo simples e natural. Um vidro colorido deixará passar a luz da sua cor, impedindo todas as mais. Tomemos, porém, tantos vidros coloridos, como diversas são as cores e verificaremos que da fusão dos raios projetados por todos eles, resulta a luz em sua plenitude. De modo semelhante, quando os cristãos se unem mais ou menos numerosos com o fim de servir a Deus, as suas virtudes completam-se mutuamente, oferecendo ao Senhor a possibilidade de manifestar melhor através deles, a Sua perfeição e o Seu poder.

 

Quando os legionários se reúnem no Praesidium em nome e para o serviço de Jesus Cristo, podem estar certos de que Ele está presente como a Sua poderosíssima influência. Não é evidente que, nesse lugar, sai d’Ele uma extraordinária virtude? (Mc 5, 30).

 

Com Jesus, nesta pequena família legionária, estão também Maria e José, que mantêm para com o grupo a mesma relação íntima que os une a Jesus. Deste modo, o Praesidium pode considerar-se como uma projeção do Lar de Nazaré, não apenas por um simples sentimento de devoção, mas com base na realidade. “Somos obrigados”, escreveu Bérulle, “a tratar os atos e misté-


[Capítulo 21      O Místico Lar de Nazaré      página 127]

 

rios de Jesus, não como passados e mortos, mas como vivos, presentes e até eternos”. Seja-nos permitido, por conseguinte, identificar, na nossa piedade, o local e os objetos do Praesidium com a construção e mobília do Santo Lar, e considerar o comportamento dos membros com aqueles, como prova da sua consideração pela verdade que Cristo vive em nós e trabalha por nós, servindo-se necessariamente das coisas que nós utilizamos.

 

Sirva este pensamento para animar os membros a prestarem uma escrupulosa atenção a tudo quanto se refere ao Praesidium e forma o lar legionário.

 

Embora o controle do local das reuniões possa ser limitado, não acontecerá assim com o restante: a mesa, as cadeiras, o altar, os livros. Ora, quais são as possibilidades oferecidas pelos legionários a Maria, a Mãe do Praesidium – Lar de Nazaré – para reproduzir neste o dedicado governo doméstico, outrora iniciado na Galiléia? Maria precisa da nossa colaboração. Se negarmos isso a Ela ou o fizermos de modo descuidado, poremos a perder o Seu trabalho a favor do Corpo Místico de Cristo. Que esta idéia leve os legionários a imaginar como Maria cuidava da sua casa.

 

Casa pobre, mobília simples. No entanto, como tudo respirava beleza! Entre as esposas e mães de todos os tempos, não houve quem se comparasse a Ela no gosto requintado e primoroso, que transparecia em cada objeto da sua casa. Como eram encantadores os pormenores mais singelos, as coisas mais simples. É que Maria amava todas as coisas – como só Ela era capaz de amar – por causa d’Aquele que as criara e que agora se servia delas como ser humano. Cuidava delas, limpava-as, dava-lhes brilho e procurava embelezá-las; cada uma a seu jeito, tinha de ser perfeita. Estejamos certos de que não havia nada desorganizado em toda a casa. Não havia, com certeza. Aquela pequena morada não tinha semelhante: era o berço da Redenção, a moldura do Senhor do Mundo. Cada objeto – fato estranho! – servia para educar Aquele que criara o universo. Por isso, tudo se adaptava a tão sublime propósito, pela ordem e limpeza, pelo brilho, pelo toque perfeito dado por Maria.

 

Cada um dos objetos que pertence ao Praesidium concorre, a seu modo, para formar os membros e deverá, por conseguinte, refletir as características do Lar de Nazaré, assim como os legionários hão de refletir Jesus e Maria.

 

Um escritor francês intitulou assim uma das suas obras “Viagem à volta do meu quarto”. Eis a viagem que os legionários devem fazer à volta do seu Praesidium. Examinem com sentido


[Capítulo 21      O Místico Lar de Nazaré      página 128]

 

crítico tudo quanto lhes ferir o olhar e os ouvidos: o assoalho, as paredes e as janelas; a mobília; os objetos do altar; e, de modo especial, a imagem que representa o centro do lar – a Mãe. Observem atentamente, sobretudo, o procedimento dos membros e o modo de dirigir a reunião.

 

Se a soma total do que viram e ouviram não se harmoniza com o Lar de Nazaré é porque provavelmente o espírito deste não reside no Praesidium. Sem tal espírito, seria melhor ao Praesidium não existir.

 

Por vezes os Oficiais, como pais indignos, conduzem mal a formação daqueles que foram entregues aos seus cuidados. As deficiências do Praesidium podem ser atribuídas, quase sempre, aos Oficiais. Se os membros não comparecem pontualmente à reunião e por vezes faltam; se apresentam trabalho insuficiente ou sem continuidade; se deixam a desejar na sua atitude em reunião: é porque esse procedimento está sendo aceito por todos e não lhes é dado a conhecer nada melhor. Estão sendo deformados pela formação recebida dos Oficiais.

 

Como todos estes defeitos contrastam como o Lar de Nazaré! Imaginem a Virgem, se puderem, relaxada na ordem e nas minúcias da casa, dando a Seu Filho uma educação errada. Tentem representá-la – procurem fazê-lo, embora difícil – desalinhada, mole, indignada de confiança, indiferente; deixando arruinar o Santo Lar, torná-lo objeto das conversas zombadoras das vizinhas. Causa mal estar pensar nisso, como certeza. Todavia, muitos Oficiais da Legião deixam ruir vergonhosamente o Praesidium – Lar de Nazaré – que se comprometeram a administrar em nome de Nossa Senhora.

 

Se, ao contrário, toda as coisas, pela perfeição com que são feitas, provam o fervor e zelo do Praesidium, estejamos certos de que Nosso Senhor aí está presente com a plenitude que as Suas palavras traduzem. O espírito da Sagrada Família não estava limitado ao Santo Lar, ou a Nazaré, ou à Judéia: não tinha barreiras. Da mesma forma, o espírito que anima o Praesidium não deverá ficar apenas dentro dele, sem atingir toda a ação legionária.

 

“O amor dos católicos pela Mãe de Deus na sua relutância pelas minúcias primorosas da Vida de Nazaré, revela um sentido artístico louvável. Em Nazaré há duas vidas que excedem a experiência, e até certo ponto, a compreensão dos homens. Onde haverá na terra quem faça uma pintura destas duas vidas de super humana intensidade, em que se fundem completamente os seus movimentos, afetos e aspirações? Deixai-me contemplar do alto


[Capítulo 21      O Místico Lar de Nazaré      página 129]

 

da colina de Nazaré aquela mulher que desce à fonte de bilha à cabeça com um jovem de quinze anos a seu lado. Entre os dois, eu sei, existe um amor que não tem semelhante nos anjos que vivem diante do trono de Deus. E reconheço também que não me é lícito ver mais: aliás, morreria de assombro” (Vonier: A Maternidade Divina).

 

22

 

ORAÇÕES DA LEGIÃO

 

Damos a seguir as orações da Legião de Maria, conforme devem ser rezadas nas reuniões. Rezadas em particular, dispensam tal ordem.

 

Os membros Auxiliares deverão rezá-las diariamente por inteiro.

 

O Sinal da Cruz, que vai no princípio e no fim de cada parte, marca a divisão das orações. No caso de estas se rezarem em seguida, o Sinal da Cruz será feito apenas no início e no fim das mesmas.

 

1. ORAÇÕES INICIAIS DA REUNIÃO

 

Em nome do Pai + e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

P. Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor, enviai, Senhor, o Vosso Espírito e tudo será criado.

 

R. E renovareis a face da terra.

 

P. Oremos: ó Deus que santificais a Vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo e realizai agora no coração dos fiéis as maravilha que operastes no início da pregação do Evangelho.

 

Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho na unidade do Espírito Santo. Amém.


[Capítulo 22      Orações da Legião      página 130]

 

P. Abri os meus lábios, ó Senhor.

R. E minha boca anunciará o Vosso louvor.

 

P. Vinde, ó Deus, em meu auxílio.

R. Socorrei-me sem demora.

 

P. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

R. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

 

(Segue-se o terço terminado pela Salve Rainha).

 

P. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

 

P. Oremos: Ó Deus, cujo Filho Unigênito, por Sua vida, morte e ressurreição, nos obteve o prêmio da salvação eterna, concedei-nos, nós Vô-lo pedimos que, meditando estes mistérios do Sacratíssimo Rosário da Bem-Aventurada Virgem Maria, imitemos o que contêm e consigamos o que prometem. Pelo mesmo Cristo, Senhor Nosso. Amém.

 

P. Coração Sacratíssimo de Jesus    R. tende piedade de nós.

P. Coração Imaculado de Maria,   R. Rogai por nós.

P. São José,   R. Rogai por nós.

P. São João Evangelista,   R. Rogai por nós.

P. São Luís Maria de Montfort,   R. Rogai por nós.

 

Em nome do Pai + e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

 

CATENA LEGIONIS

 

Ant. Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?

 

  • A minh’alma + engrandece ao Senhor*
  • E se alegra e meu espírito em Deus, meu Salvador,

[Capítulo 22      Orações da Legião      página 131]

 

  • Pois ele viu a pequenez de sua serva, * eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
  • O Poderoso fez por mim maravilhas* e Santo é o seu nome!
  • Seu amor, de geração em geração,* chega a todos que o respeitam.
  • Demonstrou o poder de seu braço, * dispersou os orgulhosos.
  • Derrubou os poderosos de seus tronos* e os humildes exaltou.
  • De bens saciou os famintos* e despediu, sem nada, os ricos.
  • Acolheu Israel, seu servidor,* fiel ao seu amor,
  • Como havia prometido aos nossos pais, * em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.

 

  • Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, *
  • Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

 

Ant. Quem é esta que avança como a aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?

 

P. Ó Maria concebida sem pecado,

R. Rogai por nós que recorremos a Vós.

 

P. Oremos: Senhor Jesus Cristo, Mediador nosso perante o Pai, que Vos dignastes escolher a Virgem Santíssima, Vossa Mãe, para Mãe e Medianeira nossa junto de Vós, concedei misericordiosamente a quem a Vós recorrer, buscando os Vossos favores, se regozije de os receber todos por Ela. Amém.

 

 

ORAÇÕES FINAIS

 

Em nome do Pai +  e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

P. À Vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as súplicas que em nossas necessidades vos dirigimos, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.


[Capítulo 22      Orações da Legião      página 132]

 

P. (Invocação própria do Praesidium)

 

(Fora das reuniões do Praesidium reza-se sempre a invocação seguinte:

 

P. Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças,   R. Rogai por nós.

 

P. S. Miguel e S. Gabriel,   R. Rogai por nós.

 

P. Milícias todas dos céus, Legião dos Anjos de Maria,   R. Rogai por nós.

 

P. S. João Batista,   R. Rogai por nós.

 

P. S. Pedro e S. Paulo,   R. Rogai por nós.

 

Concedei-nos, Senhor, a nós que militamos sob o estandarte da Virgem, aquela plenitude de fé em Vós e de confiança em Maria, que nos assegurem a conquista do mundo. Dai-nos uma fé viva, animada pela caridade, que nos leve a praticar as nossas ações, unicamente por amor de Vós, e a ver-Vos e a servi-Vos sempre no nosso próximo; uma fé firme e inabalável como a rocha, que nos conserve calmos e resolutos no meio das cruzes, trabalhos e decepções da vida; uma fé corajosa que nos anime a empreender e prosseguir, sem hesitação, grandes coisas, por Deus e pela salvação do próximo; uma fé que seja a Coluna de Fogo da nossa Legião que nos guie avante unidos, – para acender em todos a chama do Amor divino, – iluminar os que estão nas trevas e sombras da morte, – animar os indecisos – restituir a vida aos mortos no pecado; e nos dirija os passos no caminho da paz; de forma que, terminada a batalha da vida, a nossa Legião possa reunir-se, sem uma só perda, no Reino do Vosso Amor e Glória. Amém.

 

P. Que as almas dos Legionários e de todos os fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz. Amém.

 

(Segue-se a bênção do Diretor Espiritual)

 

Em nome do Pai + e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

 

“A fé de Maria excedeu a de todos os homens e a de todo os Anjos. Em Belém, viu seu Filho no estábulo, e acreditou n’Ele como Criador do mundo. Viu-O fugir de Herodes e nunca a sua Fé hesi-


[Capítulo 22      Orações da Legião      página 133]

 

tou em ver n’Ele o Rei do Reis. Viu-O nascer e acreditou que era o Eterno. Viu-O pobre, de tudo desprovido, e acreditou n’Ele como Senhor do Universo. Viu-O reclinado nas palhas e adorou-O como Onipotente. Viu-O sem pronunciar palavra, e acreditou que Ele era a Sabedoria Eterna. Ouviu-O chorar e reconheceu-O como a Alegria do Paraíso. Viu-O, por fim morrendo, exposto a todos os insultos, pregado na Cruz e, embora a fé de todos vacilasse, Maria perseverou na crença inviolável de que Ele era Deus” (Santo Afonso de Ligório). (Esta citação não faz parte das orações da Legião).

 

23

 

AS ORAÇÕES SÃO INVARIÁVEIS

 

As orações da Legião são invariáveis. Mesmo no que diz respeito às invocações não é permitida qualquer alteração, para mais ou para menos, quer se trate de Santos nacionais ou locais ou de devoção individual. O mesmo critério deve ser adotado sempre que a legitimidade de uma alteração possa oferecer matéria de discussão.

 

Esta regra exige sacrifício, é certo, mas outros já o fizeram talvez com mais dificuldade; e facilmente o admitirão quantos conhecem a terra de origem destes Estatutos e o lugar único que ocupa na afeição dos seus habitantes, o seu Apóstolo Nacional.

 

É verdade que a tolerância de invocações especiais não constituiria, por si só, grave infração ao uso comum. Contém, todavia, a semente de divergências dentro do sistema, e a Legião teme tal possibilidade.

 

Há a considerar ainda que a alma da Legião se manifesta nas suas orações, e temos de concordar que estas, pela sua rigorosa uniformidade, devem ser o símbolo – qualquer que seja a língua em que venham a ser rezadas através dos tempos – da completa unidade de espírito, de coração, de regulamento e de prática, a que a Legião chama todos quanto militam à sombra da sua bandeira, em toda a terra.

 

“Assim como sois os filhos de Cristo, sede também os filhos de Roma” (S. Patrício).

 

“Concedei-me, Senhor, a graça de trabalhar por aquilo que é objeto das minhas orações” (S. Tomás More).


[página 134]

 

24

 

PADROEIROS DA LEGIÃO

 

1. São José

 

Nas orações da Legião, o nome de S. José vem logo depois das invocações aos Corações de Jesus e de Maria, pois que também no Céu ocupa, junto d’Eles, o primeiro lugar.

 

Chefe da Sagrada Família, desempenhou, junto de Jesus e de Maria, funções especiais de importância fundamental. As mesmas funções, sem tirar nem pôr, continua ele, o maior dos Santos, a desempenhá-las junto do Corpo Místico de Jesus e da Mãe deste Corpo. Auxilia a existência e a atividade da Igreja e, por conseqüência, da Legião. Os seus cuidados são constantes, vitais e caracterizados por uma intimidade familiar. Depois de Maria, não há santo mais influente e, como tal, deve ser estimado pelos legionários. Para o seu amor se mostrar poderoso em cada um de nós, é necessário que o nosso procedimento para com ele reflita a compreensão do intenso afeto que nos consagra. Jesus e Maria, agradecidos a José pelos seus carinhos e trabalhos, traziam-no sempre no coração. Procedam do mesmo modo os legionários.

 

A solenidade de S. José, esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, celebra-se a 19 de março; a memória de S. Jose, Trabalhador, a 1º de maio.

 

“Não podemos separar a vida histórica de Jesus da sua vida mística perpetuada na Igreja. Não é sem motivo que os Papas proclamaram S. José protetor da Igreja. Embora tenham mudado os tempos e as circunstâncias, a sua tarefa continua a ser a mesma de outrora. Com o carinho, revelado na execução da sua missão terrena cumpre hoje a sua missão de protetor da Igreja. A família de Deus, desde os dias de Nazaré, cresceu e dilatou-se até os confins da terra. O coração de José expandiu-se também de harmonia com a sua nova paternidade que prolonga e supera a paternidade prometida por Deus a Abraão, o Pai de muitas gentes. Deus não muda no trato com os homens; não tem pensamentos reservados nem altera de qualquer jeito o seu plano que é uno, organizado, consistente e contínuo. José, o Pai adotivo de Jesus, é também o Pai adotivo dos irmãos de Jesus, quer dizer, de todos os cristãos através dos tempos. José, o esposo de Maria, a Mãe de Jesus, permanece misteriosamente unido a Ela, enquanto se realiza no mundo o nascimento místico da Igreja. Por isso, o legionário de Maria, cujos esforços tendem


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 135]

 

a alargar o reino de Deus na terra, reclama com razão o auxílio especial do Chefe da Igreja recém-nascida, a Sagrada Família” (Cardeal L. J. Suenens).

 

2. S. João Evangelista

 

Citado no Evangelho como o “Discípulo a quem Jesus amava”, S. João representa para nós, modelo de devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Fiel até o fim, a este Coração se conservou unido até que O viu sem vida e varado pela lança. Manifestou-se em seguida como modelo de devoção ao Imaculado Coração de Maria. Puro como um anjo, ocupou o lugar que foi de Jesus, e continuou a prestar a Maria o amor de filho, até o momento em que Deus A chamou.

 

Mas a terceira palavra, pronunciada por Jesus Cristo no alto da cruz, continha mais que uma preocupação filial tomada para com Sua Mãe Santíssima. Na pessoa de S. João, Nosso Senhor indicava o gênero humano, mas sobretudo aqueles que pela fé se uniriam a Ele em todos os tempos. Assim, Maria foi proclamada Mãe dos homens, – de numerosíssimos irmãos de que Cristo é o primogênito. S. João, o representante de todos os novos filhos, foi o primeiro a tomar posse da herança de filho adotivo de Maria, – modelo de todos os que viriam depois e um santo, a quem a Legião deve a mais terna devoção.

 

Amou a Igreja e, nela, cada uma das almas, e ao seu serviço gastou todas as forças. Foi apóstolo, evangelista e teve o mérito de mártir.

 

Foi o sacerdote de Maria: por isso, ele é o padroeiro especial do Sacerdote-Legionário a serviço de uma organização que deseja ardentemente ser uma cópia viva de Maria.

 

A sua festa celebra-se a 27 de dezembro.

 

“Jesus, pois, tendo visto sua Mãe e perto dela o Discípulo que Ele amava, disse à sua Mãe: “Mulher, eis aí o teu filho”. Depois disse ao Discípulo: “Eis aí a tua Mãe”. E desta hora em diante a levou o Discípulo para sua casa” (Jo 19, 26-27)

 

3. S. Luís Maria de Montfort

 

“Se respeitarmos as decisões de não admitir padroeiros particulares ou locais, a inclusão do nome de S. Luís Maria Monforte parece ser, à primeira vista, discutível. Podemos todavia afirmar com segurança que nenhum santo desempenhou pa-


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 136]

 

pel mais importante do que este no progresso da Legião. O Manual está cheio do seu espírito. As orações são um eco das suas palavras. É realmente o tutor da Legião: motivo por que a sua invocação é, por parte da Legião de Maria, quase uma obrigação moral” (Decisão da Legião que coloca o nome de S. Luís Maria de Montfort na lista das suas invocações).

 

Foi canonizado a 20 de julho de 1947. A sua festa celebra-se a 28 de abril.

           

“Missionário e mais do que missionário, Doutor e Teólogo que nos deu uma Mariologia como nenhum outro havia concebido antes dele. Tão profundamente explorou as raízes da devoção mariana e por tão longe estendeu os seus horizontes, que se tornou indiscutivelmente o proclamador de todas as modernas manifestações de Maria – de Lourdes a Fátima, da definição da Imaculada Conceição à Legião de Maria. Tornou-se o precursor da idéia da vinda do Reino de Deus por Maria, e da tão suspirada salvação que, na plenitude dos tempos, a Virgem Mãe de Deus há de trazer à terra, pelo seu Imaculado Coração”. (Federico Cardeal Tedeschini, Arcipreste de S. Pedro. Discurso proferido no descerramento da estátua de S. Luís Maria de Montfort, na Basílica de S. Pedro, a 8 de dezembro de 1948).

 

“Prevejo que muitos animais ferozes virão enraivecidos para rasgarem com os seus dentes diabólicos este pequeno escrito e aquele de quem o Espírito Santo se serviu para o compor. Pelo menos envolverão este livrinho nas trevas e no silêncio de uma arca, a fim de que não apareça. Atacarão mesmo e perseguirão aqueles que o lerem e puserem em prática. Mas, que importa? Tanto melhor. Esta visão anima-me e faz-me esperar um grande êxito, isto é, um grande esquadrão de bravos e valorosos soldados de Jesus e Maria, de ambos os sexos, que combaterão o mundo, o demônio e a natureza corrompida, nos tempos perigosos que mais que nunca se aproximam” (S. Luís de Montfort, falecido em 1716: Tratado da Verdadeira Devoção, 114).

 

4. S. Miguel Arcanjo

 

“Apesar de príncipe da corte celeste, S. Miguel é o mais zeloso em honrar e fazer honrar Maria, sempre à espera das suas ordens para ter o especial privilégio de voar em serviço de algum dos seus servos” (S. Agostinho).

 

S. Miguel foi sempre o patrono do povo escolhido, da Antiga e da Nova Lei. É o leal defensor da Igreja, mas não deixou a


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 137]

 

guarda dos judeus pelo fato de eles se terem afastado de Cristo. Antes intensificou esta proteção, mesmo porque eles mais precisam dela, e também porque são ligados pelo sangue a Jesus, Maria e José. A Legião milita sob a proteção de S. Miguel.

 

Com a sua inspiração, deve trabalhar sacrificadamente pela recuperação desse povo, com o qual o Senhor fez uma aliança de amor sem fim.

 

A festa do “príncipe do Exército do Senhor” (Js 5, 14) celebra-se a 29 de setembro.

 

“Segundo a Revelação, os Anjos que participam da vida da Trindade na luz da glória, são também chamados a ter a sua parte na história da salvação dos homens, nos momentos estabelecidos pelo projeto da Divina Providência”.

 

“Não são eles todos, espíritos a serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” – pergunta o autor da Carta aos Hebreus (1, 14). E nisto crê e isto ensina a Igreja, com base na Sagrada Escritura, da qual sabemos que é tarefa dos anjos bons a proteção dos homens e a solicitude pela sua salvação” (João Paulo II, Audiência Geral, 6 de agosto de 1986).

 

5. S. Gabriel Arcanjo

 

Em algumas liturgias, S. Gabriel e S. Miguel são saudados juntamente como campeões e príncipes, chefes do exército celeste, capitães dos anjos, servos da divina glória, guardas e guias das humanas criaturas.

 

S. Gabriel é o Anjo da Anunciação. Foi ele que transmitiu a Maria as saudações da Santíssima Trindade; expôs pela primeira vez ao homem, o mistério desta Trindade Majestosa; anunciou a Encarnação; declarou a Conceição Imaculada de Maria; pronunciou as primeiras palavras da Ave-Maria.

 

Referimo-nos acima ao interesse de S. Miguel pelos Judeus. Talvez se possa dizer a mesma coisa de S. Gabriel com relação aos Maometanos. Estes acreditam que foi ele quem lhes comunicou a religião que praticam. Tal pretensão, embora sem fundamento, representa uma atenção para com o Arcanjo, atenção que ele procurará pagar de forma conveniente, esclarecendo-os a respeito da revelação cristã de que era guarda. Mas esta transformação não a pode conseguir por ele próprio. A colaboração humana tem de desempenhar sempre a sua parte.


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 138]

 

Jesus e Maria ocupam no Corão (o livro sagrado da religião dos muçulmanos), um lugar tão importante, quase como nos Evangelho, mas sem qualquer função. Este santo par espera no Islã que alguém o ajude a explicar-se e a afirmar-se. Provado está que a Legião possui um dom especial neste sentido e que os seus membros são recebidos com consideração pelos muçulmanos. Que rico material para tal esclarecimento existe no Alcorão! (1)

(1) O mesmo que Corão.

 

A festa de S. Miguel, S. Gabriel e S. Rafael celebra-se a 29 de setembro.

 

“As Escrituras mostram-nos um espírito da mais elevada nobreza celeste, enviado, em forma visível, a anunciar a Maria o Mistério da Encarnação. Maria foi convidada a ser Mãe de Deus por um Anjo, porque, por sua divina maternidade, deteria a soberania, o poder e o domínio sobre todos os Anjos. “Pode-se dizer – escreve Pio XII – que o Arcanjo S. Gabriel foi o primeiro mensageiro da função real de Maria” (Ad coeli Reginam).

 

Gabriel é honrado como padroeiro dos responsáveis de missões importantes, dos que por Deus, são anunciadores de grandes novas. Foi ele quem transmitiu a Maria a mensagem de Deus. Nesse momento representava ela todo o gênero humano e ele, o conjunto dos Anjos. O seu diálogo, motivo de inspiração para os homens até ao fim dos tempos, firmou um tratado sobre o qual se haviam de erguer “novos céus e nova terra”. Que admirável, pois, aquele que falou a Maria e como erram quantos reduzem o seu papel a uma comunicação sem sua participação. Sabia perfeitamente o que estava acontecendo e deu prova do mais vasto conhecimento possível. Reverente para com Maria, responde perfeitamente a todas as suas perguntas, pois era o porta-voz e confidente de Deus. Do encontro de Gabriel com Nossa Senhora surgiu a renovação da criação. A nova Eva consertou os estragos causados pela primeira Eva. O novo Adão, como cabeça do Corpo Místico que inclui também os Anjos, restaurou não só o gênero humano mas igualmente, a honra dos mesmos Anjos que perdera o brilho por causa do Anjo perverso” (Dr. Michael O’Carroll, C. S. Sp.).

 

6. Milícias do Céu, Legião de Anjos de Maria

 

Regina Angelorum! Rainha dos Anjos! Que encanto, que alegria antecipada do céu pensar em Maria, nossa Mãe, acompanhada incessantemente por Legiões de Anjos!” (João XXIII).


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 139]

 

“Maria é a Generalíssima dos exércitos de Deus. Os Anjos formam as mais gloriosas tropas daquela que é terrível como um exército em ordem de batalha!” (Boudon: Os Anjos).

 

A invocação dos Anjos teve o seu lugar, desde o princípio, nas orações da Legião. A fórmula usada era a seguinte:

 

S. Miguel Arcanjo, rogai por nós.

 

Santos Anjos da nossa guarda, rogai por nós.

 

Temos de supor que também aqui a Legião foi guiada sobrenaturalmente, pois a estreita relação dos Anjos com o movimento legionário não era então vista com a clareza de hoje. À medida que o tempo foi passando, tornou-se cada vez mais clara a conveniência de recorrer aos Anjos. Compreendeu-se enfim que os Anjos são o lado celeste da campanha desenvolvida na terra pela Legião.

 

A aliança entre a Legião e os Anjos tem diferentes aspectos. Cada legionário, seja ele Ativo ou Auxiliar, tem um Anjo da Guarda que combate a seu lado, golpe por golpe. A batalha tem maior significado para o Anjo, em certo sentido, do que para o legionário: o Anjo vê claramente o valor do que está em jogo – a glória de Deus e o valor de uma alma imortal. Por isso, o interesse do Anjo é mais intenso e o seu auxílio constante. Mas todos os outros Anjos estão igualmente interessados nesta guerra. Todos aqueles a favor de quem a Legião trabalha, por exemplo, têm os Anjos da guarda, prestando o seu auxílio ao lado dos legionários.

 

Além disso, o exército inteiro dos Anjos entra em cena. A batalha travada por nós faz parte do combate principal sustentado por eles, desde o princípio, contra Satanás e os seus seguidores.

 

Um lugar impressionante é assinalado aos Anjos no Antigo e Novo Testamento, onde há várias centenas de referências a eles. São representados como seguindo paralelamente a par e passo a luta dos homens, e desempenhando com relação a eles uma função protetora de caráter familiar. Intervêm nos acontecimentos importantes. Ocorre constantemente a frase: “Deus enviou o Seu Anjo”. Todos os nove coros angélicos exercem funções de proteção sobre os indivíduos, lugares, cidades e nações, sobre a natureza e alguns, até sobre outros Anjos. A Escritura mostra que mesmo os reinos pagãos têm os seus Anjos da Guarda (Dn 4, 10, 20; 10, 13). Os coros angélicos são assim designados: Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins, Potestades, Principados, Tronos, Virtudes e Dominações.


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 140]

 

Eis, assim, o que se pode concluir: os Anjos prestam-nos auxílio, quer considerados como um corpo, quer individualmente, desempenhando um papel semelhante ao das Forças Aéreas com relação aos exércitos de superfície.

 

Verificou-se finalmente que a invocação aos anjos, tal como se apresentava, não exprimia a função protetora universal dos mesmos Anjos. Por isso decidiu-se:

 

1º) que a invocação seria refeita, adotando uma fórmula melhor;

 

2º) que a palavra “Legião” deveria ligar-se aos Anjos. O próprio Senhor a aplicou aos Anjos, consagrando-lhe assim o uso com os seus divinos lábios. Ameaçado pelos seus inimigos, disse a Pedro: “Julgas que não posso rogar a meu Pai e ele me enviaria imediatamente mais de doze legiões de Anjos?” (Mt 26, 53).

 

3º) que o nome de Maria deveria introduzir-se na mesma invocação. Com efeito Nossa Senhora, é a Rainha dos Anjos, a verdadeira Comandante da Legião Angélica. Saudá-la com este título tão profundamente significativo constituiria para a nossa Legião uma nova graça.

 

Do prolongado debate em toda a Legião resultou a aprovação, em 19 de agosto de 1962, da seguinte forma de invocação: “Milícias todas do céu, Legião dos Anjos de Maria, rogai por nós”.

 

A memória desta Legião celeste celebra-se a 2 de outubro.

 

Existe uma associação chamada “Philangeli”, cuja finalidade específica é a difusão do conhecimento dos Anjos e da respectiva devoção. O seu centro principal é o seguinte: Philangeli, Hon. General Secretary, Salvatorians; 129 Spencer Road, Harrow Weald, Middlesex HA3 7BJ, England.

 

“A realeza de Nossa Senhora, com relação aos anjos, não deve tormar-se apenas como uma expressão de honra. A sua função real é uma participação na realeza de Cristo e este tem domínio total e universal sobre toda a criação. Os teólogos ainda não explicaram todas as diferentes maneiras como Maria governa juntamente com Cristo Rei. Mas é claro que a sua realeza é um princípio de ação e que os efeitos desta ação atingem os confins do universo visível e invisível. Rege os espíritos bons e controla os maus. Através dela realiza-se aquela inquebrável aliança das sociedades humana e angélica, pela qual toda a criação será conduzida ao seu verdadeiro fim, a glória da Santíssima Trindade. A sua realeza é nosso escudo, pois a nossa Mãe e Protetora tem poder para


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 141]

 

ordenar aos anjos que venham em nosso auxílio. Para ela, a realeza significa uma associação ativa com seu Filho, na desagregação e destruição do império de Satanás sobre os homens” (Michael O’Carroll, C. S. Sp.).

 

7. S. João Batista

 

O fato de só a 18 de dezembro de 1949 se ter introduzido oficialmente S. João Batista entre os Padroeiros da Legião é sem dúvida um fato estranho e de explicação nada fácil. Com efeito, se tirarmos S. José, nenhum outro Santo Padroeiro está mais intimamente ligado ao programa legionário de piedade.

 

a) João Batista foi o primeiro de todos os legionários, o precursor de Jesus, – indo à sua frente preparar os caminhos e endireitar os atalhos. Foi um modelo de inabalável firmeza e dedicação à sua causa, pela qual estava disposto a morrer e morreu de verdade.

 

b) Foi preparado e formado para a sua missão pela Santíssima Virgem, como todos os legionários o devem ser. Declara S. Ambrósio que o principal intento da estada de Nossa Senhora em casa de Isabel foi formar e estabelecer no seu cargo o Grande Profeta ainda criança. O momento desta preparação é celebrado pela Catena, a oração central da Legião, imposta como obrigação diária a todos os membros.

 

c) O episódio da Visitação apresenta-nos Nossa Senhora, pela primeira vez, no desempenho do seu cargo de Medianeira, e S. João, o primeiro beneficiado. Por isso, desde o início se exibiu S. João como Padroeiro especial dos legionários e de todos os contatos legionários; do trabalho das visitas sob todas as modalidades, e de fato, de toda a atividade legionária – esforço de colaboração com Maria, no seu ofício de Mediadora.

 

d) João foi um dos elementos mais importantes da missão do Salvador. Ora, todos os elementos desta missão devem estar presentes no sistema que procura reproduzi-la. O Precursor não pode faltar. Quereriam Jesus e Maria aparecer em cena, faltando João para os apresentar? Reconheçam os legionários o lugar especial de S. João e permitam-lhe continuar a sua missão por uma ardente confiança na sua proteção, “Sendo Jesus para sempre “Aquele que vem”, João será também o seu Precursor de sempre, por que a economia da Encarnação histórica de Cristo se continua no seu Corpo Místico” (Daniélou).


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 142]

 

e) A invocação de S. João Batista segue a dos Anjos nas Orações Finais. Estas orações apresentam-nos a Legião em marcha, protegida do alto, pelo Espírito Santo que se revela através de Nossa Senhora, como Coluna de Fogo; apoiada pela Legião dos Anjos e por seus Chefes, S. Miguel e S. Gabriel, precedidos pelo Precursor S. João, no cumprimento, hoje como antigamente, da sua missão providencial e levando como Generais os Santos Pedro e Paulo.

 

f) S. João Batista tem duas festas: a da Natividade, a 24 de junho, e a do Martírio, a 29 de agosto.

 

“Creio que o mistério de João se efetua ainda no mundo de hoje. Antes de alguém acreditar em Cristo Jesus, tem de descer, sobre a sua alma, o espírito e a virtude de João para preparar ao Senhor um povo perfeito e endireitar e aplanar os ásperos caminhos do seu coração. Até nossos dias, sempre o espírito e a virtude de João preparam a vinda do Senhor e Salvador” (Orígenes).

 

8. S. Pedro

 

“Como Príncipe dos Apóstolos, S. Pedro é, por excelência, o padroeiro de uma organização apostólica. Foi o primeiro Papa, mas representa toda a ilustre série de Pontífices até ao Santo Padre atual. Invocando S. Pedro, expressamos uma vez mais a fidelidade da Legião a Roma, centro de Fé, fonte da autoridade, da disciplina e da unidade” – (Decisão da Legião, colocando o nome de S. Pedro na lista das invocações).

 

A festa de S. Pedro e S. Paulo celebra-se a 29 de junho.

 

“E eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares sobre a terra será também ligado nos Céus; e tudo que desligares sobre a terra será desligado também nos Céus” (Mt 16, 18-19).

 

9. S. Paulo

 

Uma alma que pretende ganhar as outras deve ser grande, imensa como o oceano: para converter o mundo é necessário ter


[Capítulo 24      Padroeiros da Legião      página 143]

 

uma alma maior que o mundo. Tal era S. Paulo desde o dia em que uma luz celeste repentinamente o envolveu, lhe penetrou na alma e o inflamou no desejo ardente de encher a terra com a fé e o nome de Cristo. O seu nome resume a sua obra – Apóstolo dos Pagãos. Trabalhou incansavelmente até que a espada do carrasco entregou o seu espírito incansável nas mãos de Deus; mas os seus escritos sobreviveram e para sempre hão de viver, continuando a sua missão.

 

É costume da Igreja colocá-lo sempre junto com S. Pedro nas suas orações, o que para ele constitui grande glória. Nada mais justo, pois ambos consagram Roma com o seu martírio.

 

A Igreja celebra a Festa de S. Pedro e S. Paulo no mesmo dia.

 

“Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado; três vezes naufraguei e passei no abismo uma noite e um dia. Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos dos pagãos, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos e irmãs. Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, como fome e sede, freqüentes jejuns, frio e nudez” (2 Cor 11, 23-27).

 

25

 

O QUADRO DA LEGIÃO

 

1. O Manual apresenta a reprodução do Quadro da Legião. O original foi pintado por um jovem e talentoso artista de Dublin e oferecido à Legião. Como era de esperar de obra animada por tal intenção, o quadro é cheio de inspiração e beleza, evidentes até nas mais pequenas produções.

 

2. O quadro apresenta, de forma admirável e completa, os pontos fundamentais da espiritualidade legionária.

 

3. As orações da Legião estão postas em evidência. As orações iniciais – invocação e oração ao Espírito Santo e o Terço – são representadas pela pomba que paira sobre Maria, cobrin-


[Capítulo 25      O Quadro da Legião      página 144]

 

do-a com a sua sombra, e enchendo-a da Luz e do Fogo do seu Amor. Com estas orações a Legião honra o ponto alto e central de todos os tempos. O consentimento de Maria na Encarnação do Verbo fez dela Mãe de Deus e Mãe da Divina Graça; por isso, os legionários, seus filhos, a Ela se unem fervorosamente, pelo Terço, levando a sério as palavras de Pio IX: “Se eu tivesse um exército que rezasse o Terço, conquistaria o Mundo inteiro”.

 

Refere-se também a Pentecostes, em que Maria foi o canal desta nova infusão do Espírito Santo, que pode ser chamada a Confirmação da Igreja. Ele a tornou pública com sinais visíveis, enchendo-a do fogo apostólico que havia de renovar a face da terra. “Foi Maria quem obteve, por sua poderosa intercessão, para a Igreja recém-nascida, a milagrosa abundância do Espírito do Divino Redentor” (MC 110). Sem ela, nunca este fogo divino inflamaria os corações dos homens.

 

4. A Catena está representada, quanto ao nome, pela cadeia que emoldura o quadro. A Antífona está figurada, e com a maior propriedade, pela imagem de Maria, que avança como aurora, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha. Na sua fronte brilha uma estrela – para significar que Ela é a verdadeira Estrela da Manhã, banhada desde o primeiro instante do seu ser no brilho da Graça Redentora, anunciando o começo da salvação.

 

O Magnificat está representado pelo seu primeiro versículo, cujas palavras sempre presentes no espírito de Maria estão escritas em letras de fogo à volta da sua cabeça. É o cântico de vitória da sua humildade. Agora, como desde aquele momento, Deus quer depender nas suas conquistas, da humilde Virgem de Nazaré. Por intermédio daqueles que a Ela estão unidos, continua o Onipotente, para glória do Seu nome, a realizar grandes coisas.

 

O versículo e a respectiva resposta são da Festa da Imaculada Conceição, devoção principal da Legião expressa pelo esmagamento da serpente e pelas palavras do Gênesis que contornam o quadro: “Eu porei inimizades entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a dela; Ela te esmagará a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar” (Gn 3,15).

 

A oração da Catena é a da Festa de Maria Medianeira de todas as Graças, Mãe de Deus e Mãe de todos os homens.


[Capítulo 25      O Quadro da Legião      página 145]

 

O quadro mostra a luta perpétua entre Maria e a serpente, entre os filhos daquela e a raça maldita desta, entre a Legião e as forças do Mal que fogem em debandada.

 

Na parte superior do quadro está o Espírito Santo, Doador de todos os bem; em baixo, o globo terrestre rodeado de bons e maus – figurando o mundo das almas; ao meio, entre uns e outros, Maria, cheia de Graça, abrasada em caridade, canal universal de intercessão e distribuição dos favores celestes. Se é certo que Ela quer enriquecer todos os homens, a sua preferência vai para os filhos mais fiéis que, como S. João, se reclinaram no Coração de Jesus e A aceitaram  amorosamente como Mãe. Esta Maternidade Universal de Maria, proclamada entre as inconcebíveis dores do Calvário, está indicada pelas palavras que emolduram o quadro: “Mulher, eis aí o teu Filho; eis aí a tua Mãe” (Jo 19, 26-27).

 

5. As Orações Finais refletem-se em cada traço do quadro. A Legião apresenta-se como um exército inumerável que avança em ordem de batalha sob o comando da sua Rainha, levando à frente os seus estandartes: “O Crucifixo, na mão direita; o Rosário, na esquerda; os sagrados Nomes de Jesus e de Maria no coração, e a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo em todo o seu modo de ser” (S. Luís Maria de Montfort). A oração que brota dos seus lábios tem como objeto uma fé ardente que sobrenaturaliza todos os impulsos e ações da vida e os torna capazes de tudo ousar e fazer por Cristo-Rei. Esta fé é representada pela Coluna de Fogo que funde todos os corações legionários num só coração e os conduz a vitória e à Terra de Eterna Promessa, espalhando, na sua passagem, as chamas vivificantes do Divino Amor. A Coluna é Maria, que salvou o mundo pela sua fé – “Feliz a que acreditou” (Lc 1, 45), lê-se na moldura – e leva, infalivelmente, aqueles que A bendizem, até o encontro definitivo com Deus.

 

6. As orações terminam, elevando-nos em espírito, dos trabalhos legionários à chamada da Eternidade, em que todos os legionários fiéis, sem desistência alguma, formarão ombro a ombro para receber a coroa que jamais poderá ser destruída, prêmio do seu serviço.

 

Entretanto, não nos esqueçamos de orar por aqueles que terminaram já o combate e esperam a glória da ressurreição. Podem talvez precisar das orações dos companheiros.


[Capítulo 25      O Quadro da Legião      página 146]

           

“Lemos no Antigo Testamento que o povo de Deus foi guiado pelo Senhor, do Egito à Terra Prometida, de dia por uma coluna de nuvem, e de noite por uma coluna de fogo (Ex 13, 21). Esta coluna maravilhosa, ora de nuvem, ora de fogo, simbolizava Maria Santíssima e as funções que Ela desempenha em nosso proveito” (Santo Afonso de Ligório).

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A TESSERA

 

Será entregue a todos os legionários Ativos e Auxiliares uma folhinha chamada Tessera, que contém as orações da Legião e reproduz o respectivo quadro.

Entre os romanos, a palavra Tessera designava a ficha ou senha que os amigos entregavam uns aos outros, como sinal de identificação entre eles e os seus descendentes. Como expressão militar, significava a tabuazinha que circulava na Legião Romana como senha do dia.

A Legião de Maria aplica a palavra Tessera à folhinha que contém as suas orações e o seu quadro, pois reúne estas propriedades:

a) Circula entre todos os legionários;

            b) exprime a verdadeira senha da Legião: – as orações;

            c) é o símbolo de unidade e fraternidade entre os legionários onde quer que se encontrem.

Por acaso, esta mesma idéia de universalidade aplica-se a uma dúzia de termos latinos usados para designar certos elementos característicos do sistema. Facilitam de tal modo a intercomunicação que se tornam indispensáveis. A objeção de que constituem elementos estrangeiros na Legião é inaceitável, pois enraizaram-se de tal maneira que presentemente são palavras legionárias. Seria uma grande injustiça para com a Legião privá-la de uma marca tão útil e característica.

“Companheiros de viagem nesta terra miserável, somos tão fracos que precisamos todos do braço do nosso irmão, para nos apoiarmos e não fraquejarmos na jornada. Mas é sobretudo no domínio da salvação e da graça que Deus quer que estejamos unidos. A oração é o laço que une todos os corações num só coração, todas as vozes numa só voz. A nossa força reside na oração unida. Só

             Vexillum Legionis Modelo de Mesa                     Modelo para Acies ou Procissão

[Capítulo 26      A Tessera      página 147]

 

assim nos tornaremos invencíveis. Apressemo-nos, pois, a unir as nossas orações, esforços e desejos, na certeza de que esses meios, por si mesmos poderosos, hão de tornar-se, pela união, irresistíveis” (Ramière).

 

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VEXILLUM LEGIONIS

 

O “Vexillum Legionis” é uma adaptação do estandarte da Legião Romana. A águia que ficava em cima deste último foi substituída pela pomba – símbolo do Espírito Santo. Por baixo desta, exibe-se com orgulho a legenda: “Legio Mariae” (Legião de Maria). Entre esta e a haste do Vexillum (e unida à primeira por uma rosa e um lírio) há uma moldura oval com a imagem da Imaculada Conceição, copiada da Medalha Milagrosa. A haste firma-se num globo que, nos modelos de mesa, assenta numa base quadrada. O conjunto exprime a idéia da conquista do mundo pelo Espírito Santo, atuando por Maria e seus filhos.

 

a) O papel destinado à correspondência oficial da Legião deve ser timbrado com a gravura do Vexillum.

 

b) Sobre a mesa de reunião deve-se colocar o Vexillum, situando-o quinze centímetros à frente da imagem, com o desvio de quinze centímetros para a direita. O modelo de mesa, comumente usado, tem trinta e dois centímetros de altura, incluindo a base. Numa página próxima damos o desenho do Vexillum. Na impossibilidade de se conseguir obtê-lo na localidade, pode-se pedir ao Concilium, o qual dispõe de exemplares em metal e ônix.

 

c) Na Acies e nas procissões, usar-se-á um modelo em ponto grande, com dois metros de altura, sendo cerca de 60 centímetros para a haste que sustenta o globo. A parte restante será de acordo com o desenho da página anterior à escala de 12/1. A haste assenta numa base (não faz parte do Vexillum), para o manter erguido durante a cerimônia da Acies e sempre que não for levado por alguém.


[Capítulo 27      Vexillum Legionis      página 148]

 

Este Vexillum de grande formato não é fornecido pelo Concilium, mas pode ser feito ou pintado localmente, com facilidade. Os que desejarem uma reprodução mais trabalhada, recorrerão a outro material e não à madeira. O desenho permite ampla liberdade para arranjo artístico.

 

d) O Vexillum tem direitos reservados e só pode ser reproduzido com licença formal do Concilium.

 

“Que belo e sugestivo é o estandarte da Legião de Maria” (Pio XI).


[Capítulo 27      Vexillum Legionis      página 149]

 

Vexillum Legionis

 

O Estandarte da Legião

 

 

 

                                           

 

 

S. Luís Maria de Montfort compreendeu com admirável clareza que não pode haver separação entre a Virgem Maria e o Espírito Santo. A Legião de Maria fez penetrar em sua doutrina uma completa convicção a respeito deste laço de união; por este motivo procura séria e ardentemente um conhecimento cada vez mais profundo da doutrina do Espírito Santo” (Laurentin).

 


[página 150]

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ADMINISTRAÇAO DA LEGIÃO

 

1. Normas gerais para todos os Conselhos Administrativos

 

1. A administração da Legião, tanto local como central, está confiada aos seus diversos Conselhos. A estes cabe, dento da esfera da sua jurisdição, assegurar a unidade, defender os ideais primitivos da Legião de Maria, guardar puros o seu espírito, os seus regulamentos e os seus costumes – conforme o Manual Oficial da Legião – e, finalmente, tratar da sua expansão.

 

Onde quer que esteja fundada, a Legião terá o valor que os seus Conselhos quiserem que ela tenha.

 

2. Todo o Conselho deve se reunir regular e freqüentemente, em regra, ao menos uma vez por mês.

 

3. As orações, a disposição e a ordem das reuniões de todo e qualquer Conselho da Legião, são as mesmas já estabelecidas para a reunião do Praesidium, exceto quanto: a) à duração das reuniões que não tem limite determinado; b) à leitura da Ordem Permanente que não é obrigatória; c) à coleta que é livre.

 

4. O dever principal de todo o Conselho é obedecer ao Conselho Superior imediato.

 

5. Nenhum Praesidium ou Conselho pode ser fundado sem a licença expressa do Conselho Superior imediato ou do Concilium Legionis e sem a aprovação da autoridade eclesiástica competente.

 

6. Ao Bispo da Diocese e ao Concilium Legionis, individualmente considerados, é reservado o direito de dissolver qualquer Praesidium ou Conselho. Estes deixam, por esse motivo, de pertencer à Legião de Maria.

 

7. Cada Conselho terá como Diretor Espiritual um sacerdote nomeado pela autoridade eclesiástica competente, o qual exercerá o seu cargo enquanto a esta interessar. A ele cabe a última palavra em todos os assuntos de ordem moral e religiosa que surgirem nas reuniões do Conselho e o direito de interromper a discussão sobre questões que possam surgir, a fim de obter da autoridade eclesiástica que o nomeou a decisão definitiva.


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 151]

 

O Diretor Espiritual é Oficial do Conselho, cumpre-lhe defender toda a autoridade legionária legitimamente constituída.

 

8. Além do Diretor Espiritual, cada Conselho terá um Presidente, um Vice-Presidente, um Secretário e um Tesoureiro, e ainda outros Oficiais, caso a sua necessidade seja reconhecida e aprovada pelo Conselho superior imediato. São eleitos para um cargo por três anos, tendo porém o direito de se reelegerem por mais três. O Oficial cujo tempo de mandato terminou não pode continuar a exercer os deveres do mesmo cargo.

 

Quando um Oficial, por qualquer motivo, não completa o primeiro mandato de três anos, deve ser considerado como se o tivesse cumprido por inteiro na data em que deixa o cargo. Durante o tempo do primeiro mandato que ele não terminou, pode ser reeleito para o mesmo cargo por outros três anos, considerando-se estes um segundo período. Se ele não completa o segundo período de três anos, deve considerar-se como tendo servido seis anos, no momento em que abandona o cargo.

 

Tendo completado um segundo período de três anos, requer-se um intervalo de três anos, antes de poder ser eleito para o mesmo cargo no mesmo Conselho. Este intervalo não é exigido, quando se trata de um cargo diferente no mesmo Conselho ou de um cargo em qualquer outro Conselho.

 

Todo o Oficial de um Conselho deve ser membro ativo de um Praesidium e cumprir as exigências da Instrução Permanente.

 

9. A elevação de categoria de um Conselho (de Curia a Comitium, etc.) não afetará o limite de duração dos cargos dos Oficiais existentes.

 

10. Os Oficiais de um Conselho serão eleitos numa reunião normal do Conselho, pelos membros do mesmo Conselho (isto é, pelos Oficiais dos Praesidia e dos Conselhos a ele diretamente filiados e quaisquer Oficiais eleitos do Conselho) que estiverem presentes. Qualquer legionário pode ser eleito. Se o eleito não for membro do Conselho, ficará sendo a partir desse momento. Todas as eleições de Oficiais estão sujeitas à aprovação pelo Conselho Superior imediato, podendo os eleitos, entretanto, desempenhar as funções dos respectivos cargos.

 

11. Deve-se dar conhecimento, antecipadamente, a todos os membros, das nomeações e eleições que deverão ser realizadas,


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 152]

 

se possível, na reunião, que as precede. É para desejar que os candidatos tenham perfeito conhecimento dos deveres dos respectivos cargos.

 

12. É permitido comentar, com as reservas impostas pela conveniência, a idoneidade dos candidatos. Podem também os Oficiais do Conselho, na sua qualidade de corpo diretivo, e conhecendo as condições favoráveis de um determinado candidato, recomendá-lo aos votantes. Tal recomendação, porém, não se opõe à proposta de outros candidatos e à forma perfeita de eleição.

 

13. A eleição será feita por votação secreta. Poderá ser da seguinte forma: a eleição de cada Oficial deve ser feita separadamente, por ordem decrescente. Cada nome sugerido deve ser formalmente proposto e apoiado. No caso de haver um só candidato, a votação não é necessária. Se, porém, forem apresentados e apoiados dois ou mais nomes, deverá proceder-se à votação. A cada membro do Conselho (incluindo os Diretores Espirituais) que estiver presente com direito a voto, será entregue uma ficha de voto. Preste-se a máxima atenção a esta última exigência: só os membros do Conselho têm direito a voto. Uma vez preenchidas, as cédulas devem ser dobradas cuidadosamente e recolhidas pelos que vão contar os votos. O nome do votante não deve aparecer na cédula.

 

Se a contagem dos votos revelar que um candidato obteve a maioria absoluta, isto é, um número de votar maior que a soma dos votos dos outros, ele será declarado eleito. Se nenhum candidato obtiver a maioria absoluta, dar-se-á conhecimento do resultado da votação, e se fará nova votação sobre os mesmos candidatos. Se essa repetição não der uma maioria absoluta a um candidato, será eliminado o que tiver menor número de votos e se votará pela terceira vez sobre os candidatos restantes. Se esta terceira votação ainda não der resultado, deverão ser feitas novas eliminações e revotações, até um dos candidatos obter a maioria necessária de votos.

 

O fato de se tratar da escolha de Dirigentes de uma organização religiosa não justifica métodos menos sérios de eleição. Esta deve ser feita de forma correta e exata, conforme os estatutos, respeitando ao mesmo tempo o caráter secreto do voto individual.

 

É necessário que se registre na ata da reunião o processo completo das eleições, incluindo nome dos proponentes e dos


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seus apoiantes, com o número de votos recebidos por cada candidato (quando há mais de um), e que tal ata seja enviada ao Conselho Superior imediato, para este decidir da sua possível aprovação.

 

14. Compete aos Oficiais de um Praesidium ou de um Conselho representá-lo no Conselho Superior imediato.

 

15. A experiência já comprovou que a designação de correspondentes é o meio mais eficiente para um  Conselho Superior exercer as suas funções de supervisão dos Conselhos distantes, a ele filiados. O correspondente mantém um contato regular com o respectivo Conselho e, a partir da ata recebida mensalmente, prepara o relatório que deve apresentar ao Conselho Superior, quando solicitado. Assiste às reuniões do Conselho Superior e toma parte no debate dos assuntos ali apresentados, mas não tem direito a voto, a não ser que seja membro do respectivo Conselho.

 

16. Qualquer pessoa, faça ou não parte da Legião, pode assistir às reuniões de um Conselho, com autorização deste, a título de visitante, mas sem direito a voto. Tais pessoas são obrigadas a guardar segredo sobre o que se passa na reunião.

 

17. Os Conselhos da Legião são os seguintes: Curia, Comitium, Regia, Senatus, Concilium e quaisquer outros que venham a ser fundados, em conformidade com os Estatutos.

 

18. Os nomes latinos dos vários Conselhos concordam admiravelmente com as funções que desempenham.

 

Dentro da Legião, Maria é Rainha. É Ela quem convoca o exército legionário para as suas gloriosas campanhas, dirige-o no campo de operações, anima-o ao combate e, pessoalmente, o conduz à vitória. Depois da Rainha, vem naturalmente o seu Conselho Supremo – ou Concilium – que a representa visivelmente e participa com Ela da direção de todos os outros Conselhos Legionários.

 

Os Conselhos regionais são de caráter essencialmente representativos, menos, porém, os Conselhos mais elevados, por causa da impossibilidade prática de garantir o comparecimento às reuniões regulares dos Conselhos centrais, representativos de áreas muito extensas. Deste modo, os nomes de Curia, Comitium, Regia


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 154]

 

e Senatus destacam a função própria e a posição de um em relação ao outro, definindo a área de atuação de cada um.

 

19. Um Conselho superior pode combinar as funções próprias com as funções de um Conselho a ele subordinado. O Senatus, por exemplo, pode atuar também como Curia e, de fato, é o que acontece invariavelmente.

 

Tal combinação de funções é vantajosa pelas seguintes razões:

 

a) Em geral, as mesmas pessoas estão encarregadas da administração do Conselho superior e do Conselho inferior. Se uma reunião pode servir a dois propósitos haverá economia de tempo e energia.

 

b) Há, porém, uma consideração mais importante. Vivendo os representantes do Conselho superior muito afastados da sede, seria muitas vezes impossível a estes participar das reuniões regulares e freqüentes com a assiduidade devida. Conseqüência inevitável e evidente: alguns legionários zelosos ficariam sobrecarregados com pesadas responsabilidades e inúmeros trabalhos, que muitas vezes não serão feitos ou ficarão descuidados, com sério prejuízo para a Legião.

 

A combinação de funções do Conselho superior com as do inferior assegurará uma assistência mais numerosa e mais regular às reuniões. Os membros, além de cumprirem os deveres próprios do Conselho inferior, ainda serão iniciados e interessados nos trabalhos do Conselho superior. Torna-se assim possível associá-los aos importantíssimos serviços de inspeção, expansão e secretaria do Conselho superior.

 

Pode-se objetar que tal procedimento significa entregar a direção de uma grande área a um Conselho que na verdade não é local. Isto é um engano, pois é somente o núcleo daquele Conselho superior que é local. Os representantes de cada um dos Conselhos filiados  têm o dever de assistir às  reuniões e, sem dúvida, de o fazer conscienciosamente da melhor forma possível. A solução proposta é a de que o Conselho superior funcione separadamente, contentando-se, digamos, com quatro reuniões por ano. Deste modo estaria assegurada uma grande representação. Tal proposta a favor dos interesses de uma administração representativa não corresponde à realidade dos fatos, pois, nos intervalos das reuniões, o Conselho em questão seria forçado a entregar aos Oficiais a resolução dos seus problemas, e a exercer as suas funções administrativas apenas nominalmen-


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 155]

 

te. Resultado: os membros perderiam o sentido da responsabilidade e todo o interesse real pelo seu trabalho.

 

Além disso, a reunião tão espaçada de um grupo de dirigentes se pareceria mais com um Congresso do que com um Conselho. Não possuiria as características de um corpo governativo, a principal das quais é o sentido de continuidade e um conhecimento íntimo do trabalho administrativo e dos seus problemas.

 

20. Todo o legionário tem o direito de se comunicar confidencialmente com a Curia de que depende ou com qualquer outro Conselho Superior da Legião. Ao tratar de um assunto conhecido de maneira sigilosa, tal Conselho atuará com a máxima prudência e evidentemente, com o devido respeito pela posição e pelos direitos de qualquer Conselho ou Praesidium subordinado. Alguns poderiam pensar que a comunicação com os Conselhos, por fora das vias normais, isto é, por fora do Praesidium ou do Conselho de que dependem imediatamente os legionários, constitui um ato de deslealdade. Ora, não é assim. Temos de encarar o fato de, por vezes e por motivos vários, os Oficiais dos Conselhos Superiores desconhecerem assuntos que lhes deviam ser relatados. Se não houvesse outros meios de informação, tais Conselhos ficariam privados de conhecimentos indispensáveis. Todo o Conselho tem o direito – sem o qual não poderia funcionar convenientemente – de tomar conhecimento daquilo que realmente se passa na área confiada aos seus cuidados. Este direito essencial tem de ser garantido.

 

21. Todo o Conselho legionário tem o dever de ajudar economicamente o Conselho Superior imediato. Vejam-se a este respeito os capítulos 34 e 35, sobre as Receitas e Despesas e a Coleta Secreta.

 

22. Pertence à essência de um Conselho legionário a franca e livre discussão dos assuntos e problemas que lhe dizem respeito. Não se trata apenas de um grupo diretivo, encarregado de supervisionar e de tomar decisões, mas de uma escola de Oficiais. Mas, como poderão estes formar-se se não houver debate e não se puserem em destaque os princípios e ideais legionários? Além disso, o debate deve ser geral. O Conselho não deve se assemelhar de modo algum a um teatro, em que uma pequena minoria representa para um auditório silencioso. O Conselho só funcionará plenamente, se todos os seus membros para isso contribuírem. Um membro do Conselho não funciona, se não


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 156]

 

toma parte ativa nos seus trabalhos. Enquanto ouve, pode receber alguma coisa do Conselho, mas não dá nada. Pode mesmo acontecer de sair da reunião com o cérebro vazio, em virtude do fato psicológico de a inércia enfraquecer a memória. O membro do Conselho habitualmente silencioso é como a célula parada do cérebro ou do corpo humano, que retém o que dela é exigido, atraiçoa o propósito da sua existência e se torna, para a pessoa, um perigo constante. Seria triste que alguém se tornasse um perigo para o Conselho legionário a que deseja servir. A passividade, onde vitalmente se requer a atividade, conduz à decadência, e a decadência tende a se alastrar.

 

Por conseguinte, é princípio indiscutível que nenhum membro pode ser passivo. Deve contribuir plenamente para a vida do Conselho, não só com a sua presença, não só ouvindo, mas falando. Parece ridículo dizê-lo e, no entanto, tem um sério alcance: cada membro de um Conselho deve contribuir para os seus trabalhos, ao menos, com uma observação anual. Há pessoas tímidas, para as quais, falar significa uma dificuldade muito grande. Vençam esse problema e mostrem um pouco daquela coragem que a Legião exige de seus membros em todas as circunstâncias.

 

Tais pessoas respondem prontamente que é impossível falarem todos no pouco tempo disponível e, na realidade, assim é. Deixemos, porém, a solução desse problema para quando o mesmo se apresentar. O problema que quase sempre se tem de enfrentar é precisamente o contrário: participação imperfeita dos membros nos debates, que resultam apenas das contribuições de um pequeno grupo de enérgicos faladores. Por vezes, o silêncio do conjunto é disfarçado pela eloqüência de uns poucos.

 

Acontece também, com demasiada freqüência, que o Presidente fala em excesso e elimina os outros. É muito preocupante o efeito desanimador de uma só voz. Desculpa-se o Presidente explicando que se ele não fala, se estabelece um silêncio de morte. Se isso acontecer, não tema o momento de silêncio. Este é um eloqüente convite a todos os membros para darem vida ao Conselho com as transfusões das suas vozes. Os mais tímidos estarão certos de que chegou o seu momento: não impedirão ninguém de falar, tomando a palavra.

 

Seja esta uma norma inabalável: o Presidente não pronunciar uma só palavra inútil. Examine a este respeito o modo como dirige as reuniões.

 

23. Para ajudar a reunião, não se deve falar numa atitude de desafio; não se faça uma pergunta sem ajuntar uma idéia como


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resposta; não se apresente uma dificuldade sem tentar resolvê-la. Uma atitude puramente negativa está apenas a um pequeno passo desse silêncio destruidor.

 

24. Ganhar o outro convencendo-o, e não à força de votos, será a nota dominante de toda a reunião legionária. As decisões forçadas e precipitadas levariam à formação de partidos: uma maioria vencedora e uma minoria vencida, ambas irritadas e fechadas no seu próprio parecer. Pelo contrário, as decisões que são fruto de paciente exame, de ampla discussão de pontos de vista, serão aceitas por todos e com tal espírito, que o vencido ganhará méritos com a derrota e o vencedor não os perderá com o triunfo.

 

Por isso quando existirem diferenças de opinião, os que têm uma clara maioria a seu favor não se precipitem, tenham paciência. Podem não ter razão e vencer; isto seria sumamente grave. Se é possível, adie-se a decisão para reunião seguinte ou mesmo para mais tarde, de maneira a permitir um exame cuidadoso e um perfeito conhecimento de causa.  Entretanto, faça-se esforço por estudar o assunto sob todos os pontos de vista, recorrendo à oração, a fim de serem iluminados. Convençam-se bem de que o importante não é a vitória de uma opinião, mas a investigação humilde da vontade de Deus.  Deste modo se verificará que em breve se chega à perfeita unidade de pensamento.

 

25. Se os interesses da harmonia devem ser guardados, com toda a vigilância, dentro do Praesidium, onde as ocasiões de choque das diversas opiniões são tão raras, com que cautela não se deverá proceder nos Conselhos!

 

Porque:

 

a) Os membros estão aqui menos acostumados a trabalhar juntos.

 

b) As divergências de opinião são muitas, sendo um dos principais cuidados dos Conselhos tentar harmonizá-las. Exame de novos projetos, esforços para conseguir padrões mais elevados, questões sobre a disciplina geral, deficiências que é preciso eliminar: tudo isto tende necessariamente a criar desentendimentos que podem tornar-se fontes de discórdia.

 

c) Onde os membros são numerosos, é fácil encontrar algumas pessoas, que embora excelentes, acabam “aparecendo” demais. Exercem sobre as outras uma negativa influência; com o seu jeito destacado de ser, formam um grupo de seguidores e criam um ambiente de discussão e mal-estar. Resultado: o Con-


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 158]

 

selho, que deveria ser  para os inferiores, um modelo de fraternidade e de método de direção dos negócios, torna-se um mau exemplo para todos os legionários. É um coração a espalhar veneno no aparelho circulatório da Legião.

 

d) Como conseqüência de uma falsa lealdade, nasce muitas vezes, a tendência para atacar o Conselho vizinho ou Superior, acusando-o – (quão fácil é elaborar uma acusação e conseguir que os demais a aprovem!) – de passar dos limites dos seus poderes ou de se portar indignamente.

 

e) “Nunca os homens se reúnem em grande número, sem que a paixão, a teimosia, o orgulho e a incredulidade, mais menos adormecida em cada um deles, brotem em chamas e se tornem elemento constitutivo da sua união. Mesmo quando têm fé e se unem para fins piedosos, uma vez associados, não tardam a evidenciar a fragilidade própria da natureza humana. No espírito e no procedimento, no falar e no agir estão em grave contraste com a retidão e a simplicidade cristãs. É isto que os escritores sagrados entendem por “mundo”, e a razão por que contra eles nos pedem prudência. A descrição do “mundo”, que eles nos deixaram, aplica-se, em grau diverso, a todas as sociedades humanas, das classes elevadas ou baixas, de caráter nacional ou profissional, leigo ou eclesiástico” (Cardeal Newman: No Mundo).

 

Palavras chocantes, sem dúvida, mas de um grande pensador. S. Gregório Nazianzeno diz a mesma coisa com outras palavras. O que à primeira vista parece uma afirmação estranha, reduz-se, em simples e clara análise, ao seguinte: o “mundo” é a falta de caridade. Em cada um de nós esta caridade é fraca, e a sua fraqueza esconde-se, até certo ponto, sob os laços do parentesco, da intimidade, da amizade, tudo isto limitado a poucas pessoas; mas, quando os homens se associam em maior número, surge a crítica e a discórdia, e essa caridade mostra imediatamente as suas fraquezas com as suas péssimas conseqüências. “Deus e a caridade são uma e mesma coisa” – diz S. Bernardo. “Onde não reina a caridade, dominam as paixões e os apetites da carne. A chama da fé, se não se acende na fogueira da caridade, se apagará antes de conseguirmos alcançar a felicidade eterna... Não há verdadeira virtude sem caridade”.

 

Estas graves advertências pouco aproveitam aos legionários se, depois de as lerem, se contentarem com este protesto: “Entre nós nunca tal acontecerá”. Pode e há de acontecer, se nas reuniões houver falta de caridade e se esfriar o espírito sobrenatural. Temos de estar sempre alerta.


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A história relata-nos que a Legião Romana nunca deixou passar uma noite, mesmo nas marchas forçadas, sem montar acampamento, abrir trincheiras e fortificar cuidadosamente o campo; e isto mesmo que o acampamento durasse uma só noite e o inimigo estivesse longe. Mais: mesmo em tempo de paz!... Tendo como modelo esta disciplina, aplique-se a Legião de Maria a defender os seus espaços (isto é, as suas reuniões) contra possíveis invasões deste destruidor espírito do “mundo”, excluindo todas as palavras e atitudes inimigas da caridade e, em geral, preenchendo as reuniões de profundo espírito de oração e de perfeita piedade legionária.

 

“A graça como a natureza tem os seus sentimentos e afetos: o seu amor, o seu zelo, as suas esperanças, as suas alegrias e as suas penas. De todos estes sentimentos gozava plenamente a Santíssima Virgem, pois vivia mais da vida da graça que da vida da natureza. A maior parte dos fiéis encontram-se mais em estado de graça do que na vida da graça. Muito ao contrário a Santíssima Virgem, enquanto viveu na terra, esteve sempre em graça e, mais que isso – na vida da graça, na perfeição desta grandiosa vida” (Gibieuf: Da Virgem Dolorosa ao pé da Cruz).

 

2. A Curia e o Comitium

 

1. Logo que numa cidade ou região se fundem dois ou mais Praesidia, deve formar-se também um Conselho diretivo chamado Curia. Esta será constituída por todos os Oficiais (incluindo os Diretores Espirituais) dos Praesidia da respectiva área.

 

2. Onde for necessário conferir a uma Curia, além das funções próprias, certos poderes de administração sobre uma ou várias Curiae, tal Curia superior tomará a denominação particular de Comitium.

 

O Comitium não é um novo Conselho. Continua a agir como Curia em relação à sua própria área e a governar diretamente os seus próprios Praesidia. Além disso, administra uma ou mais Curiae.

 

Cada Curia ou Praesidium diretamente dependentes do Comitium tem nele, direito à plena representação.

 

A fim de aliviar os representantes de uma Curia da participação de todas as reuniões do Comitium (as quais somadas com as reuniões da própria Curia se tornariam um fardo demasiada-


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mente pesado) poderão tratar dos assuntos relativos a essa Curia, de duas em duas ou de três em três reuniões do Comitium, exigindo apenas para essa ocasião, a presença dos ditos representantes.

 

O Comitium, em geral, não deverá ultrapassar os limites de uma Diocese.

 

3. O Diretor Espiritual será nomeado pelo Bispo da Diocese onde a Curia (ou Comitium) exerce as suas funções.

 

4. A Curia exercerá autoridade sobre os Praesidia que dela dependem, de acordo com os Estatutos da Legião. Nomeará os Oficiais, exceto o Diretor Espiritual, e cuidará da duração dos seus cargos. Quanto à maneira de proceder para a sua nomeação, veja-se o número 11 do Capítulo “O Praesidium”.

 

5. A Curia velará pela correta observância dos regulamentos, por parte dos Praesidia e dos seus membros. Entre as atividades importantes da Curia, deverão contar-se as seguintes:

 

a) Formar e vigiar os Oficiais no desempenho dos seus cargos e na maneira de dirigir os respectivos Praesidia.

 

b) Receber os relatórios dos Praesidia, ao menos uma vez por ano.

 

c) Comunicar reciprocamente as experiências.

 

d) Estudar novos trabalhos.

 

e) Tender à criação de padrões elevados.

 

f) Certificar-se de que cada legionário cumpre satisfatoriamente a sua tarefa semanal.

 

g) Expandir a Legião e estimular os Praesidia a recrutar Auxiliares, a organizá-los e a velar por eles.

 

Em vista disto, torna-se evidente o alto grau de coragem moral que a Legião exige da Curia, especialmente dos seus Oficiais, a fim de cumprirem convenientemente os deveres dos seus cargos.

 

6. A sorte da Legião está nas mãos das Curiae e o seu futuro depende do desenvolvimento delas. A própria existência da Legião, em qualquer localidade, deve considerar-se fraca, enquanto não se fundar uma Curia.

 

7. Os legionários com menos de 18 anos não podem pertencer a uma Curia de adultos; mas, se houver conveniência, se fundará uma Curia Juvenil, dependente da primeira.

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8. É absolutamente necessário que os oficiais da Curia, sobretudo o Presidente, estejam sempre dispostos a atender os legionários, seus subordinados, ansiosos por solucionar dificuldades, apresentar projetos ou tratar de outros assuntos ainda insuficientemente amadurecidos para uma discussão pública.

 

9. É aconselhável que os Oficiais, especialmente o Presidente, dediquem tempo considerável ao desempenho dos seus cargos. Disso depende muito o bom êxito da obra.

 

10. Quando numerosos Praesidia dependem de uma Curia, numerosos terão de ser os representantes na reunião da mesma. Tal fato poderá causar dificuldades de acomodação e de perfeita administração. Crê, todavia a Legião, que estas dificuldades serão amplamente compensadas por vantagens de outro gênero.

 

A Legião espera que as suas Curiae sejam algo mais que simples máquinas administrativas. Cada uma é o coração e o cérebro do grupo de Praesidia que dela dependem. Sendo a Curia centro de unidade, quanto mais numerosos forem os laços (isto é, os representantes) que a unem aos Praesidia, tanto mais forte será esta unidade e, conseqüentemente, mais seguros estarão os Praesidia de reproduzir o espírito e os métodos da Legião. Ora só nas reuniões da Curia é que os assuntos relacionados com a essência da Legião podem ser discutidos e compreendidos completamente. Daí serão transmitidos aos Praesidia e assim difundidos entre os respectivos membros.

 

11. A Curia deve providenciar para que cada Praesidium seja visitado periodicamente duas vezes por ano, se possível, a fim de o estimular e de se assegurar de que tudo caminha ordenadamente.

 

É da maior importância que tais visitas não se façam com espírito de censura ou de fiscalização, o que levaria a temer a presença dos visitantes e a aceitar com desprazer as suas recomendações; mas num espírito de amor e de humildade, conscientes os visitantes de que têm tanto ou mais a aprender de qualquer Praesidium visitado, como a ensinar-lhe.

 

A visita deverá ser notificada ao Praesidium, com uma semana de antecedência, pelo menos.

 

Ouvem-se, às vezes, queixas com a justificativa de que a visita representa uma “interferência estranha”. Tal atitude manifesta pouco respeito para com a Legião, da qual os Praesidia são simples elementos e à qual devem perfeita lealdade. Dirá a mão à cabeça “não preciso do teu auxílio?” Além disso, tal atitude é


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prova de ingratidão, pois que essas unidades, devem sua existência a isso que eles chamam de “interferência estranha”. São incoerentes consigo mesmos, pois aceitam de bom grado, da Autoridade Central, toda e qualquer iniciativa ou ordem que julgam úteis à organização. É também uma atitude insensata, já que a proposta está de acordo com a experiência universal. Em toda a organização, seja ela religiosa, civil ou militar, o reconhecimento espontâneo compreensivo e prático da Direção Central é essencial à defesa e salvaguarda do espírito e do bom funcionamento. A visita regular às unidades da organização é um fator importantíssimo da aplicação desse princípio, e nenhuma forma competente de governo o descuida.

 

Além de as visitas por parte da Curia serem necessárias ao bem-estar do Praesidium, recorde-se a este que a visita é um ponto estabelecido pelo Regulamento, cumprindo-lhe, por isso, cuidar para que a Curia não se desleixe no cumprimento desta obrigação. Desnecessário é dizer que os visitantes devem ser acolhidos cordialmente.

 

Nesta ocasião, o visitante examinará as listas dos membros, os livros de Secretaria e de Tesouraria, a Folha de Trabalhos e outros elementos da organização do Praesidium, a fim de verificar se estão em ordem, e certificar-se de que todos os membros, em condições de fazer o Compromisso Legionário o fizeram de fato.

 

A inspeção deve ser feita por dois representantes da Curia. Não se requer que estes sejam Oficiais da Curia; tal tarefa pode ser confiada a qualquer legionário experiente. Os visitantes apresentarão aos Oficiais da Curia um relatório escrito sobre o resultado da sua visita. O Concilium fornece modelos destes relatórios.

 

Os defeitos verificados não devem ser, logo de início, motivo de observações públicas, quer no Praesidium quer na Curia. Tratem-se primeiramente com o Diretor Espiritual e o Presidente do Praesidium. Se não der resultado, submeta-se o caso à Curia.

 

12. A Curia, em relação aos membros que a compõem, está mais ou menos na mesma situação que o Praesidium em relação aos seus. Por isso, tudo que o nestas páginas se expõe com relação à assistência e comportamento dos legionários nas reuniões do Praesidium aplica-se igualmente aos representantes do Praesidium nas reuniões da Curia. O zelo manifestado pelos Oficiais em outros serviços nunca compensará o descuido na fiel participação às reuniões da Curia.


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13. A Curia se reunirá em tempo e lugar determinados por ela própria, com aprovação do Conselho Superior imediato. As reuniões deverão fazer-se, se possível, ao menos uma vez por mês. Vejam-se as razões para esta freqüência no número 19 de “1. Normas gerais...”, deste capítulo.

 

14. O Secretário, depois de consultado o Presidente, preparará a agenda da reunião da Curia e deverá entregá-la, com a devida antecedência, aos Diretores Espirituais e Presidentes dos Praesidia nela representados. É ao Presidente que cabe avisar os demais representantes do Praesidium.

 

O programa proposto tem caráter provisório, devendo dar-se aos membros, a maior liberdade possível para a apresentação de novos assuntos.

 

15. A Curia exercerá a máxima vigilância sobre os Praesidia para que estes não se afastem do seu verdadeiro espírito, distribuindo bens materiais, o que seria o fim de todo o trabalho legionário verdadeiramente proveitoso.

 

A inspeção periódica dos livros de contas do Tesoureiro ajudará a Curia a descobrir os primeiros sinais de qualquer irregularidade.

 

16. O Presidente – e o mesmo se diz de todos os dirigentes – deve esforçar-se por não cair numa falta demasiadamente comum: querer assumir a responsabilidade sozinho, das coisas mínimas. O resultado de semelhante tendência seria o enfraquecimento da ação, chegando, nos grandes centros, onde existe muito trabalho, a provocar até a paralisação de toda a máquina legionária. Quanto mais estreito é o gargalo de uma garrafa, tanto mais lentamente dela escorre o líquido, acontecendo, por vezes, que alguém mais impaciente acabe por quebrá-la.

 

Mas eis outro aspecto não menos sério: negar as responsabilidades, a quem pode honestamente assumi-las, é ser injusto não só para com esses legionários, mas também para com a própria Legião. O exercício de um certo grau de responsabilidade é condição indispensável ao desenvolvimento das grandes qualidades do indivíduo. A responsabilidade é capaz de transformar a simples areia em ouro fino.

 

O Secretário não deve limitar-se pura e simplesmente ao trabalho de secretaria, nem o Tesoureiro ao arranjo das contas. A todos os Oficiais, mesmo aos mais experientes e aos promissores, devem ser confiados cargos em que possam desenvolver o


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espírito de iniciativa e de controle, pelos quais serão responsáveis, embora sujeitos à autoridade superior, a quem sempre se subordinarão. Tal procedimento tem como fim essencial, formar os legionários no sentido da responsabilidade pelo bem-estar e progresso da Legião, como poderoso meio de contribuir para a salvação do próximo.

 

“Todas as obras de Deus estão fundamentadas na unidade, pois o fundamento de todas é Ele mesmo – a mais simples e superior de todas as unidades possíveis. Deus é uno, por definição; mas, porque, em nosso entender é também multiforme na sua perfeição e nos Seus atos, segue-se que a ordem e a harmonia são da Sua própria essência”. (Cardeal Newman: A Ordem, Testemunha e Instrumento de Unidade. Esta e as três citações seguintes formam no original uma só passagem).

 

3. A Regia

 

1. O Conselho escolhido pelo Concilium para exercer autoridade sobre a Legião de Maria numa região, logo abaixo do Senatus,será chamado Regia. O Concilium decidirá se a Regia deve estar diretamente filiada ao Concilium ou ao Senatus.

 

2. Quando a categoria de Regia for conferida a um Conselho já existente, este continuará a exercer as suas funções originais, a que acrescentará as novas funções (Veja-se a este respeito o nº 1, parágrafo 19, deste capítulo sobre a Administração da Legião).

 

A Regia é formada pelos seguintes membros:

 

a) Os Oficiais de cada um dos ramos legionários diretamente filiados à Regia;

 

b) E os membros do Conselho, a que foi conferida a categoria de Regia, quando tal for o caso.

 

3. O Diretor Espiritual da Regia será designado pelos Bispos das dioceses, sobre as quais a Regia tem o poder de administração.

 

4. A eleição dos Oficiais dos Conselhos diretamente filiados à Regia está sujeita à aprovação pela mesma Regia. Estes Oficiais têm o dever de participar das reuniões da Regia, a não ser que estejam impedidos por circunstâncias especiais, como por exemplo, a distância.


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5. A experiência comprovou já que a nomeação de correspondentes é a forma mais eficiente de a Regia cumprir as suas funções de controle dos Conselhos distantes, que a ela estão filiados. O correspondente mantém contato regular com o Conselho e, a partir das atas recebidas mensalmente, prepara um relatório que apresenta à Regia, quando lhe for solicitado. Participa das reuniões da Regia e dos debates, mas não tem direito a voto, a não ser que seja membro da Regia.

 

6. Um exemplar das atas das reuniões da Regia deve ser enviado ao Conselho Superior a que está diretamente filiada.

 

7. Qualquer proposta de modificação da composição da Regia, que provoque grande alteração na sua reunião, exige aprovação formal por parte do Concilium, quer ela esteja diretamente filiada ao Concilium, quer a um Senatus.

 

8. Nos dias da antiga Roma, a Regia era a residência e local de trabalho do Pontífice Máximo; mais tarde passou a indicar a capital do rei ou a corte.

 

“Ser múltiplo e distinto e, todavia, ser absolutamente uno – ser a Santidade, a Justiça, a Verdade, o Amor, o Poder, a Sabedoria, ser cada uma destas qualidades tão plenamente como se fosse a única – implica na natureza divina uma ordem infinitamente superior e incompreensível à nossa razão, ordem que é qualidade tão maravilhosa como qualquer outra e o resultado de todas elas” (Cardeal Newman: A Ordem, Testemunha e Instrumento de Unidade).

 

4. O Senatus

 

1. O Conselho designado pelo Concilium para exercer autoridade sobre a Legião numa nação será chamado Senatus. Deve estar filiado diretamente ao Concilium.

 

Nos países, em que, por causa da extensão ou de outros motivos, um único Senatus não puder desempenhar totalmente as suas funções, serão criados dois ou mais Senatus, cada um dos quais dependerá diretamente do Concilium e exercerá autoridade sobre a Legião na área que lhe for confiada.


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 166]

 

2. Quando a categoria de Senatus for conferida a um Conselho já existente, este continuará a exercer as suas funções originais, a que se acrescentarão as novas responsabilidades (Ver nº 1, parágrafo 19, do capítulo Administração da Legião).

 

Os membros do Senatus são os seguintes: a) os Oficiais de cada um dos Conselhos filiados ao Senatus; b) os membros do Conselho a que foi conferida a categoria de Senatus, quando tal for o caso.

 

3. O Diretor Espiritual será nomeado pelos Bispos das Dioceses sobre as quais o Senatus tem jurisdição.

 

4. As eleições dos Oficiais dos Conselhos diretamente filiados ao Senatus estão sujeitas à sua aprovação. Estes Oficiais têm o dever de participar das reuniões do Senatus, a não ser que as circunstâncias (por ex., a distância) os impeçam.

 

5. A experiência já comprovou que a nomeação de correspondentes é a forma mais eficiente de o Senatus cumprir as suas funções de supervisionar os Conselhos distantes. O correspondente mantém contato regular com o Conselho e, a partir das atas recebidas mensalmente, prepara um relatório para apresentar ao Senatus, quando solicitado. Participa das reuniões e dos debates, mas não tem direito a voto, a não ser que seja membro do Senatus.

 

6. O Senatus deve enviar ao Concilium um exemplar das atas das respectivas reuniões.

 

7. Qualquer proposta de modificação da composição do Senatus que afete de forma significativa e fundamental a participação na reunião, exige aprovação oficial do Concilium.

 

“Deus é a Lei infinita, bem como o Poder, a Sabedoria e o Amor infinitos. A própria noção de ordem exige a de dependência. Se existe ordem nas qualidades divinas, devem relacionar-se mutuamente e, embora perfeitos em si mesmos, cada um deve atuar sem prejuízo da perfeição dos demais, chegando mesmo, aparentemente, a ceder em benefício dos restantes, em certas ocasiões” (Cardeal Newman: A Ordem, Testemunha e Instrumento de Unidade).


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5. O Concilium Legionis Mariae

 

1. Haverá um Conselho Central chamado “Concilium Legionis Mariae”, revestido da suprema autoridade administrativa da Legião. Salvos sempre os direitos da autoridade eclesiástica, como estão expostos nestas páginas, só a este Conselho pertence o direito de criar novos regulamentos, alterar ou interpretar os estabelecidos; fundar ou suprimir quaisquer Praesidia e Conselhos subordinados, no mundo inteiro; determinar o modo de agir em todas as situações; decidir todas as disputas e apelações, todas as questões de filiação legionária e tudo o que se refere à oportunidade de empreendimentos ou maneiras de os realizar.

 

2. O “Concilium Legionis Mariae” se reúne mensalmente, em Dublim, na Irlanda.

 

3. O Concilium pode transferir parte das suas funções a Conselhos subordinados ou a Praesidia individuais e modificar, a qualquer momento, o conjunto desta delegação.

 

4. O Concilium pode unir às suas funções, as funções de um ou mais Conselhos subordinados.

 

5. O “Concilium Legionis Mariae” será constituído pelos Oficiais de todos os corpos legionários a ele diretamente filiados. Os Oficiais das Curiae de adultos da Arquidiocese de Dublim formam o núcleo da participação nas reuniões do Concilium. Dada a distância, a presença regular da maioria dos outros grupos legionários não é possível. O Concilium reserva-se o direito de variar as representações das Curiae de Dublim.

 

6. O Diretor Espiritual do Concilium será nomeado pela Hierarquia Eclesiástica da Irlanda.

 

7. As eleições dos Oficiais dos Conselhos diretamente filiados ao Concilium estão sujeitos à sua aprovação pelo mesmo Concilium.

 

8. O Concilium nomeia correspondentes para exercer as funções de administração dos Conselhos distantes, de que tem a responsabilidade. O correspondente mantém contato regular com o respectivo Conselho e, a partir das atas recebidas mensalmen-


[Capítulo 28      Administração da Legião      página 168]

 

te, prepara um relatório, a apresentar ao Concilium, quando lhe for pedido. Participa das reuniões e dos debates, mas não tem direito a voto, a não ser que seja membro de direito do Concilium.

 

9. Os representantes do Concilium, devidamente autorizados, podem entrar em qualquer área da Legião, visitar os grupos e Conselhos, exercer atividades de caráter promocional e, em geral, quaisquer funções que só ao Concilium competem.

 

10. Só ao Concilium Legionis Mariae compete, de acordo com os Estatutos e regras da Legião, o direito de reformar o Manual.

 

11. A mudança de Estatutos não pode ser feita, sem a concordância da maior parte dos corpos legionários. Estes devem ser notificados através dos respectivos Conselhos, de qualquer mudança em vista. Precisam de tempo suficiente para manifestarem os seus pareceres a respeito do assunto. Estes pareceres podem ser comunicados pelos representantes presentes na reunião do Concilium ou através de comunicação escrita.

 

“O Poder de Deus é certamente infinito, mas está, todavia, subordinado à Sua Sabedoria e Justiça; a Sua Justiça é também infinita, mas está subordinada ao Seu Amor; infinito é o Seu Amor; mas sujeito à Sua infinita Santidade. Harmonizam-se de tal maneira as qualidades que, entre eles, nenhum choque é possível, pois cada um é o maior na sua própria esfera. Deste modo uma infinidade de infinitos, atuando cada um segundo o seu modo de ser, juntam-se na unidade infinitamente simples de Deus” (Cardeal Newman: A Ordem, Testemunha e Instrumento de Unidade).

 

29

 

LEALDADE LEGIONÁRIA

 

Organizar significa unir num todo, vários elementos espalhados. Desde o simples membro, passando por todos os graus hierárquicos, até à suprema autoridade da Legião, deve haver um princípio de intensa unidade. Não levar em conta este princípio pode ocasionar um afastamento proporcional dos princípios fundamentais da Legião.


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Numa organização de voluntários, o cimento da união é a lealdade: lealdade do membro ao Praesidium e do Praesidium à Curia, e assim por diante, pelos graus hierárquicos, até ao Concilium Legionis; e sempre e por toda a parte, lealdade à Autoridade Eclesiástica.

 

O verdadeiro espírito de lealdade há de inspirar ao simples legionário, ao Praesidium e ao Conselho, o temor de uma atuação independente. Em todos os casos duvidosos ou situações difíceis e tratando-se de novos projetos ou orientações, procure-se a autoridade competente, em busca de direção e aprovação.

 

O fruto da lealdade é a obediência, que se manifesta pela aceitação pronta de situações e decisões desagradáveis; e, convém destacar bem, por uma aceitação alegre. Esta obediência cordial e pronta é sempre difícil. Às vezes, contraria de tal modo as nossas inclinações naturais que atinge o heroísmo, pois se transforma numa espécie de martírio. É assim que Santo Inácio de Loiola a considera: “Aqueles, diz ele, que por um generoso esforço, tomaram a resolução de obedecer, adquirem grandes méritos: pelo sacrifício que exige, a obediência assemelha-se ao martírio”. A Legião espera de seus filhos, em toda a parte, esta docilidade heróica e suave para com a autoridade legítima, seja ela qual for.

 

A Legião é um exército – o exército da Virgem humílima. Deve, pois, mostrar no trabalho cotidiano aquele heroísmo e sacrifício – mesmos supremos – que caracterizam os exércitos da terra. Ninguém duvida de que também aos legionários de Maria serão exigidos os mais heróicos sacrifícios. Não serão chamados muitas vezes, é certo, a oferecer os corpos aos ferimentos e à morte, como os soldados da terra, mas, sim, a subir cada vez mais gloriosamente às regiões do espírito, sempre prontos a oferecer os seus sentimentos, o seu parecer, a sua independência, o seu orgulho, a sua vontade, aos golpes da contradição e à própria morte, por uma inteira submissão – quando a autoridade competente o exigir.

 

“Sendo a obediência a alma de todo o governo, desobedecer é um mal indizível” diz Tennyson. Mas nem só a desobediência formal quebra o fio da vida legionária: quebram-no também os Oficiais que se desleixam no cumprimento dos seus deveres de participação nas reuniões de Praesidium ou nas reuniões de correspondência, isolando assim os Praesidia ou os Conselhos da grande corrente vital da Legião. Mal semelhante é causado por aqueles Oficiais ou outros membros que, embora participando


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das reuniões, tomam qualquer atitude, seja qual for o motivo que a provoque, que propositalmente conduza à desunião.

 

“Jesus obedecia à sua Mãe. Lestes que tudo quanto os evangelistas nos contam da vida oculta de Jesus Cristo em Nazaré, com José e Maria, se resume nestas palavras de S. Lucas: “era-lhes submisso” e “crescia em sabedoria, em estatura e em graça” (Lc 2, 51-52). Haverá nisto alguma coisa que não combina com a Sua divindade? Certamente que não. O Verbo fez-se carne; desceu até tomar uma natureza em tudo semelhante à nossa, exceto no pecado; veio, diz Ele, “não para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28), e ser “obediente até à morte” (Fl 2, 8): eis porque Ele quis obedecer a Sua Mãe. Em Nazaré sujeitou-se a Maria e a José, as duas pessoas privilegiadas que Deus colocou junto d’Ele. Maria Santíssima participa, em certa medida, da autoridade do Eterno Pai sobre a Humanidade de Seu Filho. Jesus podia dizer de Sua Mãe o que disse de Seu Pai do Céu: “Eu faço sempre aquilo que é do seu agrado” (Jo 8, 29 – Marmion: Cristo, Vida da Alma).

 

30

 

SOLENIDADES LEGIONÁRIAS

 

A Curia tem o dever de reunir de tempos em tempos, os legionários do seu setor, a fim de se conhecerem mutuamente e fortalecerem entre si o espírito de união.

 

As solenidades da Legião são as seguintes:

 

1. A Acies

 

Dada a importância da devoção à Santíssima Virgem dentro da Legião, os legionários se consagrarão, todos os anos individual e coletivamente a Nossa Senhora, no dia 25 de Março ou em outro dia conveniente, nas proximidades desta data, numa cerimônia que tem o nome de Acies.

 

Esta palavra latina, que significa um exército em ordem de batalha, designa, com razão, a cerimônia em que os legionários, como um só corpo, se reúnem para renovar a sua fidelidade a Maria, Rainha da Legião, e dela receber a força e a bênção para


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um novo ano de combate contra o exército do mal. Contrasta, além disso, com Praesidium, que apresenta a Legião, não em formação de combate, mas espalhada em várias seções, ocupadas cada qual no seu próprio trabalho.

 

A Acies é a grande solenidade do ano, a festa central da Legião. Insista-se, pois, com cada legionário, sobre a importantíssima obrigação de a ela assistir. A idéia central, sobre a qual tudo na Legião se sustenta, é o trabalho em união e sob a dependência de Maria, sua Rainha. A Acies é a solene declaração desta união e dependência, a renovação – individual e coletiva – do compromisso de fidelidade da Legião. Por isso, todo o legionário que, podendo assistir, não o faz, tem pouco ou nenhum espírito da Legião. Não vale a pena ter tais membros.

 

Eis o processo a seguir:

 

No dia fixado para a cerimônia, os legionários se reunirão, se possível, numa igreja. Em lugar conveniente será colocada a imagem da Imaculada Conceição, condignamente enfeitada de flores e velas e, em frente, o Vexillum Legionis, modelo grande, conforme atrás ficou descrito, no capítulo 27.

 

A cerimônia começa por um cântico, seguido da reza das Orações Iniciais, incluindo o Terço. Em seguida, um sacerdote falará sobre o significado da Consagração a Nossa Senhora.

 

Terminada a alocução, começa o desfile em direção à imagem. À frente vão os Diretores Espirituais, um a um; atrás, os legionários, um a um, ou dois a dois, se forem numerosos. Chegando em frente do Vexillum, param e, colocando a mão sobre a haste do estandarte, pronunciam, (um a um, ou dois a dois), em voz alta e nestes termos, a consagração individual: “Eu sou todo vosso, ó minha Rainha e minha Mãe, e tudo quanto tenho vos pertence”. Feito isto, largam o Vexillum, inclinam-se levemente e afastam-se.

 

Se os legionários forem numerosos, a consagração individual poderá durar bastante tempo, mas a cerimônia não deixará de ser, por isso, menos impressionante. O órgão ou harmônio contribuirá para tornar o desfile mais solene.

 

Não se pode usar mais do que um Vexillum. Tal processo abreviaria a cerimônia, é certo, mas destruiria a unidade. A pressa soaria desarmoniosamente no conjunto. A característica especial da Acies há de ser a ordem e a dignidade.

 

Logo que todos estejam nos seus lugares, um sacerdote, em nome de todos os presentes, lerá em alto voz um ato de Consagração a Nossa Senhora. Depois, de pé, rezam a Catena, finda a


[Capítulo 30      Solenidades Legionárias      página 172]

 

qual, se é possível, dar-se-á a Bênção do Santíssimo Sacramento. A cerimônia termina com as Orações Finais da Legião e um cântico.

 

Pode-se incluir a Missa na Acies. Ocupará talvez o lugar da Bênção do Santíssimo Sacramento, mantendo sem alteração os outros elementos da cerimônia. A celebração do Mistério Pascal absorverá em si e apresentará ao eterno Pai, pelo “único Mediador” e no Espírito santo, as consagrações e ofertas espirituais que acabaram de ser colocadas nas mãos maternas da “mais generosa cooperadora e escrava humilde do Senhor” (LG 61).

 

A fórmula da consagração: “Eu sou todo vosso, etc.” não deverá ser pronunciada, mecânica e irrefletidamente. Cada um deverá concentrar nela o mais perfeito grau de entendimento e de gratidão. Para conseguirem isto mais facilmente, convém estudar a “Síntese Marial” que consta do Apêndice 11. Esforça-se esta por mostrar o papel único desempenhado por Maria na salvação e, por conseqüência, a extensão da dívida de cada um para com Ela. Talvez a Síntese possa constituir o objeto da Leitura Espiritual e da Alocução na reunião do Praesidum um pouco antes da Acies. Sugere-se o seu uso também como Ato Coletivo de Consagração na própria cerimônia.

 

“Maria é o terror das potestades do inferno. Ela é “terrível como um exército em ordem de batalha” (Ct 6, 9) porque, como Chefe experimentado, sabe dispor do Seu poder, da Sua misericórdia e das Suas orações, para confusão dos Seus inimigos e proveito dos Seus servos” (S. Afonso de Ligório).

 

2. A Reunião Geral Anual

 

No dia mais próximo possível da festa da Imaculada Conceição, deverá ser feita a reunião do todos os membros. Pode-se começar a solenidade, se assim o desejarem, com uma cerimônia na igreja.

 

Segue-se um sarau ou encontro festivo. Se as Orações da Legião não tiverem sido rezadas na cerimônia da igreja. Deverão ser rezadas no sarau, em três vezes distintas, como nas reuniões.

 

Convém que na execução do programa tomem parte ativa só os legionários. Após números mais leves, poderão ser acrescentados alguns pequenos discursos e composições de interesse legionário.

 

Torna-se desnecessário recomendar que nesta festa não há lugar para formalidades cerimoniosas, sobretudo aquelas em que


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os legionários participantes são numerosos. Tenha-se em vista que todos os presente tomem um maior e mais íntimo conhecimento uns dos outros. Para isso, o programa deve oferecer oportunidade para se circular e conversar. Os dirigentes terão o cuidado de que os membros não façam grupinhos à parte, atrapalhando assim o fim principal da festa, que é alimentar o espírito de união e afeto no seio da família legionária.

 

“A alegria embebia de um doce encanto a cavalaria espiritual de S. Francisco. Como verdadeiro cavaleiro de Cristo, Francisco sentia uma indizível felicidade de servir o Seu Senhor, em segui-lO na pobreza, e em se assemelhar a Ele no sofrimento; e foi esta ditosa felicidade conseguida no serviço, na imitação e  no sofrimento de Cristo, que ele anunciou a toda a terra, como nobilíssimo cantor e poeta de Deus. Toda a vida de Francisco foi regulada pela marca da alegria como característica sua. Com calma e júbilo imperturbáveis, ele cantava para si e para Deus no íntimo do seu coração, cânticos de alegria. O seu esforço constante tendia a conservá-lo alegre interior e exteriormente. Na intimidade dos seus irmãos sabia tocar com perfeição a nota da alegria pura e fazê-la atingir uma tal harmonia que eles sentiam-se elevados a um ambiente quase celeste. A mesma nota de satisfação tomava conta da conversa do Santo com os homens. Mesmo os seu sermões, apesar do caráter penitencial, se tornavam hinos de júbilo, e a sua simples presença era ocasião de alegria profunda para todas as pessoas, qualquer que fosse a sua condição social” (Felder: Os Ideais de S. Francisco de Assis).

 

3. Passeio anual

 

Esta festa data dos primeiros dias da Legião. Não é obrigatória, mas recomendada. Pode tomar a forma de excursão, peregrinação ou festa ao ar livre. A Curia determinará se deve ser festa da Curia ou do Praesidium. Neste último caso, poderão reunir-se dois ou mais Praesidia para esse fim.

 

4. O Sarau do Praesidium

 

Todo o Praesidium, assim o recomendamos insistentemente, organizará uma função recreativa nas proximidades da Festa da Natividade de Nossa Senhora. Nos centros onde existem vários Praesidia, alguns deles, se o desejarem, podem fazer a festa em conjunto.


[Capítulo 30      Solenidades Legionárias      página 174]

 

Poderão ser convidadas, para assistir, pessoas idôneas que, não sendo legionárias, possam deste modo ser levadas a entrar na Legião.

 

Recomenda-se a reza de todas as Orações Legionárias, incluindo o Terço, em três partes distintas, como nas reuniões do Praesidium. O tempo gasto com estes atos de piedade é relativamente pouco; e a homenagem assim prestada a Nossa Senhora será amplamente compensada por um maior êxito da festa. E, porque a Rainha da Legião é também a “causa da nossa alegria”, há de ouvir as preces a Ela dirigidas, convertendo essas horas em momentos de especial felicidade.

 

Entre as composições musicais deve ser intercalada, ao menos, uma breve palestra sobre a Legião. Desta maneira, todos serão levados a um mais perfeito conhecimento da organização e o programa se tornará, eventualmente, mais variado. O simples divertimento, sem nada que o eleve, torna-se sem sabor.

 

5. O Congresso

 

O primeiro Congresso Legionário foi celebrado pela Curia de Clare, na Irlanda, no Domingo de Páscoa de 1939. E foi tal o êxito obtido que, como acontece sempre, outros Conselhos o imitaram, sendo hoje uma solenidade firmemente enraizada no sistema da Legião.

 

O Congresso deve restringir-se à área de um Comitium ou de uma Curia. Assembléias de áreas mais extensas não estariam de acordo com a idéia primitiva dos Congressos e impediriam que fossem atingidos os frutos desejados. Façam-se, embora, reuniões deste gênero, mas não poderão chamar-se Congressos nem substituí-los. Nada impede, porém que se convidem visitantes de outras circunscrições.

 

Decidiu o Concilium que uma determinada área não realize o Congresso senão de dois em dois anos. Dedique-se para isso, um dia inteiro. A disponibilidade de uma Casa Religiosa resolverá muitas dificuldades. Se for possível, começará pela Santa Missa, seguida de uma pequena homilia, feita por um Diretor Espiritual ou outro Sacerdote, e terminará com a Bênção do Santíssimo.

 

O dia será ocupado por sessões, cada uma com o seu assunto próprio. Os assuntos serão expostos, em poucas palavras, por alguém de antemão preparado. Depois segue-se a discussão, em que todos devem tomar parte. Esta participação geral constitui a verdadeira vida do Congresso.


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Queremos insistir mais uma vez com os Oficiais encarregados de dirigir os debates, que tenham o cuidado de não falar demais e não intervenham constantemente nas discussões. Os Congressos, como as reuniões dos Conselhos, devem correr segundo o método parlamentar, isto é, com a participação de todos os presentes dirigida pela Presidência.

 

Há presidências que tendem a comentar as palavras de cada um dos oradores ou assistentes. Tal modo de agir vai contra o propósito do Congresso e não deve ser tolerado.

 

É para desejar a presença de representantes dos Conselhos Superiores. Estes podem ficar responsáveis por alguns dos encargos do Congresso, tais como presidir e abrir as discussões, etc.

 

Evite-se toda e qualquer tentativa de apenas falar bonito. Criariam um ambiente irreal, detestado pela Legião, em que morreria a inspiração e os problemas não seriam resolvidos.

 

O Congresso pode tomar duas feições: ou é a reunião de todos os legionários ou apenas a dos Oficiais dos Praesidia. No primeiro caso, é possível, desde o início, repartir os legionários conforme os seus cargos, e formar um grupo com os membros sem cargos determinados. Em seguida, discutem-se as obrigações e necessidades de cada grupo. Poderiam também distribuir-se conforme os trabalhos em que estão envolvidos. Tal divisão, porém, não é obrigatória. Qualquer que seja o modo de os distribuir, devem ser evitadas outras divisões nas sessões seguintes, pois não teria sentido juntar os membros para os manter separados a maior parte do tempo. Note-se que as obrigações dos Oficiais têm um objetivo mais alto do que as funções comuns de cada cargo. O Secretário, por exemplo, cujo compromisso se restringisse ao livro das Atas, seria, com certeza, um fraco Oficial. Como todos os Oficiais são membros da Curia, procurarão investigar, nas suas sessões, os métodos de aperfeiçoamento dos trabalhos, quer no que se refere às suas reuniões atuais, quer à sua administração, em geral.

 

O Congresso não deve ser uma reunião de Curia a mais, em que se trata das mesmas questões e particularidades administrativas. O Congresso ocupa-se do que é fundamental. À Curia pertence pôr em prática as lições aprendidas no Congresso.

 

Os assuntos a tratar devem dizer respeito aos princípios básicos da Legião:

 

a) A espiritualidade da Legião.

 

A Legião não terá sido compreendida, enquanto os membros não conhecerem, numa medida satisfatória, os múltiplos aspectos da sua espiritualidade; nem trabalhará como deve, enquanto esta espiritualidade não tomar conta tão intimamente de


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todos os seus trabalhos, que se possa dizer que são o seu motivo e a sua alma. Por outros termos, a espiritualidade há de animar o apostolado, como a alma anima o corpo.

 

b) as qualidades que são exigidas do legionário e as diversas formas de desenvolvê-las.

 

c) os métodos da Legião, incluindo a direção das reuniões e a questão importantíssima dos relatórios dos membros, isto é, como apresentá-los e comentá-los.

 

d) os trabalhos da Legião, incluindo o aperfeiçoamento dos métodos e os projetos de novas obras que possibilitem à Legião atingir todas as pessoas individualmente.

 

Não faltará no Congresso uma palestra especial feita por um Diretor Espiritual ou qualquer legionário qualificado sobre um dos aspectos da espiritualidade, do ideal ou dos deveres legionários.

 

As sessões começam e terminam com a oração. As Orações Legionárias serão distribuídas em três etapas.

 

Sigam-se com exatidão os horários e diretrizes dos organizadores. O desleixo neste ponto estragará o dia.

 

Finalmente, convém variar os programas de Congresso sucessivos, dentro da mesma área.

 

1. Embora convenha movimentar, no correr dos anos, o maior número possível de assuntos pouco conhecidos, de fato, porém, apenas alguns, podem ser tratados, em cada Congresso.

2. É indispensável tirar a impressão de coisa parada e cansativa. Deve-se variar a todo o custo.

3. O bom êxito de um Congresso sugere naturalmente a inserção do mesmo programa no Congresso seguinte. Note-se, porém, que o bom êxito alcançado se deve, em parte, à novidade de certos assuntos, novidade que se perdeu com a sua apresentação. Em resumo: tendo a novidade de ser um estimulante necessário em todo o Congresso, espera-se dos seus promotores um projeto sério e muito bem feito.

 

“Se queremos saber como a alma fiel deve preparar-se para a vinda do Divino Paráclito, vamos em espírito ao Cenáculo onde estão reunidos os discípulos. Aí, conforme a ordem do Mestre, perseveram na oração, esperando o Poder do Alto, que há de vir revesti-los da armadura necessária para a luta que os aguarda. Nesta sagrada casa de recolhimento e de paz, o nosso olhar de saudação pára sobre Maria, Mãe de Jesus, a obra-prima do Espírito Santo, o templo do Deus Vivo. Dela sairá, pela ação do mesmo Espírito, como de ventre maternal, a Igreja Militante, que esta nova Eva representa e encerra. (Guéranger: O Ano Litúrgico).

 

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31

 

EXPANSÃO E RECRUTAMENTO

 

1. O dever de expandir a Legião não é dever apenas dos Conselhos Superiores e dos Oficiais das Curiae. Pertence não só a cada um dos membros das Curiae, mas, individualmente, a cada um dos legionários. A eles se deve fazer compreender esta obrigação e pedir contas, de vez em quando, do que a este respeito realizaram. A maneira mais vulgar de cumprir este dever é o contato pessoal ou a correspondência, mas cada um descobrirá sempre, para isto, novas oportunidades.

 

Se numerosos centros tomassem a sério a difusão da Legião, esta estaria brevemente em toda a parte e o campo do Pai de Família teria multidões de operários decididos (Lc 10, 2). Por isso, recordem-se com freqüência a todos os membros os dois importantes temas da expansão e do recrutamento, a fim de que tomem consciência nítida dos seus deveres nesta matéria.

 

2. Um núcleo ativo da Legião é fonte de um bem incalculável. Ora, é evidente que o bem se duplicará pela fundação de um segundo núcleo. Por isso, todos os membros (e não só os Oficiais) devem esforçar-se por conseguir tal fim.

 

Quando os relatórios dos membros e outros pontos da agenda tiverem de ser abreviados de modo habitual, a fim de terminar pontualmente a reunião à hora marcada, é sinal de que o Praesidium atingiu um grau de desenvolvimento em que a criação de um novo núcleo é não só desejável, mas necessária. Caso contrário, sobrevirá um estado de acomodação, em que diminuirão o entusiasmo pelo trabalho e o número de membros. E, então, o Praesidium não só perderá o poder de transmitir a vida a novas fundações, mas há de lutar com dificuldade para manter a própria existência.

 

Contra o projeto da fundação de um novo Praesidium na mesma localidade, alguns dirão, talvez, que o atual número de legionários satisfaz plenamente a todas as necessidades existentes. Em resposta a esta objeção, desejamos sublinhar que o fim principal da Legião é a santificação dos seus membros e, mediante a ação destes, a santificação da própria sociedade. Por isso, e logicamente, o aumento dos membros deve ser, também, um dos fins principais. É possível que nas pequenas localidades seja difícil encontrar trabalho para os novos membros. Este problema não deve, todavia, impedir a Legião de aceitá-los nem também de procurá-los. Não podemos pôr limites ao recrutamento.


[Capítulo 31      Expansão e Recrutamento      página 178]

 

Correríamos o risco de excluir elementos melhores do que aqueles que já trabalham em nossas fileiras. Uma vez remediadas as necessidades mais urgentes, vamos mais além e examinemos de mais perto os problemas locais. O trabalho é necessário ao funcionamento da máquina. Não o temos? Vamos procurá-lo, que existe.

 

Ao fundar um novo Praesidium onde outro já existe, devemos providenciar para que os Oficiais e um bom número de membros do novo Praesidium sejam transferidos do antigo. Os Praesidia considerarão grande honra oferecer os seus melhores elementos para a formação de um novo centro. Não há maneira mais proveitosa de podar um velho núcleo. O vazio deixado no seio do Praesidium, por esta generosa doação, será preenchido em breve e os seus trabalhos frutificarão por um aumento de bênçãos do céu.

 

Nas cidades ou localidades onde não existir a Legião e, portanto, onde não seja possível encontrar legionários experimentados, os fundadores do novo Praesidium deverão fazer um sério e assíduo estudo do Manual e dos seus comentários.

 

No início do primeiro Praesidium numa localidade, variem quanto possível os trabalhos. Tal modo de agir resulta em benefício geral do Praesidium: as reuniões aumentam de interesse, e será oferecida oportunidade a todos os membros para manifestarem os seus gostos e talentos.

 

3. Um aviso a respeito do recrutamento dos legionários. Há um perigo real em sermos exigentes demais nas condições de admissão. É evidente que o desenvolvimento espiritual e humano dos que já trabalharam por algum tempo nas fileiras da Legião deve ser superior ao do comum. Tenhamos isto presente no espírito para não exigirmos de um membro novo aquilo que só depois de algum tempo conseguiram alcançar os membros existentes.

 

Os Praesidia desculpam-se correntemente do reduzido número de novos membros, com o pretexto de que os elementos com condições para serem legionários são raros. Um exame atento mostra como raramente se justifica esta explicação. Somos, antes, levados a pensar que a culpa é quase sempre do próprio Praesidium. Com efeito:

 

a) Ou não existe esforço sério para recrutar novos membros, o que implica grave desleixo quer individual, quer coletivo, da parte dos legionários.

 

b) Ou o Praesidium impõe, erradamente, aos novos candidatos, condições tão duras que teriam excluído a maior parte dos membros antigos e atuais.

 

Os responsáveis costumam dizer que não devem correr o risco de que membros incapazes ingressem na Legião. Mas não


[Capítulo 31      Expansão e Recrutamento      página 179]

 

devemos negar a todos, só por este motivo, as vantagens da admissão concedidas a um escasso número. Será que devemos ser exigentes demais ou muito pouco exigentes? É preferível deixar de lado o primeiro extremo, pois ele faria desaparecer o apostolado dos leigos por falta de operários. O segundo apenas ocasionará faltas que podem ter remédio.

 

O Praesidium adotará um meio termo, não receando expor-se, inevitavelmente, a certos riscos. O único meio de verificar se os elementos são bons ou não é experimentá-los. Se alguém não serve, não tardará a desanimar sob o peso do trabalho. Nisto está a garantia da Legião.

 

Quem jamais ouviu dizer que se renunciou a levantar um exército, só por se temer o recrutamento de incapazes? A formação militar tem por fim, justamente, moldar e manobrar grande quantidade de homens de tipo médio. Assim, também, a Legião, como um exército, deve aspirar a agrupar grande número de membros. Impõe, é certo, as suas condições de admissão; mas estas não devem ser tais que impeçam a entrada de bons elementos de tipo médio. A sua organização profundamente espiritual e firme foi feita não para super-homens, mas para pessoas comuns, que precisam ser moldadas e dirigidas dentro de uma disciplina. Não se trata, pois, de admitir indivíduos tão santos e discretos em tudo que não sejam uma verdadeira representação dos cristãos leigos.

 

Em síntese, o que há a lamentar não é o pequeno número de indivíduos capazes, mas o pequeno número daqueles que estão prontos a assumir as responsabilidades de legionários. Isto leva-nos às considerações seguintes:

 

a) Pessoas capazes podem deixar de entrar na Legião, porque a atmosfera que se respira no Praesidium é excessivamente carregada ou rígida ou, por outros motivos, pouco simpática.

 

Embora a Legião não seja só para jovens, é, todavia, a estes que deve especialmente dirigir-se, procurando satisfazer às suas nobres aspirações. Se a Legião não consegue atrair a juventude, falha no melhor dos seus fins, pois o movimento que não consegue prender a mocidade nunca exercerá grande influência. Mais: a juventude é a chave do futuro. Os seus gostos razoáveis devem ser compreendidos e tomados em consideração. Uma juventude alegre, generosa e entusiasta não deve ficar fora, por causa de exigências incompatíveis com a sua idade ou que talvez não passem de estraga-prazeres.

 

b) A desculpa habitual “não tenho tempo” é provavelmente verdadeira. A maior parte das pessoas tem o tempo tomado. Mas


[Capítulo 31      Expansão e Recrutamento      página 180]

 

não é com atividades de caráter religioso: estas vêm em último lugar. Representaria para tais pessoas um benefício de alcance eterno fazer-lhes compreender que estão vivendo de acordo com uma escala errada de valores. O apostolado deve ocupar o primeiro lugar, por isso algumas das outras coisas devem descer-lhe o seu lugar.

 

“A lei primária de toda a sociedade religiosa é perpetuar-se através dos tempos, estender a sua ação apostólica por todo o mundo e atingir o maior número possível de almas. ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra’ (Gn 1, 28). Esta lei da vida impõe-se, como um dever, a cada pessoa que se torna membro da Sociedade. O Padre Chaminade formula-a nestes termos: ‘Devemos realizar conquistas pela Virgem Santíssima, fazer compreender àqueles com quem vivemos como é agradável pertencer a Maria, de modo a induzir muitos deles a enfileirar e marchar conosco avante.’” (Breve tratado de Mariologia, por um Marianista).

 

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ANTECIPANDO OBJEÇÕES PROVÁVEIS

 

1. “Aqui não há necessidade da Legião”.

 

Pessoas cheias de zelo, desejosas de fundar a Legião numa nova área, podem esbarrar com o obstáculo dos que dizem: “Aqui não há necessidade da Legião”. Ora, como a Legião não é uma organização fundada para um determinado gênero de trabalho, mas, antes de mais nada, para desenvolver o zelo e o espírito apostólico dos católicos (aplicados sem distinção a qualquer gênero de trabalho), semelhante resposta indicaria que em tal lugar não há necessidade de zelo por parte dos que professam a fé cristã. Uma tal negação não merece ser levada em consideração. No dizer do Padre Raul Plus, “O cristão é alguém a quem Deus confiou os seus semelhantes”.

 

O exercício de um intenso apostolado é absolutamente necessário em toda parte, sem exceção, por múltiplas razões.


[Capítulo 32      Antecipando Objeções Prováveis      página 181]

 

1º Porque devemos dar aos membros do rebanho, que disso são capazes, uma oportunidade real para viverem a vida apostólica.

 

2º Porque a movimentação de todo o povo pelo apostolado é absolutamente necessária nos nossos tempos, para o impedir, em matéria religiosa, de cair na rotina ou no materialismo.

 

3º Porque o trabalho paciente e intenso de tais operários apostólicos é necessário para orientar aqueles que se sentem frustrados na vida ou correm o risco de se desencaminhar.

 

Sobre os superiores recai a responsabilidade de desenvolver ao máximo a capacidade espiritual dos que lhes estão confiados. Que dizer então do apostolado, elemento distintivo e essencial da vida cristã? Temos que chamar, portanto, as pessoas para o apostolado. Mas, de que valerá um tal chamamento, sem lhes fornecermos os meios para que o realizem? É quase como ficar calado. É que muitos dos que ouvem o chamado não conseguem ter iniciativa para realizar alguma coisa por si mesmos se não abandonados às suas próprias forças. Por conseguinte, é necessário oferecer-lhes uma máquina apropriada, na forma de uma organização apostólica.

           

2. “Não temos pessoas capazes”.

 

Esta obrigação provém, as mais das vezes, da idéia errônea sobre o tipo de trabalhador exigido. Ousamos afirmar que, de maneira geral, nos escritórios, nas fábricas, nas oficinas, há muitas pessoas com condições para serem legionários.

 

Estes legionários em potencial podem ser instruídos ou não, pessoas que vivem do seu trabalho ou dos seus rendimentos e, até mesmo, desempregados. O serviço da Legião não é monopólio de uma cor, raça ou classe, pois em todas elas existem legionários. A Legião tem o especial dom de saber alistar ao serviço da Igreja esta força oculta, esta nobreza de caráter ainda não desenvolvida. Monsenhor Alfred O’Rahilly, como conclusão do seu estudo sobre a atividade da Legião, escreveu: “Fiz uma grande descoberta ou, antes, verifiquei que ela estava feita: a existência de um heroísmo latente em homens e mulheres aparentemente comuns e a captação de fontes de energia até agora desconhecidas”.

 

Quanto às qualidades exigidas para ser membro da Legião, não devemos ser mais exigentes do que os Papas que declararam que em qualquer meio podemos formar e treinar um grupo de pessoas escolhidas para as tarefas do apostolado.


[Capítulo 32      Antecipando Objeções Prováveis      página 182]

 

Sobre este assunto convém ler atentamente o parágrafo 3 (b) do Capítulo 31, “Expansão e Recrutamento” e igualmente o nº 6, do Capítulo 40, intitulado “A Legião, Auxiliar do Missionário”, em que se insiste no vasto movimento de adesões à Legião entre os neo-convertidos em terras de missão.

 

Se em qualquer lugar surgisse uma séria dificuldade no recrutamento legionário, este fato indicaria um nível espiritual extraordinariamente baixo. E isso não deveria paralisar nossa ação, mas, pelo contrário, demonstraria a extrema necessidade de um núcleo da Legião para desempenhar o papel de bom fermento. O próprio Jesus Cristo propõe a utilização do fermento (Mt 13, 33) para a transformação da sociedade.

 

Lembremo-nos de que para a formação de um Praesidium bastam quatro, cinco ou seis membros. Se estes se aplicarem cuidadosamente ao trabalho e compreenderem as suas exigências, depressa descobrirão e recrutarão outros membros idôneos.

 

3. “As pessoas se ofenderiam com a visita da Legião”.

 

Se assim fosse na realidade, a conclusão a tirar seria a necessidade de escolher outro gênero de trabalho e nunca o abandono da idéia de fundar a Legião, com as magníficas possibilidades que ela oferece aos seus membros e à comunidade. Fique, todavia, claro que, até agora, a Legião nunca experimentou, em matéria de visitas, dificuldades permanentes ou gerais. Na hipótese de a visita ser feita com verdadeiro espírito de apostolado legionário, conforme as orientações destas páginas, podemos afirmar, de uma maneira geral, que a frieza para com os legionários é prova de que as pessoas são indiferentes à religião ou mesmo de que são contra ela. Precisamente onde os legionários são menos desejados é que a sua atuação se torna mais necessária. Dificuldades deste gênero, experimentadas nas primeiras visitas, não justificam a sua interrupção. Os legionários que enfrentaram corajosamente estas barreiras de gelo conseguiram, quase sempre, não só derretê-las, como também remover as suas causas ocultas, mais temíveis ainda.

 

A família – pensemos bem sobre isso – é o alvo estratégico. Conquistar a família é ter nas mãos a sociedade. E como ganhá-la, sem nos aproximarmos dela?


[Capítulo 32      Antecipando Objeções Prováveis      página 183]

           

4. “Os jovens trabalham a sério o dia todo: precisam de tempo livre para descansar”.

 

Por mais razoáveis que pareçam, se estas palavras fossem tomadas ao pé da letra, acabariam deixando o mundo inteiro sem religião, pois o trabalho da Igreja não é obra de desocupados. Além disso, muitas vezes, a juventude, cheia de vida, emprega o seu tempo livre em atividades e divertimentos pouco sadios e prejudiciais a ela mesma e aos outros. Muitos jovens não buscam um verdadeiro lazer e um saudável descanso. Isso leva a um materialismo prático. Depois de alguns anos, o coração desses jovens está seco e endurecido. Perdem muito cedo a juventude, com todos os seus sonhos. Isso quando as coisas não terminam de forma pior ainda. S. João Crisóstomo afirma que nunca conseguira convencer-se de que alguém pudesse salvar-se sem ter contribuído de algum modo para a salvação dos seus irmãos.

 

Como seria infinitamente mais prudente animar estes jovens a oferecer ao Senhor, na qualidade de legionários, a melhor parte do seu tempo livre! Isso os animaria pela vida inteira e conservaria no seu coração e no seu rosto a serenidade e a alegria da juventude. E lhes sobraria ainda muito tempo para o legítimo lazer, então duplamente saboreado, porque duplamente merecido.

 

5. “A Legião não passa de uma organização como tantas outras, com o mesmo ideal e o mesmo programa”.

 

É certo que os idealismos se multiplicam e que um programa de trabalhos grandiosos pode ser elaborado em poucos minutos pelo primeiro que apareça e disponha de caneta e papel; não se pode negar também que a Legião é uma das muitas organizações que nobremente se lançam à luta pela conquista dos corações e apresentam um programa importante de trabalhos; mas é também uma das poucas que definem claramente o seu apostolado.

 

Um vago idealismo, seguido por vagos apelos a fazer o bem, será fatalmente seguido de vagas realizações.

 

A Legião, porém, encarna o seu ideal numa espiritualidade definida, num programa de oração definido, numa tarefa semanal definida, num relatório semanal definido e, também, como se poderá verificar, numa realização definida. Finalmente, e isto não é o menos importante, a Legião baseia o seu método no princípio dinâmico da união com Maria.


[Capítulo 32      Antecipando Objeções Prováveis      página 184]

 

6. “O que a Legião pretende fazer, outras organizações o fazem; não virá criar conflitos?”

           

Conflitos! Serão eles possíveis em localidades onde a maior parte da população não pratica a religião ou não é católica, e onde os progressos são insignificantes? Como seria triste ter de aceitar como normal este estado de coisas em que Herodes nos aparece ainda entronizado no coração dos homens, enquanto Jesus e Sua Mãe Santíssima continuam sempre obrigados a ficar no presépio miserável. Muitas vezes mesmo, este pretexto com que se nega a entrada à Legião é invocado a favor de organizações cujas obras não correspondem à fama alcançada: exércitos que, embora existam, não conquistam o inimigo.

           

Além disso, o trabalho que não se faz de forma adequada deixa de existir. O mesmo acontece com a obra que utiliza algumas dúzias de apóstolos no trabalho que, propriamente, exigiria centenas ou milhares. Este caso é, infelizmente, o mais comum. O reduzido número de braços revela, por vezes, falta de organização e, conseqüentemente, de entusiasmo e de método.

           

Estai certos de que em toda a parte há lugar para a Legião. Experimentai, concedendo-lhe um campo de ação por pequeno que seja. Em presença dos resultados que com certeza convencerão, permiti que esse punhado de legionários se multiplique como os cinco pães de cevada do Evangelho, de modo a remediar todas as necessidades espirituais e mais do que isso (Cf. Mt 14, 16-21).

           

A Legião, em matéria de realizações, não tem programa especial. Não pressupõe o empreendimento de novos trabalhos, mas, sim, fornecer uma base para a organização das obras já existentes, de forma a multiplicar-lhes a eficiência, como acontece com a aplicação da energia elétrica a trabalhos anteriormente manuais.

 

7. “Há já organizações demais. Não seria melhor injetar vida nova às existentes ou integrar nas suas funções os trabalhos propostos pela Legião?”

 

Este argumento significa estar fechado para o novo. Em todos os campos da atividade humana se poderia dizer que há organizações demais. A novidade não deve ser rejeitada pelo simples fato de ser novidade, pois ela traz, muitas vezes, o progresso. Por isso, a Legião reclama oportunidade de mostrar o seu trabalho. Será que não seria desastroso fechar-lhe a porta, tratando-se de uma obra de Deus?